terça-feira, 14 de agosto de 2012

o sertão por testemunha



Em 1929 o cineasta Dziga Vertov realizou o longa-metragem “O homem com uma câmera” (Chelove s kinoapparatom), um marco na história do cinema, um filme seminal não somente como documentário, mas como cartilha da linguagem cinematográfica. Como diz o título, é o olho humano vendo o mundo através da lente da câmera. No enquadramento tudo converge em um único ponto de visão, e exatamente por isso, a partir dessa obra-prima, criou-se o termo “olho-câmera”, ou “cinema-olho”, ou “câmera-olho”. Vertov em uma hora e seis minutos filma o cotidiano de cidades russas naquele início de século.  São planos milimetricamente compostos com a retina e a intuição. O gênero documentário na sua definição mais precisa “persegue a realidade”, enquanto a ficção “recria essa realidade”. E Vertov foi fundamental na construção de uma narrativa dramática e poética em seus filmes que registram os primeiros passos do próprio cinema, perseguindo ou recriando o que via.

O filme do cineasta russo foi a primeira associação que me veio à cabeça e ao coração ao assistir o curta-metragem “Monte Pedral”, do cearense Marcley de Aquino, exibido no III Festival de Jericoacoara Cinema Digital, em junho passado.  Com pouco mais de 14 minutos de duração, o filme impressiona pela habilidade de tornar a câmera invisível ao documentar o cotidiano de uma pequena fazenda encravada nos cafundós do sertão cearense. Marcley acompanha a rotina do vaqueiro Pedro, levando o gado para a pastagem, realizando tarefas comezinhas, alimentando os animais, tirando leite das vacas, amolando o facão, descansando deitado numa pedra enquanto o gado come a ração, entoando um mantra de aboio e tangendo os bois de volta para o curral. Simples assim. Mas não é uma reportagem do Globo Rural. É Cinema. Ao comando da câmera invisível, tem o olho de um cineasta, completamente tomado de poesia e proximidade umbilical com o ambiente: quando menino, Marcley vivia suas férias escolares em Monte Pedral, que foi propriedade de sua família.  Os recortes na decupagem do filme são imagens que ele transpôs trazidas da infância, a quem o curta é dedicado. E quando Marcley faz essa dedicatória, não é somente ao seu tempo de criança naquele ambiente rústico e natural, sólido e poético, campônio e universal, ele se refere igualmente à infância do cinema, o que remete diretamente aos primeiros fotogramas da arte cinematográfica, à Vertov.  Marcley revisita sua infância através da semente do Cinema adubada em suas reminiscências e em suas leituras.

“Monte Pedral” fala do chão sagrado de um sertão ao mesmo tempo roseano, de tão verde, e graciliano, pela textura do tempo.  Expressa-se na mesma definição de um filme pessoal, do autor com sua aldeia afetiva, e de um conto cinematográfico de terras mais distantes. Marcley desmitifica o sertão quando apresenta o vaqueiro Pedro sem a tradicional indumentária de couro. O personagem real e nos dias hoje veste bermuda, camiseta de malha, boné e usa botas de borracha, mas íntegro e inalterado em seu desenho interior. Desmitifica sem destruir a memória. Atualiza sem implodir o passado. Filma em digital sem arrancar a pele do cinema. Essa composição do ontem e o agora, do histórico e do moderno, se exprime e imprime em vários momentos da narrativa: nos planos em que se cruzam o burro carregando água e a bicicleta com o menino, que cruza ainda com uma moto em disparada; no vaqueiro que bebe água no gargalo de uma garrafa pet, no funil improvisado com o pedaço dessa garrafa. São hábitos de dois tempos que não se conflitam, se unem na mesma metragem do filme. Tudo estava ali em Monte Pedral, ontem no preto-e-branco de um jeito, hoje no colorido estourado de outro feito: e o cineasta chegou com seu olho-câmera, assim como o Cinema ali o esperava com sua câmera digital G12.

Sem música, no roçado do som ambiente, o filme é um poema, uma elegia à beleza e a simplicidade do ser humano. Os planos em contra-plongée é uma reverência à grandiosidade do local e seus personagens: o vaqueiro com sua liturgia campestre, os bois quietos mastigando a tarde. “Monte Pedral” é um filme em reverência ao Cinema.

Um comentário:

Marcley de Aquino disse...

Meu caro Nirton, gostaria de deixar aqui meu agradecimento pela forma como você percebeu esse trabalho. Já tive oportunidade de dizer o quanto teu filme DIM me emocionou, não só como espectador, mas também como artista. O que criamos é fruto do que vivemos, e eu também te agradeço por isso. Forte abraço!