sexta-feira, 17 de novembro de 2017

esses moços...

- A velhice chega pra todo mundo, Almirante...
- O problema não é ficar velho... o problema é ter sido jovem.

Diálogo entre os personagens de Juliana Paes (Morena) e de Nelson Xavier, em A despedida, de Marcelo Galvão, 2014, baseado na vida do avô do diretor.
Depois de Chuvas de verão, de Cacá Diegues, 1977, pouco se viu no cinema brasileiro a inevitabilidade da velhice com tanta delicadeza. Galvão com sua câmera discreta, na cadência e sincronia das limitações do personagem, nos faz acompanhar o cotidiano crepuscular de um homem de 91 anos, que “não queria ter a lucidez de entender” a sua realidade, como diz em outro primoroso diálogo.
Mas não há amargura nessa clareza. Há uma aceitação tranquila do presente, uma relação de paz com a inexorabilidade do tempo. E assim, sabendo da evidência e incontestabilidade de seus dias finais, Almirante acorda, veste-se, sai no seu andador, quita uma dívida no bar, procura um amigo pra lhe pedir perdão por um vacilo no passado, e segue em direção a casa da amante de tanto tempo. Juliana Paes surpreende numa interpretação que a dramaturgia fast-food televisiva nunca lhe proporcionou. A cena de amor na banheira entre a bela e jovem Morena e o nonagenário amante, é de um erotismo lírico e elegante, afetuoso e raro. Corpo e alma em usufruto que o prazer permite.
Nelson Xavier, em sua penúltima atuação, molda o personagem com a coragem de sua própria condição, já abatido pela doença que manteve discreta e que o levaria no começo deste ano, aos 75. O ator atravessou o seu horizonte por aqui deixando o legado de um grandioso trabalho, assim como fez no último filme, Comeback, de Erico Rassi, 2016.
Não foi problema envelhecer. E ao contrário do que refletiu seu personagem em A despedida, não foi problema ter sido jovem, com a carreira brilhante que fez no cinema brasileiro.

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