quarta-feira, 29 de março de 2017

na Pedra do Ingá

Lula Côrtes é um dos nomes mais representativos da música brasileira, como compositor, cantor, letrista, poeta de versos cheios.
Pernambuco da gema, fez em parceria com o compositor e cartunista Lailson, o primeiro LP independente do país, Satwa, em 1973, embora alguns historiadores não se atentem para o pioneirismo. Naquele disco a dupla iniciou uma ousada mistura dos ritmos nordestinos mais primitivos com arranjos de rock psicodélico, muito bem desenhados nos riffs do jovem Robertinho de Recife.

Essa liquefação de ritmos sonoros reverberou de forma intensa em Paêbirú, vinil em dupla com o Zé Ramalho, 1975, onde além dos ritmos agrestes com os toques lisérgicos, os arautos sertanejos incluem o balanço do jazz.
Gravado artesanalmente naqueles pulsantes anos 70, o disco se tornou histórico, mítico, não somente pelo conteúdo, como também pelo fato das 1300 cópias impressas, apenas 300 sobreviveram a enchente em Recife, quando a gravadora Rosemblit foi invadida por um tsunami das águas do Capibaribe.
Quem tem o disco, tem e pronto, não empresta, e muitos sequer caem na tentação da oferta no mercado de raridades, cotado hoje a R$ 5 mil o exemplar.
Em 2005, o famoso selo da Inglaterra Mr. Bongo Bass relançou a obra em vinil, e há sete anos no Brasil em CD. Não é a mesma viagem, mas dá, de olhos fechados e ouvidos escancarados, adentrar nos microssulcos analógicos da Pedra do Ingá, região do interior paraibano, onde os monumentos arqueológicos, as lendas indígenas e as visitas interplanetárias inspiraram as onze faixas do disco duplo.
Lula Côrtes depois de tocar com Zé Ramalho e fazer parte da banda de Alceu Valença, lançou discos solos de grande qualidade na década 80, e ainda nos 70 outros que nunca chegaram ao mercado.
Neste país de amnésia crônica cultural, a importância de Lula Côrtes pouco se dá. Nos anos 2000 o compositor sobrevivia de um salário como assessor de uma prefeitura no interior de Pernambuco e de trabalhos como artista plástico.
Domingo passado fez seis anos que ele se mandou de vez pras pedreiras do Ingá. Tinha 61 anos, um câncer na garganta e uma tristeza no coração.

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