terça-feira, 27 de dezembro de 2005

a fuga das salas de cinema



A estréia de "King Kong" no Brasil teve 405.405 espectadores no primeiro fim de semana. É um número e tanto. Mesmo assim, decepcionou os exibidores, que esperavam bater recordes com a terceira versão da estranha história de amor entre a atriz loura e o macaco gigante. Mas logo apareceu uma explicação para o relativamente fraco desempenho da fita. A culpa é do Natal. Os shoppings estavam cheios e, conseqüentemente, os estacionamentos dos shoppings também. O público deixou para ver o filme depois já que não teria onde estacionar.
Convenceu? Não a mim. Passei os últimos anos escutando que os cinemas de rua acabaram porque o público queria segurança e estacionamento. Por isso os cinemas foram transferidos para os shoppings. Agora são os estacionamentos dos shoppings que estão levando o público a não ir aos cinemas?
A verdade é que as platéias estão abandonando as salas de cinema em todo o mundo. Este ano, o Brasil vai fechar a conta com uma queda de 23% na freqüência em relação ao ano passado. Os números nos Estados Unidos não são tão assustadores, mas incomodam os empresários que vivem desta atividade. Nos últimos cinco anos, a freqüência caiu em 5%. Parece pouco se comparado com os índices brasileiros, mas já é o suficiente para o pessoal de lá se mexer. A Associação Nacional dos Proprietários de Cinemas nos EUA trataram de encomendar uma pesquisa para saber o que está acontecendo. Como todo mundo sabe, nenhum negócio sobrevive sem pesquisa nos Estados Unidos. O resultado não surpreendeu ninguém. São três as maiores reclamações dos pesquisados. Eles estão deixando de ir ao cinema porque acham que as salas exibem anúncios demais antes do filme, porque não suportam mais o barulho de celulares tocando e de gente falando alto durante a projeção e, principalmente, consideram o preço dos ingressos caro demais. Preferem alugar um dvd e assistir a filmes em casa.
Ninguém imagina que, a partir de agora, os cinemas vão cortar os anúncios que precedem as sessões. Até porque, se fizerem isso, vão acabar tendo que piorar a situação de outra das queixas e aumentar o preço do ingresso (hoje, nas grandes cidades americanas, um ingresso está custando em torno de US$ 10). Sobrou, então, para o celular.
A disposição dos empresários é proibir a entrada nos cinemas com aparelhos de telefone celular. E contratar mais lanterninhas, que repreenderiam os espectadores que conversem alto durante a sessão ou façam qualquer tipo de barulho. Após a repreensão, se o espectador insistir no... hummm... comportamento inadequado, seria convidado a se retirar da sala.
Há quem ache que essas medidas, se forem realmente tomadas, vão piorar a situação. Por isso, a solução para os produtores está deixando os exibidores furiosos: a idéia é terminar com o espaço entre os lançamentos do filme e do dvd. Se o espectador está esperando o filme sair em dvd para, enfim, assistir a ele, por que não lhe dar logo a oportunidade e diminuir as chances da pirataria?
Como se vê, ninguém sabe direito o que fazer para recuperar os espectadores de cinema. Mas é certo que, muito em breve, assistir a um filme será uma experiência diferente da que é hoje.
POR ARTUR XEXEO - O Globo - 25/12/05

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