segunda-feira, 1 de outubro de 2018

ontem ainda

São poucos os cantores que têm sua carreira paralela a uma intensa atividade de ator no cinema, como Charles Aznavour. As canções She, La Boheme, Hier encore, Que c'est triste Venise, e tantas outras estão na memória afetiva de várias gerações, assim como as atuações marcantes nos filmes Atirem no pianista, de François Truffaut, Vive la lie, de Claude Lelouch, O tambor, de Volker Schlöndorff, entre mais de 60 filmes.
Filho de pais armênios, Aznavour esteve ano passado no Brasil, em shows no Rio de Janeiro e São Paulo, mas antes, em 2008, fez uma turnê mais longa, levando uma multidão de fãs nas cidades Recife, Goiânia e Fortaleza.

Com 1,60 de altura, o cantor se tornava um gigante no palco. Simpatia, carisma e uma voz que toca o que o coração nos toca.
Aznavour partiu para outros palcos nessa madrugada de 1º de outubro. Tinha 94 anos. Deixou na autobiografia O tempo do antes (Le temps des avants), lançada em 2004, um dos mais sinceros relatos que um artista expressou sobre sua arte, sua vida e seu público.
E na essência do título do livro, o ator e cineasta Selton Mello fez uma adequada homenagem colocando na trilha sonora de O filme da minha vida, 2017, a canção Hier encore, que Aznavour compôs e gravou em 1964. Com roteiro do diretor e de Marcelo Vindicatto, baseado no livro Um pai de cinema, do chileno Antonio Skármeta (o mesmo de O carteiro e o poeta), ambientado no começo dos anos 60, a narrativa do filme se desenvolve em ritmo de metalinguagem, ao discorrer a ação do personagem central, um jovem fascinado por poesia e cinema, que convive com a ausência do pai, um projecionista de filmes que foi embora sem avisar à família.
A letra da composição francesa fala das reflexões de um homem, quando teve seus vinte anos de idade, o que viveu e aproveitou, e o que desperdiçou, o que deixou passar pelo impulso da juventude. Personagem do filme dialoga com o tema da canção não por contrição, não por sentimento de compunção, mas pela viagem que faz em tudo que está ao redor: a presença dos amores, dos livros, dos filmes, e o absentismo paterno, que também está intimamente ligado ao cinema, como o projecionista de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore.
Uma viagem ao meio de uma história, ao coração de uma trajetória, como apresenta o narrador em off na abertura do teaser no vídeo abaixo.
Hier encore é um percurso ao coração de si, o compositor passeando nos campos de sua juventude... O filme de minha vida, é uma viagem de trem ao coração do cinema, o cineasta vendo pela janela o interior do filme.

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