terça-feira, 30 de agosto de 2005

louco por cinema

o diretor Breno Silveira (E) no set de "2 filhos de Francisco"
foto Vantoen Pereira Jr.

“Vou ser sincero. Houve um momento em que senti que eles (Zezé di Camargo e Luciano) ficaram meio decepcionado com o projeto (do filme ‘2 filhos de Francisco’). Mas não foi pelo fato de centrarmos na infância, adolescência e nos anos em que eles – Zezé em especial – penaram em busca do sucesso. A decepção – mais do Luciano – veio quando eu disse que eles não seriam atores do filme. Ou seja, não iriam interpretar os próprios papéis. Luciano me contou que o sonho dele era ser ator (ser cantor era o sonho de Zezé). Me mostrou que conhecia muito cinema. Comentava que esta ou aquela parte do roteiro lembrava o filme iraniano 'Filhos do paraíso', de Majid Majidi, falava de 'O piano', de Jane Campion, demonstrando boa informação cinéfila. Ponderei que eles não eram atores, que se quisessem, podiam trocar de diretor. Mas eles acabaram aceitando. E só aparecem no filme fazendo o que eles sabem: cantando as músicas deles num show gigantesco, com as fãs delirando.”

Trecho da entrevista que o cineasta Breno Silveira concedeu à jornalista Maria do Rosário Caetano na Revista de Cinema nº57, deste mês. Ponto para o diretor! Apesar de muita coisa na produção do filme favorecer decisões da dupla pop-sertaneja, Breno manteve o posicionamento de quem conhece seu trabalho, de quem tem responsabilidade na construção de um universo artístico complexo como o cinema, em que tudo converge para o olhar e a sensibilidade do diretor, por mais que se diga e se propague que é – e é! – uma arte de equipe.
Estreando na direção, Breno Silveira adiou o que seria seu primeiro longa-metragem, “A história de Dé”, um roteiro dele e de Paulo Lins (“Cidade de Deus”), para mergulhar de cabeça noutra história, a dos irmãos Mirosmar e Welson, os futuros Zezé di Camargo & Luciano, ou para ser mais exato, a história do Seu Francisco Camargo, um agricultor do interior de Goiás que empenhou sua vida em fazer dois de seus sete filhos uma dupla de música sertaneja. O coração do filme é ele, Francisco, vivido magnificamente por Ângelo Antônio, numa interpretação precisa, segura e comovente. Todo o elenco é de uma afinidade impressionante, sem caricaturas, sem artificialismos. A cena em que Paloma Duarte (Zilu) e Márcio Kieling (Zezé) se conhecem e começam a namorar é o exemplo da excelente direção de atores. Breno Silveira assinou a fotografia de mais de dez longas, entre eles, “Carlota Joaquina”, de Carla Camuratti, “Gêmeas” e “Eu, tu, eles”, ambos de Andrucha Waddington, e dessa vez entregou a tarefa atrás das câmeras aos amigos André Horta e Paulo Souza, que imprimiram ao filme uma textura avermelhada escura, típica do barro e da poeira do centro-oeste brasileiro.

"2 filhos de Francisco" não é somente uma cine-biografia sobre uma dupla de cantores com mais de 20 milhões de discos vendidos, em que pese o conceito que se tenha sobre música popular. É um filme sobre a alma brasileira, sobre a perseverança, sobre a determinação que sustenta os sonhos de cada um nós, e que fundamentado nessa proposta ganha uma universalidade muito além das grandes platéias.

Um comentário:

Cris disse...

Adorei a sua matéria sobre o filme, e concordo com você sobre a cena da Paloma Duarte e Márcio Kieling. Você ri, chora e torce por esse pai que sonha em dar uma vida melhor para seus filhos, não se importando com as dificuldades do caminho, ele vai até o fim. E isso é lindo, essa força de vontade de nunca desistir. É um sonho tornando-se realidade. É um dos melhores filmes do ano.