segunda-feira, 8 de agosto de 2005

alegoria dos mutilados

pintura Salvador Dalí

Enilson Pereira Soares, 30 anos, chegou há três meses ao Distrito Federal. Saiu de ônibus do Piauí, trazendo a mulher Valdirene e o filho Yuri, de sete anos, em busca de melhores dias. Hospedou-se na casa da prima Gilcelene na cidade-satélite Santa Maria, a 40 quilômetros do Congresso Nacional. Semi-analfabeto e desempregado, na semana passada entrou em um supermercado e furtou um xampu, um condicionador, dois desodorantes e duas cartelas de isqueiro. Algo em torno de R$ 30,00. Venderia os produtos para comprar cinco quilos de arroz e dois de frango. Colocou discretamente as “comprinhas” debaixo da camisa e saiu disfarçando entre as gôndolas cheias de promoções para o Dia dos Pais que se aproxima. Mas foi flagrado pelo zeloso segurança do dia. Sem "habeas-corpus preventivo", foi algemado, jogado no chão, de bruços, enquanto aguardava a PM. Uma multidão ao redor xingavam o rapaz de ladrão, bandido, sem-vergonha... Está preso no Departamento de Polícia Especializada, e enquanto espera julgamento será transferido para o Complexo Penitenciário do DF, a conhecida Papuda, onde ficará junto de 7 mil presos amontoados em um local onde cabem razoavelmente 4,5 mil. Se condenado, poderá pegar de um a quatro anos de prisão, sem direito a xampu e condicionador, muito menos desodorante.
Na pequena casa em Santa Maria, a família de Enilson aguarda notícias do parente no noticiário da tv, enquanto acompanha os desdobramentos do escândalo do mensalão. Não entendem porque aqueles senhores que “levaram” o equivalente a um supermercado inteiro ainda não foram presos... A mulher não pára de chorar e o filho pequeno continua aos prantos depois que viu o pai algemado.
O delegado-chefe da 33ª Delegacia de Polícia em Santa Maria disse que “infelizmente, a lei não dá flexibilidade para tratar ninguém com diferenciação.” Diante da repercussão, o Ministério Público do DF diz que vai “estudar o caso”. E a Ordem dos Advogados do Brasil, na capital federal, disse que o episódio “é uma coisa lamentável.”

Um comentário:

Erika disse...

Lamentável...essa é a palavra perfeita pra definir a Lei brasileira...