quarta-feira, 16 de março de 2016

a perfeição é uma meta


No final da canção O estrangeiro, do disco homônimo de 1989, Caetano Veloso canta "some may like a soft brazilian singer / but i've given up all attempts at perfection". Arriscando aqui uma tradução livre, algo como “alguns podem gostar de um agradável cantor brasileiro / mas estou dando tudo para alcançar a perfeição".
Sempre antenado no circuladô do mundo, o compositor baiano cita entre aspas e parênteses um trecho do texto-manifesto de um dos maisimportantes discos dos anos 60, o conceitual Bringing It All Back Home, de Bob Dylan, 1965.
Exposto na contracapa do álbum, a longa apresentação do então jovem cantor, disserta sobre as composições, a estética das músicas gravadas, a introdução das guitarras, tornando um disco dividido entre o acústico e o elétrico.
Dylan, influenciado até a medula pela geração beat, é declaradamente naqueles anos compulsivos, um cantor de protesto, contra o racismo, pelos Direitos Humanos, e reforça no disco sua postura em músicas discursivas, como uma marca, um grito, um desenho sonoro que se perpetuaria.
Reconhecia suas limitações vocais, mas precisava cantar, intermediado por uma gaita, as suas inquietações naquela mistura de folk, rock e blues. Não era nenhum, dizia-se, “soft brazilian singer”: não era nenhum João Gilberto. O cantor brasileiro já conquistara o público americano em 1959 com o seminal Chega de saudade, e acabara de lançar, em 1964, o ótimo Getz/Gilberto. Dylan não era “um agradável cantor brasileiro / mas estava dando tudo para alcançar a perfeição”.
E a perfeição foi atingida por sua interpretação única, anasalada, arraigada em letras dissecadas da alma. Um álbum que tem Subterranean Homesick Blues, Mr. Tambourine Man, It's All Over Now, Baby Blue faria mesmo a história reconhecer a perfeição e Caetano citar a referência do estrangeiro ao bruxo de Juazeiro.

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