quarta-feira, 22 de março de 2017

nobreza da música

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em ‘À primeira vista’, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”, gravado em seu primeiro disco, “Aos vivos”, 1995.
Nascido em uma família fundadora do Império Mali, Salif Keita tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.
Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas a arte de Salif Keita ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor.
Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.
Aos 68 anos, o cantor mora em Paris desde a década de 80. Quando criou asas, voou.

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