quinta-feira, 19 de março de 2015

José

Há alguns anos, lendo sobre Caravaggio, descobri um discípulo seu, o pintor francês Georges de La Tour, que viveu no final do século 16. Sua obra é de uma beleza fascinante, uma técnica de claro-escuro como poucos sabiam aprofundar. 

A vida de La Tour era outro fascínio. Criava uma enorme quantidade de cães, era intempestivo e não levava desaforo para casa, ou para o atelier, onde passava todo o seu tempo, na pequena cidade ao norte da França. O cristianismo e as pessoas comuns são os temas de sua vasta obra, somente descoberta no começo do século passado, e hoje espalhada em museus na capital francesa e Estados Unidos. Infelizmente, não encontrei publicações em português sobre esse grande artista pouco conhecido.

Lembrei-me dele por conta desse belíssimo quadro abaixo, São José, o Carpinteiro. Lembrei-me dele porque hoje é feriado local em Fortaleza, Dia de São José, e em mais de quarenta cidades brasileiras.

Dia de José e Dia dos Carpinteiros, Marceneiros. Esses mestres é mais um dos meus fascínios. Trabalhar com a madeira, talhar a madeira, transformar a madeira, esculpir a madeira em móveis, objetos, peças, é uma arte ainda não devidamente valorizada.

Quando criança, eu costumava frequentar a oficina do único carpinteiro da minha pequena cidade. Ele trabalhava vestido em frouxas calças de linho cinza e camisa de mangas arregaçadas, usava um enorme chapéu de feltro, e bigodes à Salvador Dali. A figura clássica de um grande artista renascentista no interiorzinho cearense. Não lembro o nome dele, mas eu o chamava de "Seu José", e pronto. Eu pisava o chão coberto de serragem, pegava uns pedaços de madeira e pregos pra fazer carrinhos na minha marcenaria improvisada no fundo do quintal.

Hoje é feriado em Fortaleza. Hoje é feriado em mim.

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