quinta-feira, 30 de julho de 2015

o poeta da angústia


"Um filme não precisa ser entendido, basta que seja sentido".

A frase é do italiano Michelangelo Antonioni, chamado de o cineasta da incomunicabilidade. Prefiro considerá-lo o poeta da angústia. Ou mesmo da modernidade, como bem dizia o seu compatriota Walter Veltroni, um dos mais apurados críticos de cinema - outra espécie em extinção, infelizmente.

Antonioni não segurou a solidão neste mundo cheio de poucos bons cineastas e seguiu atrás de Ingmar Bergman, ambos falecidos em 30 de julho de 2007. Tinha 94 anos e morreu numa segunda-feira à noite, na tranquilidade de sua casa, sentado numa poltrona, ao lado da esposa Enrica Fico, como numa cena dirigida por ele.

É difícil escolher somente um ou dois filmes bons desses mestres que se vão e deixam o cinema órfão.

Antonioni dizia que se esforçava em exigir do ator o seu instinto mais do que seu cérebro. É exatamente isso que sentimos ao adentrar na tela quando assistimos A noite (La notte), de 1960, O eclipse (L'Eclisse), de 61, ou O deserto vermelho (Il deserto rosso), de 64. Ou ainda o clássico Blow-up, de 67, ou a viagem psicodélica de Zabriskie point, no sintomático ano de 1969. Ou ainda O passageiro - Profissão: repórter (The passenger), 1975, um dos pouquíssimos filmes em que Jack Nicholson não faz o papel de Jack Nicholson.

O cinema de Antonioni é marcado pela obsessão da imagem e a busca de uma linguagem formal e estética, com cenas longas e lentas, o que servia para indagar o interior de suas personagens, num espaço enigmático. Comunicava-se com sua câmera com a incomunicabilidade desses personagens.

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