terça-feira, 15 de março de 2011

meu tio prendeu um cara

 
foto Arquivo NV

Broderick Crawford (1911-1986) foi um ator que marcou muito a minha infância. Em cinquenta anos de carreira fez mais de sessenta filmes. Sua interpretação mais conhecida foi em "A grande ilusão" (All the king's men), dirigido por Robert Rossen em 1949, que lhe deu o Oscar de ator pela interpretação de um político corrupto (com perdão da redundância). Não confundir com o filme de Jean Renoir, o homônimo "A grande ilusão", dirigido em 1939, com outro grande ator, Jean Gabin. O filme de Rossen teve uma refilmagem há uns quatro anos, mantendo o mesmo título pra aumentar a confusão, com direção do ilustre desconhecido Steven Zaillan, com Sean Penn no papel que coube a Crawford. Outro grande papel de Crawford foi em "A trapaça" (Il bidone), que Federico Fellini dirigiu em 1955, onde na Itália pós-guerra faz um romântico vigarista que vive de pequenos golpes, aproveitando-se da ingenuidade de camponeses. É um Fellini da fase que mais gosto, neo-realista.

Mas não foram os filmes de Broderick (eu adorava pronunciar esse nome...) que ficaram na minha memória tão fortemente, e sim o seriado para a televisão, "A patrulha rodoviária" (Highway Patrol), produzido nos anos 50 e que assisti em meados dos anos 60 pela TV Ceará, retransmissora da Tupi, em Fortaleza. 
Não sei se vi todos, mas foram mais de 150 episódios, onde o ator fazia o Sargento Dan Matthews, um policial severo, implacável, carismático, quase um John Wayne do asfalto, com a vantagem que não matava índios. Perseguia os bandidos, prendia-os e os entregava à justiça. E essa minha admiração por Broderick Crawford era reconfortante porque eu tinha um tio que era a cara dele. Ver um me remetia ao outro. O meu mocinho tinha o biótipo de um homem comum, próximo de mim, sangue do meu sangue. E assim o cinema e a infância me jogavam no mundo próximo e distante da fantasia, da idealização inquebrantável que as crianças fazem de um mundo perfeito. Crescer tem o inconveniente de que o mundo fica muito palpável, o dia é irreversível, a esperança necessita de muito esforço. Não sei se meu filho hoje espelha o tio dele no capitão Nascimento de "Tropa de Elite". Não sei quantos Wagner Moura são possíveis para um Broderick Crawford. Não somos mais as crianças diante da tv em preto-e-branco, e a fantasia é digitalizada em megapixels, a um palmo de nosso olho tridimensional. Tão perto, tão longe.

2 comentários:

Clara Angélica disse...

muito bom, nirton, amei ler. para mim, o ponto alto da leitura, fora do todo:
"crescer tem o inconveniente de que o mundo fica muito palpável, o dia é irreversível, a esperança necessita de muito esforço."

Selma Santiago disse...

meu Deus, Nirton, você também assistia esse seriado???