sábado, 30 de junho de 2007

dez anos no ar

foto Pablo Hernandez

Hoje, nosotros blogueiros, festejamos a primeira década da invenção que colocou o chamado usuário comum de internet de vez no mapa. Não tem mais volta. São mais de 72 milhões de diários ativos graças a este formato simplificado de publicação da ferramenta.

Tem muita coisa ruim na imensidão deste espaço virtual. Mas tem outras excelentes na mesma proporção e vontade. Há links pra tudo.

Na página de hoje do Yahoo há uma matéria interessante de Beatriz G. Cabrera sobre estes dez anos blogados. Dê um click aqui.

E para ir mais além: Denise Schitttine, jornalista formada pela Universidade do Rio de Janeiro, publicou em 2004, sua dissertação de mestrado, intitulada "Blog: comunicação e escrita íntima na internet", pela Editora Civilização Brasileira. O livro é ótimo. Outro click.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

yo volveré

foto Sogecine/Divulgação

Há cada coisa que acontece neste mundo que parece mais estranho que a ficção, como diz o título de um filme em cartaz.

Na capital colombiana a família de um pastor evangélico se recusava a enterrar o corpo do religioso, morto há uma semana. A viúva disse a uma rádio de Bogotá que conservou o corpo do marido porque ele havia pedido que não fosse sepultado porque iria ressuscitar, respeitando um pacto que havia feito com Jeová.

Devido ao mau cheiro e alertadas por vizinhos, as autoridades encontraram o corpo em decomposição em uma das salas da casa, onde também é sede da Igreja Boas Novas de Sião, no balneário de Cartagena.

A muito custo e sob protestos o corpo foi trasladado para o necrotério da cidade. O governo ofereceu ajuda psiquiátrica à família, que recusou.

Na foto acima, Nicole Kidman em uma cena de "Os outros" (Los otros), terceiro longa do espanhol Alejandro Amenábar. Realizado em 2001, o filme ambientado durante a 2ª Guerra conta a história de uma família isolada em um casarão, seguindo religiosamente certas regras. O filme é o melhor que já vi quando se trata dessa misteriosa relação entre os mortos e vivos. Mas nada tão absurdo quanto a história da família colombiana.

fonte da notícia: France Presse

quarta-feira, 27 de junho de 2007

isso não é filme

foto Alaor Filho

"Sinto um pouco de pena deles (os agressores), pela falta de estrutura, não digo nem familiar, mas mental mesmo. Um rapaz que faz uma coisa dessas não tem estrutura. Mesmo se fosse uma prostituta, ninguém é merecedor de agressão.

Eles precisam de tratamento, que os pais olhem para ver se estão dando atenção a eles. Sou pai de quatro filhos, íntegro e trabalhador. Não pude dar uma bicicleta aos meus filhos, mas dei limites. Os jovens hoje têm muita mordomia, liberdade. Os pais devem tentar saber o que os filhos fazem fora de casa, depois das 22h.

Como pobres, lutamos dignamente para sobreviver. Ela (Sirley) é batalhadora. Não tem dia nem hora para trabalhar. E eles tiraram o direito de ela ganhar mais um pouco. Logo quem ganha a vida facilmente, com o dinheiro dos pais. Agora eu vejo que soube educar os meus filhos."



Depoimento de Renato Moreira Carvalho, 54 anos, pedreiro, pai da Sirley Dias Carvalho Pinto, a jovem empregada doméstica, 32 anos, espancada por rapazes da Zona Sul do Rio de Janeiro, na madrugada de sábado, 23.


Os nomes dos marginais: Rubens Arruda Bruno, de 19 anos, Felippe de Macedo Nery Neto, de 20, Júlio Junqueira, de 21, e Rodrigo Baçalo, de 21. Segundo a doméstica, Leonardo Andrade, de 19, ficou apenas "rindo e debochando" dela.


Ressalto uma frase do depoimento: "Não pude dar uma bicicleta aos meus filhos, mas dei limites."
Caro senhor Renato: não faltou somente estrutura mental a essa garotada, faltou estrutura familiar, e muito.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

a estética e a poesia de Solanas

foto CineSur/Divulgação

“Os filmes nascem com a vocação de ir ao encontro da realidade. Não só para testemunhá-la, mas também para explicá-la. O meu ponto de partida sempre foi a liberdade, com o compromisso e a ética da verdade. Mas não basta somente a informação para fazer o cinema documental. Ele nos dá a possibilidade de avançar com elementos da imagem, da estética e da poesia. O difícil é juntar as duas pernas.”

Fernando Solanas durante o debate "A Argentina hoje", realizado na noite do último sábado, 23, na Caixa Cultural, em Brasília, como parte da mostra "Memórias do Subdsenvolvimento".
O filme do cineasta argentino, "Memória do saqueio", realizado em 2005, foi exibido e aplaudido de pé.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

afinidades eletivas

foto André Arruda

"O Bruno Barreto fez uma coisa que pouco tinha a ver com minha história. É chato comparar artista, mas me sinto muito mais próximo do Beto Brant que do Bruno, por questão de afinidade mesmo. O Bruno não aproveitou nada dos personagens coadjuvantes. Ele botou uma historinha de amor romântica. Isso me desapontou bastante."

Do escritor Sérgio Sant'Anna sobre a adaptação que o cineasta fez do seu livro "A senhora Simpson", de 1989, lançado nos cinemas com o título "Bossa Nova", em 2000. O roteiro foi escrito pelo casal Alexandre Machado e Fernanda Young, redatores do extinto "Os normais", da Globo. Os direitos autorais do livro pertenciam a Arnaldo Jabor, talvez guardados para uma possível volta ao cinema.

Bruno Barreto não tem se dado bem com as adaptações. Recentemente o ator e dramaturgo Juca de Oliveira esbravejou indignação com o que cineasta fez de sua peça teatral "Caixa Dois", transformado em filme, lançado no começo deste ano, e considerado totalmente infiel à obra que o inspirou.

A afinidade que o escritor fala com Beto Brant se deu com "Crime delicado", rodado há três anos, feito a partir de seu livro homônimo de 1997. E o roteiro é de um grande escritor: Marçal de Aquino, outro afinadíssimo com o trabalho de Brant.
Agora David França Mendes está filmando "Um romance de geração", texto teatral que Sérgio escreveu no começo dos anos 80.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Mandrake em Brasília

foto Conspiração Filmes

O advogado criminalista Mandrake é um personagem criado pelo recluso romancista Rubem Fonseca. Sua primeira aparição foi num livro de contos, “O cobrador”, lançado no final dos anos 70. Em 1983 esteve mais presente no romance policial “A grande arte”, que Walter Salles adaptou para o cinema em 1991, sendo sua estréia em longa-metragem. No filme o personagem se transformou em fotógrafo, interpretado pelo americano Peter Coyote.

Fonseca retoma o personagem original em “E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto”, novela publicada em 1997, e no romance de 2005, “Mandrake: a Bíblia e a bengala”.

Cínico, boa-pinta, mulherengo, Mandrake virou série de televisão no canal fechado HBO em 2005, sob a direção de José Henrique Fonseca, filho do romancista, que estreou no cinema em 2003, com o longa “O homem do ano”, baseado no livro “O matador”, de Patrícia Melo, roteirizado pelo próprio Rubem Fonseca. O ator Marcos Palmeira interpreta o advogado-detetive.
A série televisiva tem jeitão de cinema. Com um investimento total de quase R$ 5 milhões, e captado em película super-16, estão previstos 50 episódios até 2008.


Pois Mandrake esteve nesta semana em Brasília. Não para periciar os recibos do rei do gado senador Renan Calheiros. O detetive veio à cidade para apurar um caso complicado de sexo e política. A equipe do seriado passou pela Capital Federal para gravar cenas do episódio, com roteiro do titã Tony Bellotto, que deve ir ao ar em breve, com locações em estradas de terra na DF-140, Cadetral Metropolitana, Ponte JK, e fachada do Congresso Nacional, claro.

Qualquer semelhança com os acontecimentos políticos que dominam os noticiários é mera coincidência, embora a arte imite a vida. Mas esta, às vezes, parece mais ficcional de tão absurdamente verdadeira.

terça-feira, 19 de junho de 2007

memórias do subdesenvolvimento



“Os documentários políticos como os meus e os do Michael Moore dizem verdades que os meios de comunicação evitam. O público vai ver documentários longos para compreender o que está acontecendo, por isso eles chamam atenção. Há muitos filmes do gênero na América Latina, o problema é que eles são pouco vistos.”


Do cineasta argentino Fernando Solanas, durante o lançamento no Brasil do seu novo filme “Memoria del saqueo”, um documentário que acompanha a trajetória política do seu país dos anos 70 ao final de 2001. É imperdível. O filme está programado na Mostra de Filmes Latinos, que acontece de hoje à domingo no Conjunto Cultural da Caixa, em Brasília.

De forma sincera, sem pudores, e dando nome a todos, Solanas disseca desde o período cruel da ditadura militar até a renúncia do presidente Fernando de La Rúa. Desfilam pela tela os governantes com suas promessas e cinismo deslavado, a situação miserável da maioria da população, a revolta do povo nas praças batendo panelas, os ditames históricos do FMI, o genocídio social provocado pelos planos econômicos neoliberais.

O próprio diretor aparece em registro dos anos 90, quando era deputado e foi baleado “pelo poder de Menem”, como ele acusa, com coragem e convicção. O filme pode lembrar uma onda de documentários no estilo “Fahrenheit 11 de setembro”, pela narrativa controversa, mas antes, bem antes de Michael Moore, Solanas já fazia esse tipo de cinema-denúncia. É de 1968 o clássico “La hora de los hornos”, onde misturava linguagem pop através da música dos Beatles ao manifesto ousado contra os militares e os países ricos.

Em “Memoria del saqueo” não dá para nós, brasileiros, não nos sentirmos espelhados nos acontecimentos apresentados no filme, atordoados e indignados que estamos diante do enxurdeiro “gautâmico”, furacões e navalhadas da corrupção, entre os bois de corte do Renan e a pensão da turma da Mônica...
Solanas fala sobre a dor e a indignação do povo argentino. Sobre políticos desonestos e a necessidade de resgatar a esperança. Um filme sobre o drama da América Latina.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Sierra Maestra

foto Kinoscópio Cinematográfica

A primeira tentativa de luta armada contra o governo militar no Brasil aconteceu em 1966. O grupo era formado por ex-oficiais rejeitados pelo regime que, num movimento organizado por Leonel Brizola, que estava no exílio no Uruguai, se embrenhou na Serra do Caparaó, entre Minas Gerais e Espírito Santo, para um treinamento. Essa grande reação nacional que era preparada acabou não acontecendo, mas o episódio deixou suas marcas na história do país.

Para reprimir o movimento o governo usou cerca de 4 mil homens do exército, aeronáutica e das polícias militares mineira e capixaba, em uma das maiores operações realizadas até hoje.

Com entrevistas, imagens de arquivos e reconstituições, o cineasta Flávio Frederico dirigiu o documentário "Caparaó", lançado semana passada. O filme, ótimo e de temática sempre oportuna, revela pessoas e fatos sobre a empreitada na serra.

Simultâneo ao lançamento do filme, chega às livrarias "Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura", do jornalista José Caldas da Costa.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

dois filmes

Robert Shaw e Paul Scolfield

Foram lançados em dvd dois grandes filmes da década de 60, “O homem que não vendeu sua alma” (A man for all seasons), de Fred Zinneman, e “A moça com a valise” (La ragazza com la valigia), de Valerio Zurlini.

Produção de 1966, o filme de Zinneman se passa durante a instauração da Igreja Protestante na Inglaterra do século XVI. O adúltero Henrique VIII (Robert Shaw) planeja se separar de sua primeira esposa para se casar com Ana Bolena (Vanessa Redgrave), mas não recebe a aprovação de Thomas More (Paul Scofield), um fervoroso católico que se tornou Lord Chanceler, altíssimo posto que ele preferiu renunciar a trair suas convicções. O tal que não vendeu sua alma. Dos seis Oscars recebidos naquele ano um foi para Scofield, melhor ator. Mas ele não compareceu à cerimônia, e Wendy Hiller, que curiosamente faz sua esposa abandonada no filme, subiu ao palco para receber a estatueta.

Zinneman, falecido em 1997 aos 90 anos, era um austríaco que chegou em Hollywood lá pelo anos 20, fez figuração em alguns filmes e depois se tornou assistente de Robert Flaherty, diretor do clássico “Nanook, o esquimó” (Nanook of the North).


Jacques Perrin e Claudia Cardinale

“A moça com a valise” é um desses típicos e belos filmes italianos. Rodado em 1960, conta a história de uma mulher, vivida por Claudia Cardinale, que parte em busca do amante que a abandonou. O cara é um playboy sem escrúpulo, que lembra os canalhas nelsonrodrigueanos, e convence o irmão adolescente de se livrar da mulher. O rapaz, inexperiente e solitário, se encanta pela quase-cunhada. Guarda a valise da moça, paga-lhe as contas, faz tudo por ela.


Zurlini (1926-1982), um dos mais importantes cineastas do cinema italiano, tem uma filmografia repleta de clássicos. Revendo filmes como “Verão violento” (Estate violenta) e “Dois destinos” (Cronaca familiare), por exemplo, encontra-se a grandeza do cinema na sua melhor tradução. O cineasta Carlos Reichenbach, um apaixonado por Zurlini, escreveu um ótimo artigo no Estadão, à propósito da série de lançamentos em dvd com os filmes do realizador italiano.