segunda-feira, 6 de março de 2017

o voo na madrugada

foto Jacques Chevry, 1975
Durante a ocupação da França pelos alemães, o cantor, compositor e poeta Charles Trenet teve que provar aos nazistas que não era judeu, pedia que o deixassem trabalhar. Seus shows amenizavam uma multidão que o adorava naqueles sombrios tempos de guerra.
Mas a perseguição ao artista dava-se não somente pela sua suposta origem judaica, e sim porque corajosamente assumiu sua homossexualidade. Trenet trazia também dolorosas lembranças de sua infância, abandonado pela mãe quando tinha sete anos, criado sob rígido tratamento em um internato.
Em suas músicas nada desses traumas se manifestavam. O cantor resistia e se curava de forma inversa ao fundo do poço. Tinha como característica a alegria, as apresentações sorridentes que cativavam a plateia. Charles Aznavour o tem como referência na maneira de envolver o público com as canções.
Em 2000 na abertura de um concerto, Charles Trenet, como sempre brincalhão e espirituoso, abriu a noite dizendo à sala lotada: "Quem veio ao meu show está dispensado de ir a meu enterro". O cantor tinha 86 anos, estava se recuperando de um infarto, e achava que até os 70 teria feito tudo que precisava com sua arte.
Aquela noite foi sua última apresentação. Partiu no ano seguinte, no silêncio da madrugada, enquanto dormia. Uma partida como desejava ao falar da morte: "Eu quero ir voando". Mas os fãs o desobedeceram e uma multidão compareceu ao seu último voo.

Nenhum comentário: