sábado, 28 de janeiro de 2006

rito de passagem



"A boa performance do cinema brasileiro em 2005 reflete o direcionamento das políticas públicas para o aumento e diversidade da produção e para a ampliação da presença dos nossos filmes no mercado nacional. Cerca de 12 milhões de espectadores acorreram a filmes nacionais, que ocuparam 14% do mercado, o maior percentual da América Latina e da maioria dos países da Europa e da Ásia. Tanto no aspecto da quantidade e do comportamento mercadológico (como provam os números), como no da qualidade (como afirmam a crítica e os cinéfilos), o cinema brasileiro vive o seu melhor momento nos últimos 25 anos.

As políticas públicas iniciadas pelo ministro Gilberto Gil em 2003 (reorientação de investimentos, aumento substancial de recursos, valorização das expressões artísticas e produtivas regionais, maior operacionalização dos mecanismos da renúncia fiscal) desencadearam um processo de renovação e crescimento do nosso mercado, com a inserção de novos agentes internos e externos. A concepção dessas políticas levou em consideração demanda histórica do setor, ao criar mecanismos de fomento e regulação focados na promoção do produto nacional em suas diversas expressões e formatos.

Duas linhas operacionais integram-se nessas políticas: ações de caráter estrutural visando o ordenamento da cadeia produtiva e comercial de maneira sustentável a longo prazo e ações de fomento direto. Na primeira linha listam-se o alargamento das bases de aplicação das leis de incentivo, aumento e planificação estratégica dos investimentos das empresas estatais, desenvolvimento de novos mecanismos de financiamento da atividade, aparelhamento eficaz da Ancine para fiscalização e cobrança nas mídias dedistribuição.

Na segunda linha, o fomento direto caracteriza-se pela descentralização de investimentos, através de editais que valorizam a diversidade seja no âmbito da regionalização, seja no tocante aos distintos gêneros e formatos e aos diversos segmentos da cadeia de produção e consumo cultural. O desdobramentodesta atuação estende-se aos programas da área internacional, desenvolvidos bilateralmente e multilateralmente.

O conjunto articulado dessas ações resulta no aquecimento do mercado, na possibilitação do lançamento de 51 filmes nacionais em 2005 e na listagem, pela Ancine, de mais de 60 lançamentos para 2006. Na perspectiva da política que está sendo executada, ainda há muito que fazer, mas o viço das primeirasflores mostra que o jardim está bem cultivado. Trata-se de um programa impulsionado pela necessidade de reordenação da economia audiovisual brasileira frente aos novos parâmetros planetários: novas tecnologias, novos veículos de difusão, convergências tecnológica e empresarial, hegemonias e o peso do audiovisual no equilíbrio ou desequilíbrio sócio-econômico no interior das nações e nas relações internacionais.

Apesar de contar com aprovação e apoio da grande maioria dos empresários e trabalhadores de cinema, uma política com essa magnitude gera naturalmente temores em áreas conservadoras e confrontos por maiores parcelas do novo mercado que está se conformando em escalas nacional e mundial. Novosparticipantes e novos modelos negociais passam a atuar em um âmbito anteriormente restrito e os atores tradicionais têm de adequar-se á realidade emergente. Uma adequação inteligente, racional e com conhecimento de causa é o que se espera desses atores, para o bem do povo e felicidade geral da Nação."


Orlando Senna, cineasta e Secretário do Audiovisual

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