terça-feira, 25 de agosto de 2015

à primeira vista

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em À primeira vista, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”

Eu, quando ouvi Salif Keita pela primeira vez, em 1987, no seu disco de estreia, Soro, me emocionei. E mais ainda ao saber da história desse grande músico maliano. Nascido em uma família fundadora do Império Mali, o cantor tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas, ou povo, não sei bem como denominar. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.

Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano, como Salif Keita, tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas sua arte ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor, que hoje completa 66 anos de idade.

Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.

O cantor mora em Paris desde os anos 80. Quando criou asas, voou.

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