terça-feira, 6 de outubro de 2015

no home movie

O crítico Luís Miguel Oliveira definiu muito bem a belga Chantal Akerman ao dizer que era 'filha' do casamento entre a Nouvelle Vague e a vanguarda americana. 

Cineasta de uma contemporaneidade inovadora impressionante, Chantal se foi ontem aos 65 anos. 

Um dos seus filmes mais conhecidos, e que de certa forma lhe projetou como uma realizadora singular, Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080, Bruxelles, ilustra adequadamente a definição acima: o cruzamento de influências de Godard e Jonas Mekas. Da mesma forma, exemplifica o ótimo News from home, de 1977, do qual o cineasta e professor Marcelo Ikeda  postou em sua página no Facebook a sequência final, como uma das mais belas da história do cinema.

Chantal Akerman, muitas vezes rotulada de cineasta feminista, pela constelação de personagens com seus conflitos, perplexidades e determinações comportamentais, fez um cinema sem concessões, sejam estéticas e muito menos mercadológicas, mesmo quando fez sua ousada incursão numa produção como Um divã em Nova Iorque, comédia romântica com Juliette Binoche e William Hurt, gênero por ela revisitado com autenticidade. 

O seu cinema sempre se manteve marcado por uma perfeita rigidez de composição cênica, principalmente nos documentários, onde seu estilo pessoal, ao tratar de temas recorrentes como solidão, sexo, religião, lhe fez uma autora inquieta, reflexiva, que soube experimentar com propriedade todos os cinemas de todos os lugares em todos os tempos.

No home movie, seu último filme, apresentado no Festival de Locarno este ano, trata dos meses finais de vida de sua mãe em Bruxelas, uma sobrevivente de Auschwitz, assunto que sempre marcou a vida da cineasta. Logo após a exibição do documentário, Chantal disse, como uma premonição, que “depois desse filme, não há praticamente mais nada a dizer.”

Nenhum comentário: