quinta-feira, 3 de maio de 2007

os mortos mais recentes

foto Cássia Moura


Um cineasta pega a câmera, liga e parte em um road movie diferente pelo sertão do Piauí. O cenário agreste nordestino se apresenta, aos poucos. E logo nas primeiras imagens o sertão virou mar: uma vila de pescadores no litoral do estado, com alguns barcos e uma ventania que assopra sem parar. Mas a câmera insiste no sertão: anda entre os túmulos do cemitério com vista para o Atlântico. O cineasta, sozinho empunhando sua câmera e microfone, procura nas lápides os que foram sepultados em datas recentes, coisa de um ano, menos de ano para cá. Anota o nome do morto mais recente e sai em direção à cidade, à procura dos parentes. Está, assim, desenhado o roteiro do documentário, que percorrerá o extremo de norte a sul, por quase dois mil quilômetros, parando em algumas cidades.


Esse é o contexto do filme “Um corpo subterrâneo”, do piauiense Douglas Machado, apresentado no último domingo, pelas redes públicas de televisão, no programa DocTV III. O trabalho é de uma simplicidade e grandiosidade impressionantes. Douglas não somente com o olhar, como também com o tato da câmera, capta pequenos e profundos depoimentos e momentos de pessoas ainda com o sentimento da perda aflorado, tenuíssimo, indisfarçável. E isso flagrado, ou melhor, compartilhado com a delicadeza e o respeito que dificilmente se consegue em um documentário. A equipe reduzida do filme é um ponto positivo, assim como a maneira como o cineasta não invade, mas adentra a saudade de cada pessoa entrevistada, e flagra nos olhares a dor da ausência, e nas paredes de casas simples a lembrança de quem se foi.


Obviamente que o roteiro do filme previa locações, imaginava cenas e esboçava entrevistas. Mas a cumplicidade com o acaso e, sobretudo, o domínio inteligente com o improviso, são elementos visíveis na construção dramática. O cineasta soube colocar sua câmera no instante certo da realidade, e se afastar desse mesmo tempo quando necessário.


A leitura de certidões de nascimento, casamento e óbito, é repetida nas cidades visitadas. E isso pela voz do próprio morador, com a naturalidade da leitura tropeçada. O que igualmente se dá quando o diretor passa a câmera para o parente do morto, e sem os conhecimentos técnicos cada um filma o que lhe vem à mente e ao alcance do olhar: surgem imagens que se definem como a memória de seu ente querido, o que lhe cerca e o que lhe une.


Com uma edição discreta, o filme inicia, prossegue, e finaliza o seu trajeto pela memória de um povo sem cair no recurso fácil desses malabarismos digitais. E outra maravilha do filme: a sonata “La Follia”, de Vivaldi, que geralmente nos acostumamos a ouvir em arranjo de flauta doce, é aqui usada magnificamente na versão rústica de uma rabeca, inseridíssima no contexto.

3 comentários:

sayô disse...

e salve o piaui,
rs
beijos

Nirton Venancio disse...

Viva o Piauí, Sayô! Viva o cinema brasileiro!
Esse filme é uma obra-prima!

Poli disse...

quero ser atriz...tem vaga para figurante nesse filme?

Parabéns pelo blog, pelo filme.