segunda-feira, 5 de setembro de 2005

memórias da América Latina

“Os documentários políticos como os meus e os do Michael Moore dizem verdades que os meios de comunicação evitam. O público vai ver documentários longos para compreender o que está acontecendo, por isso eles chamam atenção. Há muitos filmes do gênero na América Latina, o problema é que eles são pouco vistos. Sou grande admirador de Eduardo Coutinho. Um dos maiores filmes feitos na América Latina é ‘Cabra marcado para morrer’. Também vi ‘Edifício Master’, muito bom. O problema é que a televisão argentina não passa nenhum filme argentino. Quantos filmes brasileiros você vê na televisão brasileira? No máximo, aqueles que são produzidos pela própria televisão. É vergonhoso.”

Do cineasta argentino Fernando Solanas, durante o lançamento no Brasil do seu novo filme “Memoria del saqueo”, um documentário que acompanha a trajetória política do seu país dos anos 70 ao final de 2001. É imperdível. De forma sincera, sem pudores, e dando nome a todos, Solanas disseca desde o período cruel da ditadura militar até a renúncia do presidente Fernando de La Rúa. Desfilam pela tela os governantes com suas promessas e cinismo deslavado, a situação miserável da maioria da população, a revolta do povo nas praças batendo panelas, os ditames históricos do FMI, o genocídio social provocado pelos planos econômicos neoliberais. O próprio diretor aparece em registro dos anos 90, quando era deputado e foi baleado “pelo poder de Menem”, como ele acusa.
O filme pode lembrar uma onda de documentários no estilo “Fahrenheit 11 de setembro”, pela narrativa controversa, mas antes, bem antes de Michael Moore, Solanas já fazia esse tipo de cinema-denúncia. É de 1968 o clássico “La hora de los hornos”, onde misturava linguagem pop através da música dos Beatles ao manifesto ousado contra os militares e os países ricos.
Em “Memoria del saqueo” não dá para nós, brasileiros, não nos sentirmos espelhados nos acontecimentos apresentados no filme, lançado em um momento de infeliz coincidência. Solanas fala sobre a dor e a indignação do povo argentino. Sobre políticos desonestos e a necessidade de resgatar a esperança. Portanto, é um filme sobre o drama da América Latina.

2 comentários:

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