domingo, 23 de agosto de 2015

o teatro está nu

                                     foto Maurício Cuca

Ao sair da apresentação da peça Isso te interessa?, na programação do Festival Cena Contemporânea 2015, em Brasília, não tem como não se questionar: “por que os atores estavam nus? Faria alguma diferença se o texto fosse interpretado com eles vestidos?”.

Não, não faria diferença. Mas não teria o mesmo impacto que teve ao diretor decidir pela montagem dessa forma, todo o elenco apenas com o “figurino” de sapatos, pulseiras, colares. 

Vertida do texto original Bon, Saint-Cloud, da dramaturga francesa Noëlle Renaude, a peça do grupo curitibano Companhia Brasileira de Teatro, aborda, através de acontecimentos aparentemente pueris, as relações humanas que se modelam em uma família, os sentimentos que se definem entre pai, mãe, filho e filha, em espécies, descendências e gerações. E até com os animais, como um cachorro de estimação.

Na dissecação do texto, a narrativa em colocar as próprias rubricas da peça nas falas/interpretações dos atores, é um procedimento de adentrar nesse texto enquanto teatro, enquanto reflexão dramatúrgica, enquanto experimentação e busca nesse gênero artístico milenar que se define e se molda em um palco. 

Essa radicalização se completa, e ousa, e se argumenta espantosamente bem, pela nudez dos atores. Não há erotização nesse propósito. Os atores estão nus porque avançam no desnudamento da alma dos personagens. A nudez solidificada em cena, é a reflexão da alma dos personagens com suas vísceras de emoções, fraquezas, virtudes. 

A entrega dos atores em seus papeis, com coragem e compreensão, é necessária para que esse “figurino” não desvie a atenção para o que a peça intenciona ruminar e ecoar em cada um de nós. A atuação do elenco (Giovana Soar, Nadja Naira, Ranieri Gonzalez, Rodrigo Ferrarini), com a atenta direção de Márcio Abreu, contempla o objetivo, fundamenta cada gesto. A nudez dos atores é o desnudamento do texto, é a nudez do teatro. Mais: é a nudez dos nossos sentimentos. É o corpo interno, onde o que existe é o agora como real, sem as amarras do tempo psicológico de passado e futuro.

A Arte não existe apenas por dizer. E isso nos interessa.

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