domingo, 25 de julho de 2010

tudo pode dar certo?

 Woody Allen dirige Evan Rachel Wood e Larry David

Dizem que Woody Allen é repetitivo, que cada filme é mais do mesmo, que é verborrágico, discursivo sem vírgulas, encucado metido a engraçado.  O cineasta nova-iorquino é, sobretudo, original, fidelíssimo aos seus conceitos, não faz manobras para expor seu ponto de vista. O cinema de Woody Allen, principalmente os filmes realizados a partir dos anos 80, trazem um conteúdo filosófico inquietante e admirável. E essas reflexões da realidade são expressas de maneira sensata, divertida, de humor quase negro e indiscutivelmente inteligente.

Woody Allen não é um "comediante", por mais que sua cara deponha em contrário, e mesmo quando não protagoniza seus filmes. Por trás daqueles óculos de lentes grossas (sua marca registrada) de um homem franzino, bate um coração cheio de dúvidas, interrogações e nenhuma resposta. O que Allen questiona em seus filmes são perguntas que necessariamente não precisam de refutação. Seu cinema não é um talk show filosófico, não é um Quiz como teste de conhecimentos sobre a esquisitice da raça humana. Em cada filme o cineasta parte de si mesmo, e desse ponto nevrálgico parte do homem como ser complexo, parte da vida como algo que não faz sentido, ou se sentido há, é sempre movido a perplexidade.

Amor, paixão, sexo, religião, neuroses comportamentais, relacionamentos afetivos e outros precipícios, são temas pontuais nos mais de quarenta títulos de Woody Allen, que tem a sorte de poder realizar no mínimo um filme por ano, e assim pôr à vista seus diálogos analíticos.

Tudo pode dar certo (Whatever works), 2009, é mais um belíssimo testemunho de um artista que não cede à passividade, e prefere a crítica mordaz à aceitação ao que é só porque assim lhe parece.  No filme um sessentão, ex-professor universitário, separado, solitário, considera-se ser o único capaz de compreender a insignificância das aspirações humanas e o caos do universo. Inicialmente vemos o personagem como um rabugento, mau humorado, grosseiro, e podemos até continuar achando, mas é impossível não sucumbir aos questionamentos colocados de forma espirituosa, e se envolver com as situações que se sucedem ao longo da história. O humor que se observa no filme é refinado e ao mesmo tempo ácido, cru, implacável.  Fundamentalistas cristãos, judeus e evangélicos, ricos e pobres, homens e mulheres, não escapa ninguém, não há perdão para o chato.

Amante do jazz, Woody Allen capricha cada vez mais na trilha sonora. E dessa vez ouve-se Desafinado de Tom Jobim e Newton Mendonça, numa versão de Stan Getz, e Menina Flor, de Luiz Bonfá, por ninguém menos que o grande  Charlie Bird.

Assim, tudo pode dar certo.

5 comentários:

Clara Angelica Porto disse...

adorei o filme também. não consigo compreender como alguém diga não ter conseguido ficar no filme até o fim, que não gostou. como não gostar? woody allen, para mim, é gênio, um gênio que passeia com aguçado humor nas condições humanas, mostrando várias e imensas questões quase que ao mesmo tempo e como não mergulhar fundo? whatever works é um filme genial. só mesmo a combinação woody allen / larry davies para a composição do personagem principal. e, gente, whatever works... como cantou gil, 'o melhor lugar é ser feliz'.

Nirton Venancio disse...

Clara, quem não gosta do filme e não consegue ir até o final não estaria incomodado com as reflexões expostas na tela? Parece óbvio.

romério rômulo disse...

nirton:
o woody allen é gênio.
romério

Augusto César Benevides disse...

É isso aí,Nirton.
Viajando há alguns anos,quando NY ainda era NY,fui ve-lo tocar sax,num barzinho simples,bem aconhegante.Tudo pode dar certo se
tivermos tempo para olhar para os lados,de desfrutar os caminhos,de fazer amigos...tantos quantos... possamos cultivar.Vejo o seu personagem assim,capaz de,quando tudo ficar difícil,ir tocar sax e
repetir: distraídos venceremos!
A capacidade de gostar de sí e fazer-se feliz é um pressuposto da capacidade de amar o outro.É preciso ter amor pelo que se faz e ele tem.E muito.

Aíla Sampaio disse...

Acho-o autêntico!