terça-feira, 30 de outubro de 2018

canções da resistência



“Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação. / O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão”
- Belchior em Bahiuno, faixa do disco homônimo de 1993. Musicada por Francisco Casaverde, a letra cabe bem, e infelizmente, nos tempos de agora quando há perigo institucionalizado na esquina.
Um ano e seis meses hoje que o cantor ficou encantado como uma nova invenção.
Suas letras de beleza única, literárias e filosóficas, trazem na densidade discursiva uma dimensão política, uma compreensão e reflexão do mundo com seus perigos e esperanças.
Enquanto houver espaço, corpo e algum modo de dizer #elenão, nós cantaremos.
Na contracapa do disco, Belchior colocou a imagem de um rinoceronte a que se refere no final da letra. A ilustração é do pintor alemão Albrecht Dürer, um dos mais importantes do Renascimento Nórdico, século 16. O cantor fez referência ao primeiro rinoceronte que chegou a Europa, desembarcado em Portugal vindo da Índia, presente do sultão Muzafar II. Até então, o bicho era criatura lendária para os europeus, incluída nos bestiários com os unicórnios.
Bahiuno foi o último disco autoral de Belchior. Além de Casaverde, entre as 16 canções, parcerias com Jorge Mello, Graco Braz, Caio Braz, João Bosco, João Mourão e Eduardo Larbanois. É um disco conceitual, forte em referências históricas que se contextualizam em questões contemporâneas. O neologismo do título une o nordestinado baiano com o huno da Ásia Central. Ambos são migrantes, fugitivos de vidas secas em buscas de outros campos e invernada. Migrantes como o rinoceronte, um bahiuno no reino português.

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