segunda-feira, 9 de novembro de 2015

o sangue de Clarisse

Um extenso paredão de uma pedreira explode após alguns segundos de um plano fixo na tela. A nuvem de poeira funde com a névoa de uma paisagem serrana. A câmera percorre em travelling lento a extensão de dois corpos nus fazendo sexo até parar no rosto indiferente da mulher enquanto o homem explode em um gozo dominador. A mulher no banheiro lava ostensivamente não o sexo, mas o ventre. Uma voz feminina em off diz que a cada pedra que explode faz jorrar o muro e a condenação que apodrece a carne.
Durante os próximos 84 minutos, o filme Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois, terceiro longa-metragem de Petrus Cariry, discorre sobre o corpo, no mais perfeito atributo, representação e alegoria da alma aprisionada. O corpo é o lado externo da alma. Ainda nas sequências iniciais, a voz lembra que a morte é o fim de todos os segredos.
Com um roteiro primoroso em diálogos curtos e ambientação em cenários fechados, mesmo as externas, o filme narra a visita da filha ao pai, proprietário moribundo da pedreira, aos cuidados ritualísticos de uma criada que tem a mesma habilidade em abater um animal para a refeição quanto banhar o velho em uma banheira simbolicamente mortuária.
A viagem da filha é uma viagem ao passado, às vozes e memórias da mãe e do irmão mortos e encrustados em lembranças e mistérios em cada curva da casa. Só a morte desvendará esses segredos, lembremos. E a morte é personagem ameaçador, iminente na condução narrativa do cineasta cearense, que fecha com esse filme a sua trilogia sombria, iniciada com O grão (2007) e Mãe e filha (2011).
Exibido na mostra Première Brasil Novos Rumos no Festival do Rio em outubro passado, Clarisse, assim como os filmes citados, é pura luz de um cinema brasileiro contemporâneo, realizado por quem se preza com a câmera na mão e ideias na cabeça. O viés psicológico que conduz o enredo dos filmes de Petrus Cariry, através das relações que perturbam, inquietam, questionam núcleos familiares, demonstra uma cinematografia que sabe muito bem utilizar a linguagem audiovisual, sem concessões e com perfil autoral.
O domínio narrativo do cineasta se expressa na planificação devidamente trabalhada, na fotografia pictórica e onírica, na decupagem metrificada em cada movimento, alargada em sequências demoradas, dando o tempo merecido para que o personagem pulse e o espectador adentre o interior de cada um.
O esmero formal do cinema de Petrus não esvazia o conteúdo, como apressada e erroneamente possa parecer. Muito pelo contrário. A forma, a ambientação do cenário físico e humano de seus filmes, é o atrativo que faz o nosso olhar tornar-se imantado e assim interpelar o contexto, absorver a trama ao observar o drama.
Em Clarisse, Petrus atinge uma evolução narrativa digna de cineastas que tão bem sabem esculpir o tempo – aqui citando e reverenciando Andrei Tarkovsky. E o tempo no cinema se exprime não somente pela cronometragem do movimento, e sim pela composição espacial de objetos e seus símbolos, pelo desenho de rostos e suas conotações.
A dramaturgia manifesta no enredo de Clarisse tem o corpo como elemento cardinal. A pedreira é corpo, assim como é o corpo do marido sobre a mulher na cama, esta de corpo petrificado pela falta de prazer. O casarão de madeira onde mora o pai é corpo, assim como é seu corpo de velho solitário em arrogância decrescente na pele bolorenta. A história em grande parte de cenas noturnas é corpo, como é solar o lado de fora do dia que pouco se vê e parece mera esperança.
Assim como a personagem Clarisse esfrega com violência o seu ventre-corpo para limpar o sexo sem afeto do marido, ela bate na porta fechada do casarão com cadência pulsante da pedreira-corpo que detona. Os signos em Clarisse não são pontuações decorativas do enredo: são elementos que formam o tempo e os personagens nele circundados. A piscina de água estagnada é corpo represado que não flui vida para nenhum mar. A piscina é retângulo passado e suas culpas.
O traçado da direção fotográfica, com câmera do próprio diretor, é um condutor do tempo sem desviar a atenção do todo, assim como a discreta e precisa trilha sonora de Herlon Robson no corpo sensorial do filme. As atuações meticulosas e aprimoradas de Sabrina Greve e Everaldo Pontes, são corpos de interpretação que explodem a alma de uma filha em defrontação com o restante de alma do pai.
Clarisse abre com a pedreira explodindo e fecha com a mesma explosão denotativa com a sequência de sexo desesperado e catártico do casal no sofá, jorrando sangue pelos poros, orgástico e aflito, banhado de ânsia e remição, de vida e morte. Clarisse banhada de sangue e gozo redentor é o feto fazendo o caminho de volta, como expurgação.

Clarisse é alguma coisa sobre nós.

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi, como vejo esse filme? Conheço apenas O Grão, filme que gosto bastante!
obrigado.
Rita Maria

Nirton Venancio disse...

Rita Maria, o filme ainda não foi lançado comercialmente, apenas exibido em festivais.