domingo, 25 de setembro de 2005

o silêncio de Bresson

"Esteja seguro de ter esgotado tudo o que se comunica através da imobilidade e do silêncio"

Robert Bresson (1907-1999), cineasta francês, lembrando que o cinema é essencialmente o silêncio da luz e da cor, e que a palavra e a música serão sempre bem-vindas quando a imagem primeiro falar por si. Bresson seguiu à risca sua concepção genuína de cinema em doze longas que dirigiu, o que lhe valeu a "sentença" de autor de filmes secos, para agradar os críticos e afastar o público. Nem uma coisa nem outra. "Pickpocket" (1959), por exemplo é um filme que tem um clima de tensão tão bem construído que é impossível o espectador não se prender diante da ação. E a tensão está no que não ocorre nas cenas: ela impulsiona no que se percebe, no que é sugerido. O roteiro, simples e preciso, conta a história de um homem desempregado, amargurado e depressivo, que tenta a sorte nas ruas de Paris roubando bolsas e carteiras. Godard dizia que "Bresson é cinema francês, assim como Mozart é música alemã e Dostoiévsky é literatura russa", talvez por "Pickpocket" ser da época em que a Nouvelle Vague dava seus primeiros passos na tela. Para mim, Bresson é cinema, assim como Fellini, De Sica, Glauber, Roberto Santos, Ford, Buñuel...

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

quem é essa mulher?


“Quem é essa mulher/que canta sempre esse estribilho/só queria embalar meu filho/que mora na escuridão do mar”

Essa mulher é Zuzu Angel. Esses versos são da música “Angélica”, que Chico Buarque compôs para ela, logo após sua morte em 1976, e está no disco “Almanaque”, de 1981. O filho que deixou de ser embalado pela mãe, era Stuart Angel, estudante de Economia, preso em maio dos anos de chumbo de 1971, por agentes do Centro de Informação da Aeronáutica, torturado e assassinado, e o corpo possivelmente jogado na escuridão do mar. Tinha 26 anos, era militante do Movimento Revolucionário 8 de outubro, o MR-8. Há relatos horríveis de testemunhas que estiveram com o rapaz na prisão, como Alex Polari, que disse ter visto ele ser arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga.
A mãe, estilista reconhecida no Brasil e no exterior, dedicou sua vida a denunciar a morte do filho, enfrentando com coragem os generais da ditadura, apontando-os nominalmente, criando peças com estampas que representavam o período de repressão em que se vivia. Ela sempre foi uma estilista ousada, fazendo roupas com pedras e rendas do Nordeste, desvinculando-se da maneira colonizada de se vestir. Em abril de 1976, Zuzu Angel morreu misteriosamente em “acidente” de automóvel na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, local que hoje tem seu nome.
O cineasta Sérgio Rezende está filmando a vida dessa mulher que usou a moda para denunciar a ditadura militar no Brasil. Antes, Walter Salles e Roberto Gervitz (que fez recentemente “Jogo subterrâneo”), tentaram lá pelo anos 80 passar para a tela essa história singular. Pelo que se sabe, a jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu, não gostou muito dos roteiros apresentados. Era uma “personagem fictícia”, dizia.
O novo roteiro, escrito por Rezende e Marcos Berstein (diretor de “O outro lado da rua”), aborda a trajetória de sofrimento não somente no aspecto biográfico, mas do período difícil dos anos 70. Patrícia Pillar vive a estilista no filme já intitulado “Zuzu Angel”. A atriz que foi a primeira escalada para interpretar “Olga”, numa produção que não seria digirida por Jaime Monjardim, mas por Luiz Fernando Carvalho (“Lavoura arcaica”), terá a oportunidade agora de viver o papel de outra heroína de nossa história recente. Um nome de destaque no elenco é Daniel de Oliveira, ele mesmo, o que encarnou com perfeição Cazuza no filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Desta vez ele será o filho desaparecido de Zuzu.
As filmagens, que estão acontecendo na capital carioca e se estenderão em Juiz de Fora, Minas, devem terminar em outubro, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2006.

sábado, 17 de setembro de 2005

o imaginário Buñuel


"A memória é permanentemente invadida pela imaginação e pelo devaneio, e como existe uma tentação de acreditar no imaginário, acabamos por transformar nossa mentira em verdade."

Luis Buñuel (1900-1983), cineasta espanhol que nos deu o prazer do devaneio e da imaginação em mais de trinta filmes ao longo de sua carreira. Obras como "Viridiana" (Viridiana), 1961, "O anjo exterminador" (El angel exterminador), 1962, "A bela da tarde" (Belle de jour), 1967, "O estranho caminho de São Tiago" (La voie lactée), 1969, "Tristana, uma paixão mórbida" (Tristana), 1970, "O discreto charme da burguesia" (Le charme discret de la bourgeoisie), 1974, estão definitivamente registradas na história do cinema. São indispensáveis, merecem sempre revisões e deleites. Buñuel viveu e trabalhou por muito tempo na França e também no México, onde fez um filme belíssimo sobre delinquência juvenil , "Os esquecidos" (Los olvidados), 1950. E foi lá que ele se auto-exilou, já abatido pela surdez e considerando finalizada sua contribuição ao cinema, embora desejasse filmar "A casa de Bernalda Alba", de García Lorca. "Meu último suspiro", livro de memórias, foi ditado ao roteirista Jean-Claude Carrière, em longas conversas, pouco antes de morrer. O livro é de uma sinceridade comovente, mesmo que exista essa tentação de se acreditar no imaginário.

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

cidadão Wise

Robert Wise durante as filmagens de "O canhoneiro do Yang-Tsé"



Depois da postagem abaixo leio na internet a notícia da morte do cineasta norte-americano Robert Wise. Antes de começar a dirigir, Wise foi técnico de som e montador. Assinou a montagem de dois filmes de Orson Welles, "Cidadão Kane" e "Soberba" (The magnificent Ambersons), 1942. O seu trabalho mais conhecido é o clássico “A noviça rebelde” (The sound of the music), 1965, vencedor de vários Oscars, um sucesso de bilheteria que de certa forma obscureceu suas qualidades como excelente diretor de filmes mais densos como “Punhos de campeão” (The set-up), 1949. Ou até mesmo um outro musical mais significativo no começo dos anos 60, “Amor, sublime amor” (West side story), 1961, ou seguindo noutra direção, um clássico da ficção científica, “O dia em que a terra parou” (The day the earth stood still), 1951, que impressionava pela sugestão dos enquadramentos sem nenhum recurso de efeitos especiais. Um dos meus filmes preferidos, além de “The set-up”, é “O canhoneiro do Yank-Tsé” (The sand pebbes), 1968, com o ótimo Steve McQueen no papel central.
Wise morreu aos 91 anos
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segunda-feira, 12 de setembro de 2005

set de filmagem


"No tempo das diligências" (Stagecoach), de John Ford, rodado em 1939. Um dos mais marcantes filmes sobre o velho oeste americano, apesar da predileção de Hollywood em massacrar os índios. A diligência atravessa a fascinante paisagem desértica do Monument Valley. Dentro embarcam um médico alcoólatra, uma prostituta, um banqueiro, um jogador, uma mulher grávida e um pistoleiro, Ringo Kid, interpretado por John Wayne, ator presente na maioria dos filmes de Ford. Esses passageiros simbolizam um retrato da sociedade americana da época e, para mim, dos dias de hoje. Durante a viagem, ameaçados pelo perigo dos Apaches, cada um dos viajantes revela aos poucos suas peculiaridades, seus desejos, mesquinharias, medos e contradições. E é justamente no bandido que eles depositam a segurança no percurso pelo deserto.
Na foto acima a carruagem pára numa hospedaria. Ao centro, John Wayne desce e anda um pouco em direção à esquerda para observar o local. Passa ao lado do rebatedor de luz, a câmera gira um pouco corrigindo o enquadramento até ouvir o "corta" do diretor.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Pérez


"Eu gosto de fazer um tipo de cinema que primeiro apele à emoção, e depois à reflexão."

(Fernando Pérez, cineasta cubano)

terça-feira, 6 de setembro de 2005

tudo sobre cinema

“Entramos no cinema para ver um mundo diferente. Se amamos sua paisagem, queremos retornar aos seus lugares. E fazemos um ‘culto’ ao filme: colecionamos fotos, postais, cartazes, opiniões, memorizamos nomes, diálogos, voltamos às reprises. E não é o bastante.”

O texto é do jornalista, crítico, escritor e cineasta Luiz Nazario. Depois dessa leitura, já há algum tempo, perdi por completo o que restava em mim da “vergonha” em colecionar, desde que me desentendo por gente, tudo sobre cinema. São livros, revistas, fotos, postais, opiniões... qualquer coisa. Essa paixão nos torna verdadeiros catadores de papel – de cinema. A imensidão desse mundo que ocupa estantes e paredes, armários e gavetas, cadernos e anotações, é apenas um reflexo diminuto do espaço que a magia do cinema ocupa dentro de nós, na memória e no coração.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

memórias da América Latina

“Os documentários políticos como os meus e os do Michael Moore dizem verdades que os meios de comunicação evitam. O público vai ver documentários longos para compreender o que está acontecendo, por isso eles chamam atenção. Há muitos filmes do gênero na América Latina, o problema é que eles são pouco vistos. Sou grande admirador de Eduardo Coutinho. Um dos maiores filmes feitos na América Latina é ‘Cabra marcado para morrer’. Também vi ‘Edifício Master’, muito bom. O problema é que a televisão argentina não passa nenhum filme argentino. Quantos filmes brasileiros você vê na televisão brasileira? No máximo, aqueles que são produzidos pela própria televisão. É vergonhoso.”

Do cineasta argentino Fernando Solanas, durante o lançamento no Brasil do seu novo filme “Memoria del saqueo”, um documentário que acompanha a trajetória política do seu país dos anos 70 ao final de 2001. É imperdível. De forma sincera, sem pudores, e dando nome a todos, Solanas disseca desde o período cruel da ditadura militar até a renúncia do presidente Fernando de La Rúa. Desfilam pela tela os governantes com suas promessas e cinismo deslavado, a situação miserável da maioria da população, a revolta do povo nas praças batendo panelas, os ditames históricos do FMI, o genocídio social provocado pelos planos econômicos neoliberais. O próprio diretor aparece em registro dos anos 90, quando era deputado e foi baleado “pelo poder de Menem”, como ele acusa.
O filme pode lembrar uma onda de documentários no estilo “Fahrenheit 11 de setembro”, pela narrativa controversa, mas antes, bem antes de Michael Moore, Solanas já fazia esse tipo de cinema-denúncia. É de 1968 o clássico “La hora de los hornos”, onde misturava linguagem pop através da música dos Beatles ao manifesto ousado contra os militares e os países ricos.
Em “Memoria del saqueo” não dá para nós, brasileiros, não nos sentirmos espelhados nos acontecimentos apresentados no filme, lançado em um momento de infeliz coincidência. Solanas fala sobre a dor e a indignação do povo argentino. Sobre políticos desonestos e a necessidade de resgatar a esperança. Portanto, é um filme sobre o drama da América Latina.

sábado, 3 de setembro de 2005

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

todas as mulheres

“Eu sempre fui atrás de bons personagens. A minha ousadia era a de que eu conseguisse, na minha carreira, realizar bons personagens. Como eu comecei no cinema, minha ambição nunca foi fazer a novela das oito, e sim ter ótimos personagens. Eu sabia que isso era um desafio, até por causa do meu perfil físico mesmo, de ser uma brasileira. Então eu sempre fui em busca disso, não importa onde eles estivessem. E eu acho que eu acertei, porque eu apostei também junto com várias pessoas, eu fiz vários primeiros filmes de diretores. Quando você aposta junto acaba que o projeto é um pouco seu também, eu fui produtora associada de vários projetos. E isso é ótimo porque acaba que você fica um pouco dono mesmo de sua trajetória, você tem a opção de escolher. Isso somado, agora que o tempo passou, o que parecia ser uma carreira alternativa, você vê então que aquilo eram tijolos que formaram um alicerce, são trabalhos que depois de somados são consistentes.”

www.mulheresdocinemabrasileiro.com.br, este é o site onde se encontra na íntegra a entrevista com a atriz DIRA PAES, de onde foi retirado o trecho acima.
Lançado em maio do ano passado o site faz um verdadeiro e completo mapeamento das mulheres que enriquecem e embelezam o nosso cinema. São atrizes, diretoras, roteiristas, fotógrafas, diretoras de produção, de arte, continuístas, enfim, todas as atividades que elas sabem muito bem exercer e desenvolver seu talento. Esse levantamento abrange todas as fases, tipos e gêneros: vem desde o cinema mudo aos dias atuais, encontramos a beleza viscontiana de Eliane Lage, o trabalho ousado de Ana Carolina, o saudável escracho de Dercy Gonçalves, as atrizes das comédias eróticas da década de 70, as damas Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Tônia Carrero, as revelações recentes como Débora Duboc. São quase 300 mulheres catalogadas em suas categorias de trabalho, com fotos, biofilmografias, comentários, citações e depoimentos de diretores. E o interessante: cada categoria localiza-se numa “sala” nomeada por uma dessas mulheres. Na Sala Isabel Ribeiro, por exemplo, encontramos as atrizes, na Sala Dina Sfat, as diretoras, na Sala Glauce Rocha, as entrevistas, e assim pelo resto da grande casa.
Idealizado e mantido pelo jornalista e louco por cinema Adilson Marcelino, o site é um trabalho inédito na web. Um espaço riquíssimo para pesquisa.