quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Odair no seu devido lugar

Lá pelos final dos anos 60 e começo dos 70, quando o "rei" Roberto Carlos, vindo do pequeno Cachoeiro, com seu ar de moço bom, dizia pras namoradas mil que "te darei o céu, meu bem, e o meu amor também", o goiano de Morrinhos Odair José se apaixonava perdidamente por uma prostituta e prometia tirá-la daquele lugar.

Odair genuinamente ia na contramão dos bons costumes desse bailinho, em plena ditadura militar, que implacavelmente censurou suas letras, vistas como um acinte à tradição, família e propriedade.

Robertão e sua corte continuavam dentro dos conformes, dava um beijo splish splash no cinema, levava as meninas para passear no calhambeque, e deixava a garota papo firme no portão da casa grande...

Odair, do outro lado do bairro, dizia para sua garota envergonhada, “eu já sei que essa casa onde você diz morar / onde todo dia no portão eu venho lhe esperar / não é a sua casa. / Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo / e se você pudesse fugir desse mundo e nunca mais voltar...” Deixe esse essa vergonha de lado, acalentava.

Como bem analisou o jornalista Paulo Lima, editor da revista Trip, "nossa capacidade de engavetar pessoas em compartimentos etiquetados com rótulos burros e reducionistas é mesmo incrível. Odair José é possivelmente uma das mais notórias vítimas desse tipo de ignorância."

O cantor agora não é mais brega, é "cult". Pelo menos quem hoje coloca Odair José no seu merecido lugar, como um artista autêntico, são nomes que sempre reconheceram o seu valor, como Zeca Baleiro, Paulo Miklos, Fernando Catatau, Otto, Mundo Livre S/A...
Caetano Veloso foi "ousado" bem antes: gravou com ele Eu vou tirar você desse lugar", em 1973.

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