quarta-feira, 13 de junho de 2018

Pessoa sem fingimento

O poeta Fernando Pessoa levantava-se diariamente de sua mesa de trabalho na Editora Olisipo, pegava o chapéu, ajeitava os óculos e seguia em passos cadenciados até o Abel, tradicional casa comercial produtora e distribuidora das melhores bebidas à margem do rio Tejo. Lá tomava lentamente um cálice de aguardente e saía pelas ruas de sua Lisboa. Esse hábito Pessoa manteve por um longo tempo em seus curtos e intensos 47 anos de vida.
Em uma dessas tardes de bebericar seu veneno antimonotonia, em 1929, o poeta pediu que lhe fizesse uma foto saboreando a bebida. Dias depois pegou uma cópia, escreveu atrás a dedicatória "Fernando Pessoa em flagrante 'delitro'" e enviou para sua amada Ophelia Queiroz, com quem reatara depois de nove anos de rompimento e muitos poemas e muitas cartas ridículas - ou não seriam cartas de amor, preconizava. Mas o namoro com o ainda donzelo e múltiplo poeta terminou novamente em 1931. As caminhadas ao Abel continuaram, claro.
A moça, professora de Instrução (algo como o Primário), ficou na história como o único amor do reservado Fernando Pessoa, ou de seus heterônimos - ela já não sabia mais quem namorava. O poeta não fingia, seu coração, sabia, um comboio que gira, mas não entretia sua razão e nunca frequentou a casa de Ophelia, resistia a conhecer a família. Como bem observou o ensaísta moçambicano José Gil, Pessoa revelou incapacidade de amar Ophelia à maneira de Ophelia, de aceitar a máscara correspondente a um homem “comum”. Pois é, lembremos que em Lisbon Revisited, poema de 1925, o poeta já questionava, na pele de Álvaro de Campos, também sem fingimentos, o que deveras sentia: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?” Nem a Ofélia de Shakespeare, em Hamlet, aguentaria essas esquisitices de poeta.
No final de 1935 Fernando Pessoa é internado diagnosticado com cólica hepática e falece. Um ano antes publicara Mensagem, o derradeiro livro onde no poema Mar português leem-se os conhecidos versos-espólio: “Quantas noivas ficaram por casar / para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? / Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.”
130 anos hoje de nascimento de uma alma que valeu a pena na literatura.

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