segunda-feira, 29 de outubro de 2018

cartas de resistência

“𝐄 𝐭𝐞𝐦 𝐨 𝐬𝐞𝐠𝐮𝐢𝐧𝐭𝐞, 𝐦𝐞𝐮𝐬 𝐬𝐞𝐧𝐡𝐨𝐫𝐞𝐬: 𝐧ã𝐨 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐧𝐥𝐨𝐮𝐪𝐮𝐞𝐜𝐞𝐫, 𝐧𝐞𝐦 𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐚𝐫, 𝐧𝐞𝐦 𝐝𝐞𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐫. 𝐏𝐞𝐥𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫á𝐫𝐢𝐨: 𝐯𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐟𝐢𝐜𝐚𝐫 ó𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞 𝐢𝐧𝐜𝐨𝐦𝐨𝐝𝐚𝐫 𝐛𝐚𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐚𝐢𝐧𝐝𝐚.”
Trecho de uma carta de Caio Fernando Abreu a sua amiga Jacqueline Cantore, em 1° de novembro de 1981.
O escritor gaúcho foi um missivista compulsivo. De sua Olivetti Lettera 44, datilografou uma infinidade de cartas, com forte essência poética, dos mais variados e cotidianos assuntos, de fatos comezinhos a reflexões existenciais e filosóficas. Escritores, atores, cantores, amigos eram os destinatários.
O poeta, curador literário e professor da UFRJ Ítalo Morriconi, numa pesquisa minuciosa, reuniu dezenas dessas cartas, juntamente com escritos de cartões postais, bilhetes, e publicou em 2002 o livro Caio Fernando Abreu: Cartas, com mais de 500 páginas, o que nos dá com a narrativa fragmentada uma espécie de um romance de vida, de fôlego combativo e resiliente.
Caio Fernando Abreu viveu em período brabo de ditadura militar, foi um dos primeiros a escrever abertamente sobre sexo numa visão dramática, e assumiu sem rodeios sua homossexualidade.
O fragmento da carta acima cabe muito adequadamente aos próximos tempos de resistência democrática que começou ontem, com o resultado desastroso da eleição presidencial.
Não nos dispersemos, seguimos de mãos dadas!

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