terça-feira, 17 de março de 2015

o cinema por testemunha


O sol por testemunha (Plein soleil), produção franco-italiana de 1960, dirigida por René Clement, é um dos melhores filmes de suspense da história do cinema.

A trama armada ao longo da narrativa, em ritmo crescente, nos tornando "cúmplices" dos planos do personagem principal, é um  exemplo de como se faz um bom filme de suspense. E suspense aqui não tem nada, nada vezes nada, a ver com sustos explícitos que esses estultos roteiristas de Hollywood "criam" nesses filmecos de shopping.



Na obra-prima de René Clément, que hoje completam 19 anos de sua morte, o suspense compactua com o voyeurismo de quem assiste, que é uma característica da relação cinema-espectador. Acompanhamos a história, e em algum momento nos pegamos a favor, mais do que contra, da personalidade dos personagens. Contextualizados que estamos no filme, nos flagramos e nos espantamos com comportamentos que escondemos à luz do dia lá fora. No escurinho do cinema, nos confrontamos com nossas mais secretas disponibilidades para isso ou aquilo. Tanto quanto entretimento, cinema é reflexão. Mesmo rindo, mesmo lacrimejando, mesmo se assustando. Mas o filme tem que ser Cinema, e não um "filme" tão somente.



Em O sol por testemunha, a segura direção e as afinadíssimas atuações de Alain Delon, Marie Laforêt e Maurice Ronet,  concretizam de maneira irretocável um roteiro bem construído, uma estrutura de narrativa clássica de suspense psicológico. O filme inspirou Roman Polanski a fazer o seu primeiro longa, o igualmente ótimo A faca na água (Nóz w wodzie), rodado na Polônia, em 1962. 

Naquele começo de década, o cinema francês reinventava os códigos da linguagem cinematográfica através da nouvelle vague, e mesmo sem estar inserido na nova onda, Clément  não se situa à margem por sua compreensão e inteligência atemporal.  Não por acaso, o diretor de fotografia, Henri Decaë, fez um  ano antes Os incompreendidos (Les quatre cents coups), de François Truffaut.


O sol por testemunha é baseado no livro O talentoso Mr. Ripley, de Patricia Highsmith, título da refilmagem feita por Anthony Minghella, em 1999, com Matt Damon e Gwynett Paltrow.  A diferença é enorme.  Sem comentários.  

E o personagem continuou se propagando, ou se diluindo, em continuações mais-do-mesmo: até a respeitada cineasta italiana Liliana Calvani dirigiu sob encomenda, em 2002, O retorno do talentoso Ripley (Ripley games), e o sempre encomendado Roger Spottiswood ousou um tal de Ripley no limite (Ripley under ground), em 2005. O cinema é testemunha do que fazem com esses remakes. 


Em tempo: Patricia Highsmith também foi adaptada por Alfred Hitchcock, em 1951, com o  excelente suspense Pacto sinistro (Strangers on a train). Cinema!

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