sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

visita no jardim

Imagine um centauro em pleno século 20, filho de imigrantes russos judeus no interior do Rio Grande do Sul. Imagine esse ser metade homem, metade cavalo, culto, inteligente, vivendo, por motivos óbvios, excluído da sociedade, em um isolamento forçado, até decidir-se por mostrar-se quem é, o que pode fazer de bem para todos, enfrentando discriminações.

Tento aqui resumir a história de um dos livros que mais me impressionou, comoveu, fez refletir: O centauro no jardim, de Moacir Scliar, publicado em 1980. Ouso dizer que o realismo fantástico que conduz a narrativa cativante, me marcou muito mais do que Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques. Na obra-prima do colombiano, enquanto a excêntrica família Buendía da fictícia cidade Macondo se multiplica pelos tempos, acompanhamos a possibilidade de uma crônica de vidas anunciadas, em significados plausíveis, com seus personagens eternamente acesos pela insônia, seus pergaminhos à espera de tradução etc. Em Centauro, o personagem em sua singularidade, irreal e quimérico, da pacata família Tartakovsky, vindo da pequena cidade Quatro Irmãos, que existe, conduz a leitura de uma forma que conseguimos “aceitar” naturalmente tais elementos absurdos, pela força que a fábula representa na dualidade da vida em sociedade, pela urgência de harmonizar individualismo e coletividade. O recurso de Scliar em colocar seu personagem mitológico em tempo e espaço reais, é o grande desafio pela profundidade da narrativa provocadora. Não me espantaria se eu encontrasse, após a leitura, um centauro em algum jardim, rua, praça...

Pelo tocante de originalidade da obra, O centauro no jardim é um dos livros mais traduzidos e publicados no mundo. Ainda não teve uma adaptação para o cinema, como foram dois romances do escritor gaúcho, Um sonho no caroço do abacate, nas telas com o título Caminho dos sonhos, dirigido por Lucas Amberg, em 1998, e Sonhos tropicais, de André Sturm, 2002.

Além do livro, um exemplar de grandeza na literatura brasileira, o seu autor foi uma das pessoas mais maravilhosas que conheci. A ele aplico a máxima de Leonardo Da Vinci, “a simplicidade é o último grau de sofisticação.”

Autor de romances, contos, crônicas, ensaios, e conciliando sua atividade literária com a de médico sanitarista, meu querido Moacir Scliar foi para outros jardins há quatro anos, numa madrugada de 27 de fevereiro.

2 comentários:

Hilda disse...

Nirton, por seu comentário, li o livro e, desde então, tenho convivido com os meus centauros - nem sempre em jardins! Obrigada e grande abraço!

Nirton Venancio disse...

Hilda, que alegria ter você como leitora dos meus escritos...e mais ainda pegando as minhas dicas. Fico muito feliz, muito.