domingo, 8 de novembro de 2015

no coração das trevas

Um produtor de ficção científica B desaparece com os negativos durante as filmagens, em um hotel em Portugal. Sem dinheiro para continuar o trabalho, o diretor tenta achá-lo, partindo em um road movie e encontrando outros problemas.
A partir desse enredo, o cineasta alemão Wim Wenders realizou um dos seus melhores filmes, "O estado das coisas" (Der stand der dinge), 1982.

Desenvolvendo narrativas de metalinguagem, o diretor espelha-se em sua experiência quando tentou por um tempo, no final dos anos 70, fazer cinema nos Estados Unidos, fascinado pela cinematografia de John Ford, Nicholas Ray, Samuel Fuller e seu compatriota Fritz Lang.
Wenders sempre quis fazer um "filme americano", ser um "cineasta americano". "Hammett", uma história fictícia sobre o escritor Dashiell Hammett, de 1982, produzido por Francis Coppola, foi sua primeira experiência por lá. Desagradou completamente o cineasta alemão. Dos 95 minutos na tela, apenas 30 estavam como Wenders fez. Coppola finalizou à maneira dele e fim de papo.
Filmado nos Estados Unidos, mas financiado com francos e marcos, "Paris, Texas", de 1984, foi uma espécie de "vingança" de Wim Wenders. Ou, digamos, seu desejo realizado e "tchau, Hollywood!".
Irônica e pretensamente com roteiro dos americanos Sam Sheppard e Kit Carson, trilha sonora do guitarrista Ry Cooder, elenco com atores de filmes contraversos ao cinemão, como Harry Dean Stanton e Dean Stockwell, "Paris, Texas" chegou às telas com as 2h37min que ele quis.
Outdoors, graffites, néon, carcaças oxidadas, velhas linhas de trem, motéis em estradas que nunca terminam, e um homem maltrapilho e amnésico numa região desértica fronteira com o México, compõem o cenário físico e humano de um dos filmes mais significativos do olhar de um estrangeiro sobre a paisagem norte-americana.
Se "O estado das coisas" é a realidade em preto-e-branco da condição de um cineasta, "Paris,Texas" é um pesadelo minimalista em cores, pela angústia e letargia que se expressa na essência, pela desconstrução que Wim Wenders faz do "sonho americano". Aclamado pela crítica e bem recebido pelo público, em que pese algum rótulo "cult", o filme se insere na galeria do grande cinema contemporâneo.
Em entrevista para o livro "Na Estrada - O Cinema de Walter Salles", de Marcos Strecker, 2010, Wenders diz que sua experiência traumática com Coppola, foi como ter ido ao coração das trevas quando pensava estar a caminho do coração do cinema.

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