terça-feira, 28 de agosto de 2007

é tudo cinema

filmagem do documentário "Dim", em Pindoretama, Ceará. Foto Rubens Venancio

"...sabemos que documentários podem ser tão complexos quanto filmes de ficção, mas essas complexidades quase nunca afloram quando estamos lidando com críticos ou diretores de ficção. A questão que prevalece nunca é o filme em si – isto é, a gramática do filme, a forma como diz o que pretende dizer – mas o tema: ‘Sobre o quê é o seu filme?’ ou, pior, ‘Qual é a mensagem do seu filme?’ Ora, nós não somos os Correios. Se fazemos documentários, é porque acreditamos em cinema, não em telegramas."

Trecho de um texto do cineasta João Moreira Salles, que participou recentemente do Seminário Flaherty, em Nova York, tradicional encontro internacional de documentaristas.

Eu, que sou um convicto diretor de ficção, e acabei de dirigir o meu primeiro documentário, estou passando pelo mesmo tipo de "interrogatório".

O texto na íntegra está no blog do crítico Carlos Alberto Matos, aqui.

sábado, 25 de agosto de 2007

seguindo a trilha

Egberto, vocalista da banda Sanatos. Foto Nirton Venancio

Um dos melhores momentos na montagem de um filme é quando se coloca a trilha sonora. Primeiro os diálogos, chega o som ambiente, depois os efeitos sonoros, e lá vem a música fechando sempre solenente um trabalho audiovisual.

Desde que nasceu o cinema sempre quis falar. Lá nos primórdios quando eram exibidos os filmes mudos, um pianista estava sempre ao pé da tela, acompanhando as imagens, compondo a trilha ao vivo, de acordo com o que acontecia na história. O cinema não era tão mudo assim.

Hoje foi um sábado inteiro com a Banda Sanatos no estúdio ProÁudio, em Fortaleza, para a gravação da trilha sonora do documentário "Dim". Os cinco garotos de Camocim chegaram na madrugada e mandaram ver a versão heavy metal de "Menina linda", clássico da chamada música brega nos anos 80, de autoria do maranhense Raimundo Soldado, uma espécie de Chuck Berry dos Inhamus, pelo seu visual black de jaqueta e cabelo lambido com gumex.

Egberto no vocal, Vinicius e Herbete nas guitarras, Marcão no baixo e Jeison na batera, fizeram uma releitura da música com bastante originalidade. Captaram a essência do que a direção do filme pediu. Os riffis do som servirão de trilha em algumas passagens do documentário. Soldado com sua voz terá vez numa das cenas, marca presença com o espaço e o tempo merecidos, quando o artista plástico Dim fala de suas lembranças de adolescente em Camocim, e via e ouvia os conjuntos (isso mesmo, conjuntos!) tocando a música do jeito deles. "Menina linda" com um atualizado figurinho groove metal une esses dois tempos. O sentimento é o mesmo, o que muda é a forma de expressá-lo.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

o rio que corre

foto Rubens Venancio

Um filme não é um rio que corre com regularidade. Pode haver quedas, cascatas, correntezas.

Palavras do mestre Jean-Claude Carrière, roteirista francês, autor de várias obras-primas dirigidas por Buñuel, Louis Malle, Jacques Deray, Volker Scholöndorf, Peter Brook, Andrejz Wajda, Marco Ferreri, Godard...

Na ilha de edição do documentário "Dim", reflito sobre o rio de imagens na minha frente, que não corre mesmo com regularidade. E o segredo está no ritmo que se cria, na alternância entre essas quedas, cascatas, correntezas...

domingo, 19 de agosto de 2007

sábado com Maurício

o fotógrafo Maurício Albano com sua filha Marisol. Foto acervo pessoal

"O tempo não é o mesmo sobre os aviões e os pássaros: / nas asas de um é tudo muito rápido / nas asas do outro é tudo muito livre", diz uns versos meus rabiscados no livro "Poesia provisória". E foi essa sensação de liberdade que senti ontem ao rever o meu amigo Maurício Albano, um dos maiores fotógrafos brasileiros. É tudo muito livre sobre ele e o seu trabalho.

Não via o Maurício há algum tempo. Ontem à tarde, num descanso pós-filmagens, fomos eu, Dim, Ângela e Fátima Façanha para um café com tapioca em sua casa. E uma cachacinha branca que ele foi pegar na bodega mais próxima, correndo no seu velho jeep feito um Fred Flintstone. Figuraça! Precisávamos brindar esse reencontro.

Maurício mora na mesma casa-sítio-estúdio que construiu já faz tempo às margens da Lagoa Redonda, um bairro hoje nem tanto afastado de Fortaleza. Ali vive, ali trabalha, ali planta, ali criou seus filhos, e não tem mesmo porque sair do paraíso para um apartamento na beira-mar.

Na minha adolescência em Fortaleza, Maurício era meu ídolo. E continua sendo. Com o acréscimo luxuoso de ser meu amigo. Em 1988 o convidei para fazer stil no meu primeiro curta-metragem, "Um cotidiano perdido no tempo". O que tinha do que se faz de inatingível nos ídolos, ele próprio desfez no convívio das filmagens, revelando-se com sua rolleflex, digamos poeticamente assim, uma pessoa de extrema sabedoria e simplicidade, características próprias dos grandes homens, destes que fazem a gente manter a crença na humanidade.
Eu tinha, então, na minha equipe, um dos papas da fotografia no Ceará, e passaria a ter uma pessoa rara no meu seletivo grupo de amigos - aqueles com quem tenho o prazer de beber uma cachacinha numa tarde de sábado. Conversamos sobre cinema, fotografia, artes plásticas, projetos. Contamos histórias, piadas, mentiras, verdades. Filosofamos, desfilosofamos. Uma tarde de risadas, abraços e afetos.

sábado, 18 de agosto de 2007

o mesmo ar

equipe do filme "Dim", sob a luz de Pindoretama. Foto Rubens Venancio

"... a cada reencarnancão por mais bem vividas que tenham sido as anteriores, o encarnado pode até pensar que já compreende muita coisa, mas, quando fica velho, vê que não compreende quase nada, precisa voltar sabe-se lá quantas vezes - Deus não tem pressa nenhuma, para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã, só quem vive dentro do tempo somos nós. Para ficar apenas num exemplo, quem compreende os mangues, todas as suas plantas, todos os seus mosquitos, todas as suas mutucas, todas as suas locas, todos os seus siris, sururus, caranguejos e aratus? Ninguém, por mais escolado. E assim, tudo mais, das pedras enterradas aos bichos voadores, o que se conta sempre podendo ser verdade ou mentira, nada se logrando provar com prova provada mesmo.

Mas alguma coisa sempre se sabe, tirado mais daquilo que se sente do que daquilo que se vê. Por exemplo, sinta o ar."


Trecho do livro "Miséria e grandeza do amor de Benedita", do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que estou lendo nos intervalos da montagem do documentário-ficção "Dim".

Volto ao cinema a cada filme sem nunca largá-lo enquanto espero a próxima tomada. E vejo que cada cena na vida e no set é um eterno aprendizado que vai fazendo sentido à vida. Achego-me cada vez mais às pessoas que amo, que já conheço e residem aqui no peito; encontro outras novas que se tornam do meu convívio, e vão também se aproximando, e passamos a respirar o mesmo ar em volta.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

próxima tomada

Depois de duas semanas no "som!", "câmera!", "ação!", as filmagens do documentário-ficção "Dim" deu o último take. Foi concluída a captação de imagens, que é menos dolorosa e até mesmo mais prazerosa do que a captação de recursos, de financiamento para a produção.

Sempre que termina esse período de filmagens, fica um vazio em cada um da equipe, uma saudade saudável do espaço no set em que todos conviviam. Mas o filme não acaba. Muito pelo contrário, recomeça, outras tomadas se aproximam. Parte-se para uma nova etapa, um novo ciclo quando outras pessoas se juntarão àquelas que continuam.

De minha parte, ficarei mais próximo do montador Rui Ferreira, em Fortaleza, por umas duas semanas, no mínimo. E entrelaçando esses dias, a gravação da trilha sonora com a banda Sanatos, de Camocim, e encontros constantes com o Dim, esse personagem tão autêntico que com sua energia sempre positiva, contagiou toda a equipe no calor das filmagens em Pindoretama.

o diretor Nirton Venancio e o artista plástico Dim


Nirton Venancio e o diretor de fotografia Roberto Iuri


Roberto Iuri, o assistente produção Adelmar Filho, o assistente de fotografia Alex Meira, a cozinheira dona Luiza, o motorista Magno, Nirton Venancio, Dim, a presidente de honra do Instituto Amor ao Campo Fátima Façanha e o técnico de som Fernando Cavalcanti. Agachados, a diretora de produção e esposa do Dim, Ângela Madeiro e os filhos Risa e Ud


Por trás das lentes destas fotos, Rubens Venancio

domingo, 12 de agosto de 2007

pais do cinema

Hoje, dia dos pais, flagrantes dos pais no set de filmagem do documentário-ficção "Dim", em Pindoretama, Ceará.

o diretor de fotografia Roberto Iuri, que ainda não é pai, e o cineasta Nirton Venancio, pai de Enzo e Manuela

o artista plástico Dim, pai de Risa e Ud


o técnico de som Fernando Cavalcanti, pai de Arthur e Gabriel


fotos de Rubens Venancio, sobrinho, mas como se fosse filho de Nirton

sábado, 11 de agosto de 2007

imagem e voz

foto Rubens Venancio

O artista plástico cearense Dim ficou famoso em boa parte do País por sua arte ligada aos brinquedos infantis. São bonecos, parques, carros, aviões, circos, enfim brinquedos que até hoje povoam o imaginário popular infantil, principalmente das crianças do interior nordestino. Suas peças já foram expostas em várias partes do País e do exterior. Durante a sua trajetória, Dim, 40 anos, angariou críticas positivas e muitos amigos ligados as artes visuais. Agora, sua vida e obra está sendo filmada pelo cineasta cearense Nirton Venancio. Nirton conta que a idéia é antiga, mas somente agora está sendo concretizada. O filme tem o mesmo nome do artista: "Dim".

Nirton Venancio optou por um documentário-ficção e, em 15 minutos, aborda aspectos importantes da vida e da obra de Antônio Jader Pereira dos Santos - o Dim. Tudo começou como uma grande brincadeira, mas depois o projeto foi tomando caminho mais profissionais. “Eu e o próprio Dim investimos na produção e execução do filme”, diz Venancio. ”Quando vendia uma das minhas obras - reforça Dim - logo investia o dinheiro no filme”. Venancio começou a lapidar o roteiro a partir de imagens da infância de Dim, em Camocim. “Colhi imagens também da adolescência do artista, na década de 70, misturando uma trilha sonora que vai do rock ao brega. Foi feita até uma versão heavy metal, pela banda Sanatos de uma música de Raimundo Soldado, compositor brega dos anos 70”, de quem Dim é fã.

O trabalho se completou quando Nirton Venancio viajou a Camocim, a 400 km de Fortaleza, onde fez uma pesquisa mais detalhada sobre o artista plástico e sua trajetória de vida. Convidou atores locais. Um garoto representa Dim, quando menino, brincando nas ruas da cidade. Outra senhora faz o papel da avó do artista, uma artesã, que tingia as redes de tucum, quando Dim começou a lidar com tintas e cores, principalmente com cores primitivas até hoje utilizadas por ele em seus trabalhos. “Não fiz um documentário clássico, com entrevistas. O próprio Dim é o narrador, bem como a sua obra”. Nirton Venancio já tem quase todo o material filmado. Optou por uma narrativa linear. De Camocim a Fortaleza, passando pelo processo criativo do artista e suas exposições em várias partes do país até seu sítio em Pindoretama, onde Dim mantém seu ateliê. “Coloco muitas imagens de época, principalmente da década de 70, imagens que vão pontuando a narrativa do próprio Dim”, diz Venancio. O filme deve ficar pronto em setembro. O orçamento é com dinheiro desembolsado pelo próprio Dim e Nirton Venancio. Tudo foi feito em digital mas, agora, Nirton passará para 35mm, na montagem final da obra. A fotografia é do premiado Roberto Iuri.

Nirton Venancio já realizou sete curtas-metragens e trabalhou como assistente de direção em vários longas, entre eles, “Oropa França e Bahia”, de Glauber Filho; “O Calor da Pele” e “Tigipió”, de Pedro Jorge de Castro e “Corisco e Dadá”, de Rosemberg Cariri. Entre seus curtas mais premiados estão “O Último Dia de Sol” e “Um Cotidiano Perdido no Tempo”. Atualmente, ele trabalha seu primeiro longa - “A Invenção do Dia”.

Dim está satisfeito em se ver na telona. Argumenta que seu trabalho é muita alegre, ligado a infância, o que fará com que o público também relembre a sua meninice. “Todos têm ainda uma criança dentro de si e meu trabalho, acho, faz essa ligação. São bonecos pulando, escorregando, parques do interior, circos, enfim, peças que mexem com o imaginário das pessoas”. Dim vem de uma família de artesãos. Sua família confeccionava coroas de defunto e ele era encarregado de pintá-las. Talvez daí nasceu o artista. Mas não a arte dos cemitérios. Mas sim das ruas alegres de Camocim, da magia dos brinquedos populares do Nordeste. Nirton conta que todo o filme é pontuado apenas pela narrativa de Dim e da sua obra. “Não existe narrativa em terceira pessoa. Somente a obra de Dim, sua imagem e voz”.


José Anderson, Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, 11/8/2007

sábado, 4 de agosto de 2007

voltando ao set

foto Rubens Venancio

Roteiro na mão, pouca grana no orçamento, equipe reduzida e unida: retomo as filmagens do documentário-ficção "Dim", iniciado no começo do ano.

As locações finais serão no sítio-atelier do artista plástico Dim em Pindoretama, a 40 km de Fortaleza, e em Camocim, cidade abençoada pela natureza, de um lado o sertão e do outro o mar, com vista pras dunas de Jericoacara.

Fazer cinema não é fácil, há essas dificuldades financeiras que fazem a gente parar o filme por seis meses, mas tem o lado bom dos cenários naturais, da magia da equipe recriando a realidade na composição das cenas. O olho no visor da câmera, espreitando a vida, enquadrando o tempo.

E é emocionante é "invadir" a história de um artista que tem sua obra impregnada pelas cores de nossa cultura popular. Nos brinquedos recompostos e nas pinturas e esculturas reerguidas, é pulsante o que o ser humano tem de mais verdadeiro na beleza da simplicidade.

Decidi fazer esse filme sobre o artista plástico Dim porque me sinto, como cineasta e amigo, numa necessidade vital de mostrar e divulgar sua vida, sua obra, sua personalidade encantadoramente inquieta. Colocar na tela suas telas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

de grão em grão

foto IluminuraFilmes

Zeca, um pobre menino, escuta de sua avó Perpétua, todas as noites, uma fascinante história de um rei e uma rainha, muito ricos e poderosos, que perderam o único filho e que querem trazê-lo de volta à vida. Enfraquecida pela fome, a avó adoece e tem dificuldade de continuar com a narrativa. Zeca precisa conseguir todos os dias um ovo para alimentar a avó. Assim, ela pode continuar a lhe contar a história que, ao final, trará sábio ensinamento para sua vida.

Esta é a sinopse de "O grão", longa de estréia de Petrus Cariry (foto), cineasta cearense, cabra danado que se revelou talentoso logo nos primeiros curtas, "Maracatu Fortaleza", "A ordem dos penitentes", "Uma jangada chamada Bruna", "A velha e o mar", "La muerte" e o premiadíssimo "Dos restos e das solidões", um belo documentário poético sobre Cococi, cidade esquecida nos cafundós dos Inhamus.

Lá pelo começo dos anos 80 fui assistente de direção em dois longas de Rosemberg Cariry, pai de Petrus. E no set escaldante no meio do sertão, aquele "mininu véi", como se diz no Ceará, já se metia curioso nas filmagens. Deu no que deu.

No Youtube há dois links com os trailers do novo filme. Clique nos grãos:

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Suely em Hamallah

foto VideoFilmes/Divulgação

Na cidade nordestina de Iguatu, no interior do Ceará, não caem bombas nem crianças têm a infância massacrada por guerra insana de adultos. Submetido a violência de outra natureza, o pequeno município brasileiro não oferece oportunidades e sonhos, como em Ramallah, cidade palestina localizada na Cisjordânia.

A angústia exposta em "O céu de Suely", longa de Karim Aïnouz, deve afetar os espectadores palestinos, oprimidos pelo poder bélico de Israel e pelo seu maior aliado, os Estados Unidos. O filme nacional integra a sétima edição do Festival de Cinema Brasileiro em Israel, que começa hoje, e num feito inédito, será estendido pela primeira vez àquela que é a maior cidade da região.

A idéia partiu do próprio organizador do festival, Salomão Ghelfgot, que sempre quis fazer esse pouso, mas nunca conseguiu permissão por conta das tensões políticas da região. A iniciativa foi recebida com festa pelos agentes culturais de Ramallah, que vêem na oportunidade intensa troca cultural, já que a maior informação daquele povo sobre os brasileiros reside no futebol e em seus ídolos. A realização da mostra vai além do intercâmbio. Ajuda a quebrar os fortes bloqueios impostos por Israel às cidades palestinas.

Além de "O céu de Suely", estão programados "O ano em que meus pais saíram de férias", de Cao Hamburger, "Proibido proibir", de Jorge Duran, "O maior amor do mundo", de Cacá Diegues e "Vinícius", de Miguel Faria Jr.

fonte Correio Braziliense