sábado, 18 de novembro de 2017

vida de Brecht

Charles Laughton em “Galileu Galilei”, 1947.
Vida de Galileu, de Bertold Brecht, teve suas primeiras anotações por volta de 1934-35, e os esboços desenvolviam os conceitos do astrofísico italiano Galileu Galilei, que no medieval século 16, contradisse a Igreja Católica ao afirmar que o Sol era o centro do Universo, e não a Terra.
A peça começou a ser escrita com sua estrutura dramatúrgica quando Brecht, com a subida de Hitler, passou um tempo exilado na Dinamarca, em 1938. Oficialmente é a primeira versão, então intitulada A Terra gira. A segunda é de 1944, que o autor remanejou tratamentos cênicos sob o período convulsionado da Segunda Guerra, e ganhou o título que conhecemos, com apresentações nos anos seguintes em Nova Iorque.
O dramaturgo, porém, remexe na montagem apontando mais reflexões sobre o tema, quando em 1949 funda na Berlin Oriental, a Berliner Ensemble, companhia teatral, que, em parceria com sua esposa, a atriz Helene Weigel, traçou um perfil novo de construção de personagem, tendo como uma das principais características os longos e exaustivos meses de preparação. E foi graças aos princípios inovadores de teoria e prática de encenação da Berliner, com sentido social e político, que a peça teve sua versão definitiva em 1955. No ano seguinte, durante os ensaios, Brecht, doente, sentiu-se mal e faleceu meses depois.
Nenhuma de suas obras - todas excelentes -, envolveu tanto Brecht quanto Vida de Galileu. As convicções do personagem, lutando com fundamentação para provar o óbvio, enfrentando o Tribunal da Santa Inquisição que o obrigava a negar sua tese, revestem como uma pele o pensamento do autor, que dissecava em sua criação as relações humanas no poder e no sistema capitalista.
Uma das falas da peça que se cristalizou ao longo do tempo, está na cena 13. Entre o tormento da condenação e a tutela da verdade, Galileu conversa com seu secretário Andreas, que lhe pede que não ceda aos inquisidores:
Andrea (em voz alta) — Infeliz a terra que não tem heróis.
Galileu – Não. Infeliz a terra que precisa de heróis.

Algumas traduções no Brasil colocam “povo” ou “nação” no lugar de “terra”. A citada é do crítico e professor de teoria literária Roberto Schwarz, numa ótima edição de 1991.
O desastrado e equivocado secretário de Cultura do Rio de Janeiro, em um patético discurso recentemente na Assembleia Legislativa, mencionou a fala de Galileu, sem nenhum um cabimento, e cometeu o desatino de confundir o autor com “Bertoldo Brecha”, personagem criado por Chico Anysio para o programa Escolinha do Professor Raimundo. Seria trágico se não fosse cômico. Ou o contrário. O tal secretário pode ter acidentalmente acertado em colocar “povo” na frase, mas não altera em absolutamente nada os sintomas de tempos temerosos em que estamos vivendo no Brasil.
O escritor francês Bernard Dort ao analisar Galileu Galilei em um ensaio, disse que Brecht escreveu a peça, pelo menos originalmente, “para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas.”
Atualizando o aplicativo, é uma colocação muito oportuna. A arte, acrônica em sua essência, espelha e retrata o tempo e o homem por todos os lados.

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