segunda-feira, 30 de julho de 2007

a lanterna mágica de Bergman

foto Ciné-Passion

“O privilégio da infância é podermos transitar livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites. Para mim não havia outros marcos a não ser proibições e regras que me surgiam como sombras, a maioria delas ininteligíveis. Lembro-me, por exemplo, que não podia compreender, não tinha a mínima noção das horas. Você tem de aprender a não chegar tarde, já tem um relógio, já sabe ler as horas. Apesar de tais admoestações, o tempo não existia para mim. Chegava tarde à escola e às refeições. Despreocupado, perambulava pelo parque, observava as coisas, fantasiava, o tempo deixava de existir, depois algo me dizia que afinal eu estava com fome. E de uma boa repreensão eu não escapava.

Sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real. Se me esforçava, conseguia manter a realidade dentro dos limites, mas que fazer dos fantasmas e das almas penadas? E as histórias que me contavam, as sagas? Seriam reais? E Deus e os anjos? E Jesus Cristo, Adão e Eva, o Dilúvio? O que se passara afinal entre Abraão e Isaque? Será que ele pensara mesmo em cortar o pescoço do filho? Olhando excitado para uma água-forte de Doré, identificava-me com Isaque, e aquilo para mim virava realidade: meu pai também pensava em me cortar o pescoço um dia! E o que será de você, Ingmar, se o anjo salvador chegar tarde? Bem, terão de chorar minha morte, pensava eu. Ficaria banhado em sangue, com um pálido sorriso no meu rosto. Era a realidade.

Foi quando um cinematográfico entrou na minha vida.”

Ingmar Bergman, na autobiografia “Lanterna Mágica”, Editora Guanabana.

O cineasta sueco morreu hoje, ao 89 anos de idade, em sua casa, na ilha de Faro.

Bergman se apaixonou pelo cinema ainda na infância, quando se tornou ajudante de um projecionista num cinema local. Decidiu estudar cinema na Universidade de Estocolmo e, em 1944, estreou como roteirista. Dois anos depois, já iniciava a carreira de diretor, com o filme "Crise", seguido por uma filmografia com quase 50 títulos, além de várias peças teatrais. Seu mais recente trabalho foi o filme para a TV “Saraband”, em 2003, com sua ex-mulher e eterna musa Liv Ullmann.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

a vida de Ulrich Mühe

foto Picture-Alliance/dpa

Conhecido internacionalmente somente a partir da consagração de "A vida dos outros" (Das leben der Andersen), Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, o ator alemão Ulrich Mühe teve pouco o que comemorar com a visibilidade fora do seu país. Assim que voltou da badalação em Hollywood, foi submetido a uma cirurgia no estômago para extirpar um câncer. Domingo passado, não resistiu e faleceu. Tinha 54 anos de idade e era idolatrado na Alemanha, não somente pelos quarenta filmes que fez, como também pelo seu trabalho no teatro.

No filme citado (foto), dirigido por Florian Henkel Von Donnersmarck, o ator interpreta um agente da Stasi – a polícia secreta da Alemanha Oriental – encarregado de espionar um casal de artistas. Ambientado em 1984, o longa-metragem mostra a afeição que esse personagem nutre pelos vigiados a ponto de correr risco de vida para protegê-los.

O curioso na relação do ator com esse filme é que ele pôde reviver parte da própria biografia. Assim como seu personagem descobre que a mulher se “vendeu” à Stasi, Mühe soube, tempos depois, que sua primeira esposa, a atriz Jenny Groellmann, havia trabalhado para a polícia secreta.

terça-feira, 24 de julho de 2007

olhando em volta

"multidão 2", acrílico de Pedro Charters

"No Brasil do Lula, é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros.

Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta."

Luis Fernando Veríssimo, escritor

sábado, 21 de julho de 2007

o amor de Nietzsche

foto Jules Bonnet

“Adeus. Não a verei mais. Proteja sua alma contra ações semelhantes e realize melhor com os outros aquilo que comigo não tem reparação. Não li sua carta, mas li demais.”


O bilhete em tom firme, dolorido e poético é de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, endereçado com a pontaria de um dardo à psicanalista e escritora de origem russa Lou Andreas-Salomé, em 1882, depois de ter seu pedido de casamento por ela recusado.


Nietzsche, o grande pensador da evolução humana, sucumbiu à beleza e magnetismo de Lou ao ser apresentado a ela pelo amigo Paul Rée, também alemão e filósofo, autor do clássico “Escritas básicas”. “Que estrelas em nós caíram para nos encontrarmos aqui?”, teria dito Nietzsche quando a viu na Basílica de São Pedro, em Roma. Mas as intenções de Lou eram outras. Os três, na verdade, mantiveram um intenso relacionamento até que Lou e Paul decidiram viver juntos, quando Nietzsche parte para Veneza. A foto acima é dessa época do triângulo amoroso, onde se vê Lou com um pequeno chicote e os dois amigos no lugar onde se puxa a carroça... Mas Nietzsche não aceitou a situação e deprimido recolheu-se na casa de sua irmã Elisabeth, falecendo em 1900. Um ano depois Paul abandona Lou e suicida-se.


A escritora tinha convicções e curiosidades avançadas para aquele final do século 19. Freqüentava regularmente clubes para encontros lésbicos em Viena. Casou-se com o filologista Frederick Carl, 16 anos mais velho que ela, e tinha como amante nada menos que o famoso poeta Rainer Maria Rilke, 14 anos mais novo. Em 1952 foram publicadas as correspondências entre os dois. Lou faleceu em 1937, aos 76 anos, de uremia.


Sobre o relacionamento dos três, a cineasta italiana Liliana Cavani dirigiu em 1977 “Além do bem e do mal” (Al di là del bene e del male), tendo a bela Dominique Sanda no papel de Lou. Mas o filme não foi bem recebido. O sensacionalismo em torno do tema deformou a vida de Nietzsche, na fita interpretado pelo sueco bergmaniano Erland Josephson, enquanto o inglês Robert Powell, que um ano antes pegaram-no para Cristo em “Jesus de Nazaré”, de Franco Zeffirelli, ressuscitou no papel de Paul.


Melhor é o livro “Quando Nietzsche chorou”, um magnífico romance sobre o nascimento da psicanálise, lançado no Brasil em 1995. Nele, o autor Irvin D. Yalom, um psicoterapeuta americano, traça com personagens reais e situações que não aconteceram um interessante paralelo entre ficção e realidade. Lá estão Nietzsche, Lou, e os médicos austríacos Josef Breuer e Sigmund Freud. Daria um belo filme.

domingo, 15 de julho de 2007

ó Catilina!

colagem Blog Imagens & Letras

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?”

Não, não foi discurso de um senador da oposição pedindo o afastamento do senador rei do gado Renan Calheiros. Mas que infeliz coincidência ser tão atual, tão aplicável ao enxurdeiro que está ocorrendo e escorrendo no Senado brasileiro.

A peça oratória acima foi proferida na longíqua data 63 a.C, no Senado romano. Marco Túlio Cícero, então cônsul de Roma, denuncia publicamente uma conspiração montada por seu inimigo Lucius Sergius Catilina. Nesse duro pronunciamento, expõe a conspiração e sugere que Catilina busque o exílio nas Alagoas dele.

Por conta desse discurso o dicionário Aurélio registra o substantivo "cantilinária", uma acusação eloqüente.

sábado, 14 de julho de 2007

a mão direita

foto Jean-Paul Pelissier/Reuters

O senhor aí "escaneando" a moça é o novo presidente francês, o direitista Nicolas Sarkozy. Ela, talvez delicadamente fingindo não perceber a sabida mão-boba, é a iatista Maud Fontenoy, recebendo a medalha Ordem da Cavalaria Francesa, no Palais de l'Élysée, sede do governo.

Na solenidade ocorrida antes de ontem, Sarkozy elogiou a atual organização do país e prometeu não fazer transformações radicais durante as reformas institucionais de seu governo. Será mesmo? Para ele a França tem as melhores instituições nos últimos 200 anos. Não era bem o que falava durante sua campanha, batendo pesado na socialista Ségolène Royal. Pediu a todos um debate sem tabus sobre a modernização política do país e anunciou a criação de um comitê de sábios. Comitê de sábios?... o que será isso? Essas cabeças, ditas assim acima da média dos cidadãos comuns, deverão elaborar propostas sobre como adaptar as instituições francesas neste novo século.

Quanto a mademoiselle Fontenoy, 27 aninhos muito bem navegados, foi a primeira mulher a atravessar, em embarcação a remo e sem auxílio luxuoso de ninguém, os oceanos Atlântico e Pacífico, o que lhe valeu a honraria. Mais sobre suas atividades radicais em alto mar e uma bela foto sem presidente por perto, aqui.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

use com moderação


A televisão me deixou burro muito burro demais
agora todas as coisas que penso me parecem iguais
o sorvete me deixou gripado pelo resto da vida
agora toda noite que me deito é "boa noite, querida".

Ô Cridê, fala pra mãe
que eu nunca li num livro que o espirro fosse um vírus sem cura
e vê se me entende uma vez criatura
Ô Cridê, fala pra mãe!

A mãe diz pra eu fazer alguma coisa, mas eu não faço nada
a luz do sol me incomoda então deixo a cortina fechada
é que a televisão me deixou burro muito burro demais
agora vivo dentro desta jaula junto dos animais

Ô Cridê, fala pra mãe
que tudo que a antena captar meu coração captura
e vê se me entende uma vez criatura
Ô Cridê, fala pra mãe!



"Televisão", de Arnaldo Antunes, Marcelo Frommer e Tony Bellotto, no segundo disco dos Titãs, de 1985, quando eles eram bem melhores e a televisão já era ruim.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

o doce bárbaro

foto Leão Serva

"Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / mais possível novo quilombo de Zumbi”, “Maurício Lucila Gildásio Ivonete Agrippino Gracinha Zezé / gente espelho da vida doce mistério”, nestes dois versos, respectivamente das músicas “Sampa” e “Gente”, de Caetano Veloso, há homenagens explícitas ao escritor, dramaturgo e cineasta José Agrippino de Paula. O Agrippino citado no segundo verso, é autor do livro “PanAmérica”, publicado em 1967, que praticamente deu uma guinada diferente na literatura brasileira naquela década de mudanças pelo mundo todo. O livro de forte incidência pop, ou para ser mais preciso àqueles tempos, representativamente beat, narra as maluquices e casos amorosos de um cineasta enquanto tenta filmar nada menos nada mais do que “A Bíblia Sagrada”, colocando no elenco nomes como John Wayne, Marilyn Monroe, Burt Lancaster, Charles De Gaulle, entre outros, e eles próprios interferindo na construção das cenas. Viagem lisérgica total, situemos assim.
Mas essa mistura desvairada com personagens reais da cultura norte-americana é, na verdade, uma crítica muito bem armada sobre a sociedade de consumo. Caetano Veloso dizia que o livro parecia a “Elíada”, do poeta grego Homero, narrada por Max Cavalera, ex-vocalista do Sepultura. É uma boa semelhança entre coisas diferentes. O fato é que Agrippino soube como pouquíssimos captar – e viver na pele – o século XX no que ele teve de mais representativo no ser humano e seus signos.


“PanAmérica” foi reeditado em 2001, pela Papagaio Editora, que relançou há dois anos o primeiro livro de Agrippino, “Lugar público”, originalmente publicado em 1965. A editora está reunindo toda a obra literária desse mito underground, que compreende contos, ensaios, peças de teatro, roteiro de shows musicais, romances inéditos e textos dispersos.

Agrippino viajou de vez: faleceu antes de ontem, de infarto fulminante, sem tempo para completar 70 anos de idade no próximo dia 13. Vivia em exílio voluntário em Embu das Artes, na Grande São Paulo, desde o começo dos anos 80, esquecido do mundo, que tanto observou. Desde então teve uma vida difícil. A cabeça não segurou a barra e sofria de esquizofrenia.

De tanto lembrar do escritor, por pouco esqueço aqui que inicialmente conheci o Agrippino cineasta, diretor do muito comentado e pouco visto “Hitler Terceiro Mundo”, seu único longa-metragem, de 1968, o mais radical do cinema alternativo que já vi. Pode-se gostar ou não desse filme ou do gênero, mas não dá para ficar indiferente a um trabalho que marcou época e influenciou outros diretores. Não conheço os seus vários curtas-metragens rodados em bitola super-8, mas imagino a linguagem inovadora que apresentam esses trabalhos.
Como nós brasileiros temos essa estranha cultura necrófilica, espero que o lado positivo dessa mania faça aparecer aos interessados a filmografia desse genial desconhecido. Num artigo que tenho nos meus arquivos, publicado numa edição da Folha de São Paulo em 1984, o Museu da Imagem e do Som divulgava a exibição do longa, dentro da mostra “O cinema e a história do Brasil”. Que se faça agora uma mostra completa de seus filmes.


Em 1976, Caetano e o então inimaginável ministro Gilberto Gil musicaram alguns trechos do livro “PanAmérica”. Estão lá na canção “Eu e ela estávamos ali", faixa 1 do cd 2.

À falta de imagens recentes, a foto acima foi escaneada do referido artigo de 1984.

terça-feira, 3 de julho de 2007

todos os prazeres

foto Divulgação

"Ler é melhor do que ir ao cinema, viajar ou usar porcarias que tiram o sujeito do sério. Pensando bem, ler é a segunda melhor coisa do mundo. A primeira é escrever. A que você está pensando é
hors-concours."


A declaração é do jornalista e escritor Ruy Castro, autor de biografias de sucesso como "Anjo pornográfico", sobre Nelson Rodrigues, "Estrela solitária", sobre Garrincha e a recente "Carmen: Uma biografia", sobre a vida de Carmen Miranda. Castro acaba de lançar o livro "Tempestade de ritmos - Jazz e música popular no século XX", uma coletânea de 58 textos publicados na imprensa sobre o mundo do jazz e da música popular.

Vamos por partes. Eu adoro ler, escrever, ir ao cinema, ouvir música, viajar e "a segunda melhor coisa do mundo", não necessariamente nessa ordem. Aliás, essa é a questão: não há ordem. Não há a primeira nem a segunda, é tudo único, dada a importância vital de cada uma delas para a respiração diária. É tudo hors-concours, caro Ruy.

Sou um leitor compulsivo de biografias. Já me ameacei ler a de Abílio Diniz, do Grupo Pão de Açucar, e a do Comandante Rolim, da TAM. E qualquer dia desses, quando diminuir a pilha de livros (não todos de biografias) que tenho pela frente, compro esses pra saber das estripulias desses dois senhores. No momento estou lendo "Montenegro", de Fernando Morais, uma reportagem biográfica sobre o marechal-do-ar Casimiro Montenegro, um cearense danado que fez uma revolução nos céus do Brasil, criando o Correio Aéreo Nacional, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos, e muitas outras façanhas pouquíssimas divulgadas nos compêndios da nossa história.

Ruy Castro é um excelente biógrafo. Igualmente crítico de cinema. E estudioso de música também. Esse seu novo livro sobre jazz e outras bossas populares ainda não li, mas conheço vários de seus textos publicados em jornais, que devem estar nas páginas da "Tempestade". O autor estará na 5ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, participando de mesas de debates. O evento começará amanhã e encerrará no domingo, 8. O anjo pornográfico Nelson Rodrigues será o homenageado.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Yi Yi, de Yang

foto AP/Divulgação

Edward Yang, cineasta chinês, de Taiwan, fez um dos mais belos filmes que já vi, "Yi Yi". Eu não faço a menor idéia do que isso significa na língua deles, parece algo como "um", sobre a individualidade, não arrisco mais do que isso, mas os distribuidores locais acertaram quando lançaram com o título "As coisas simples da vida". É disso que o filme fala.

Em poucas linhas: o diretor conta a história de uma família japonesa que precisa lidar com problemas financeiros na empresa, o coma de sua integrante mais velha e ainda lembranças do passado que voltam ao cotidiano familiar. Com uma direção cinematográfica com a sensibilidade fluindo pelos poros, quase não sentimos que o filme é longo e chega ali pertinho das três horas de duração. Roteiro engenhoso e personagens cativantes, humanos, seguram a onda.

Pois Edward Yang, esse cineasta que soube tão bem dissecar com poesia a alma humana nesse filme, teve a indelicadeza involuntária de ir embora: faleceu sexta-feira passada, depois de uma longa batalha contra um câncer de cólon, e que ele escondia da imprensa. Tinha 59 anos de idade, um menino ainda quando se tem tanta coisa boa para fazer.

Vai ser difícil encontrar seus filmes em locadoras. Talvez em alguma que se preze é possível achar numa prateleira, lá embaixo, sem muito destaque, essa obra-prima "As coisas simples da vida", que repercutiu por ter ganho o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes em 2000. No Brasil foi distribuído pela Filmes da Estação, que se destaca pelo bom gosto no seu catálogo.

domingo, 1 de julho de 2007

Little boy

foto: www.aldeaeducativa.com/IMAGES/hiroshima02.jpg

Li agora uma notinha de rodapé no Correio Braziliense que o ministro da Defesa japonês, Fumio Kyuma, disse ontem a uma agência de notícias de seu país, que era “inevitável” que os Estados Unidos lançassem duas bombas atômicas sobre o Japão durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Isso teria evitado que a União Soviética entrasse também na batalha do Pacífico. Mas o que é isso, sr. Kyuma! Pelo amor de Buda!
O cara com seus olhinhos miúdos e raciocínio idem, considera que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki conseguiram “acelerar o fim da guerra”. Essas declarações absurdas repercutiram muito mal entre os sobreviventes e seus descendentes, claro, e podem se transformar em uma nova dor-de-cabeça para o primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Relembrando: às 8h15 do dia 6 agosto de 1945 a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente cem mil pessoas. O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas. E o sr. Kyuma vem com um papo desse!

Do outro lado, onde o império sempre atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta -, as justificativas são igualmente doentias. Ao longo desses 60 anos do lançamento das duas bombas pelo governo dos EUA, é cada vez mais repudiante a conversa dos americanos para esse genocídio. Theodore "Dutch" J.Van Kirk, major-aviador do avião Enola Gay, bombardeiro B-29 que lançou a coisa, aos 84 anos e do alto da sua senilidade arrogante, não se arrepende do que fez, e diz que passou um bom tempo se preparando para o momento, e que "foi uma das missões mais fáceis" da sua vida. Esse senhor do vôo da morte, vive hoje em um asilo na Geórgia, lustrando as 15 Medalhas Aéreas que recebeu após a "missão".
Deve aguardar a visita do tal ministro japonês para um chazinho verde com cookies...


O bombardeio sobre o Japão foi o maior ataque terrorista da história. No mínimo 50 vezes mais letífero que o 11 de setembro de 2001.
Muitas imagens dos efeitos do cogumelo de fogo ficaram na lembrança de todos. Imagens como essa do garotinho chorando entre os destroços. Garotinho, que ironicamente é a tradução literal do nome da bomba.


Vinicius de Moraes traduziu bem o que resultou da estupidez humana em seu poema "Rosa de Hiroshima":
Pensem nas crianças
mudas telepáticas,
pensem nas meninas
cegas inexatas,
pensem nas mulheres
rotas alteradas,
pensem nas feridas
como rosas cálidas.
Mas, oh, não se esqueçam
da rosa, da rosa!
Da rosa de Hiroshima,
a rosa hereditária,
a rosa radioativa
estúpida e inválida,
a rosa com cirrose,
a anti-rosa atômica.
sem cor, sem perfume,
sem rosa, sem nada.