quinta-feira, 31 de maio de 2007

o batismo de Ratton


"A grande maioria do público que freqüenta os cinemas de shopping prefere dois tipos de filmes: os 'Prozac', leves e com final feliz, e os 'montanha russa', com muita ação e efeitos. Raros os filmes brasileiros que se encaixam nesse perfil."



Do cineasta Helvécio Ratton, que está com seu "Batismo de sangue" em algumas-poucas-quase-nada salas em shoppings das capitais brasileiras. O filme tem apenas 20 cópias. Foi premiado ano passado no Festival de Brasília nas categorias de fotografia (Lauro Escorel) e diretor.


Baseado no livro homônimo de Frei Betto, o filme conta a participação de frades dominicanos na luta clandestina contra a ditadura militar, no final dos anos 60, centralizando-se na história do cearense Frei Tito, corretamente interpretado por Caio Blat.

sábado, 26 de maio de 2007

o olho da câmera


O diretor e fotógrafo Jorge Bodanzky não parte do “purismo” do documentário. Não age como um espectador que registra o que acontece e mostra para os outros. Ele participa, interfere por meio dos personagens.


Hoje, às 17h30, no Canal Brasil, o programa Retratos Brasileiros será dedicado ao cineasta, num especial dirigido por Evaldo Mocarzel e narrado pelo próprio biografado, que comenta alguns de seus filmes, como “Os Mucker”, de 1980, “Gitirana”, co-dirigido com Orlando Senna dois anos antes, assim como o filme de estréia, o clássico “Iracema – uma transa amazônica”, de 1974. “Terceiro milênio”, que ele dirigiu junto com Wolf Gauer, em 1981 e “Igreja dos oprimidos”, de 1986, também serão comentados. Bodanzky tem como marca a câmera na mão, o olho uma extensão da lente.


Sobre “Os Mucker”, seu “projeto épico”, ele lembra o dia em que faria uma grande cena de batalha, com centenas de figurantes, e Paulo César Pereio desapareceu. Foi encontrado horas depois, na praia, a 100km dali, namorando. Sobre “Terceiro milênio”, fala do senador Evandro Carreira, que dormia o dia todo e de repente saía desembestado. Na cena seguinte, lá está o político, explicando que na Amazônia é preciso viver tranqüilo.


Bodanzky sabe bem disso. Há mais de 30 anos filmando a região, ele hoje tem um barco, chamado "Navegar Amazônia", com laboratório multimídia no segundo andar, para registrar e divulgar a cultura de lá.

terça-feira, 22 de maio de 2007

all about my mother


A Sala P. F. Gastal, em Porto Alegre, comemora no próximo dia 25 seu 8º aniversário. Para celebrá-lo, foi desenvolvida pela Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal de Cultura uma programação intensa, intitulada "Do lixo ao luxo: hibridismo e reciclagem cultural" , que inclui debates, performance, uma mostra de filmes intitulada "A redenção do detrito" e a exposição Mirante, da artista paulistana Chiara Banfi.



A principal atração do evento será a presença do cineasta americano Jonathan Caouette, que vem à capital gaúcha especialmente para apresentar seu cultuado filme "Tarnation", inédito no Brasil. Documentário autobiográfico sobre a relação do diretor com a mãe esquizofrênica, o filme foi feito inteiramente no computador, ao custo alegado de 218 dólares! (R$ 433,82 nesse câmbio ladeira abaixo...)



A traumática história de Caouette, um novaiorquino de 34 anos, é recuperada através de filmes familiares em vhs e super-8, fotografias, gravações de secretária eletrônica e curtas de ficção, além de novas imagens captadas com sua câmera digital. O filme caseiro de Caouette chegou às mãos dos diretores Gus Van Sant e John Cameron Mitchell, que ficaram impressionados com o resultado e imediatamente conseguiram, com a ajuda de David Lynch, levantar recursos para ampliação e custear os direitos da trilha sonora.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

todo sobre mi madre

foto Nacitám Obrázek


"Fernanda é uma grande artista e uma figura humana adorável. Não faz da vida no set uma batalha de egos. Pelo contrário, te ajuda a ser verdadeiro com sua simples presença e a dedicação ao que faz."


O ator espanhol Javier Bardem, feliz com sua nova mãe na tela. A nossa Fernanda Montenegro é quem interpreta o papel na adaptação de "O amor nos tempos do cólera", do colombiano Gabriel García Márquez, feita pelo inglês Mike Newell.


Bardem está em Cannes, concorrendo com o novo filme dos irmãos Coen, "No country for old men".

sábado, 19 de maio de 2007

não me deixe mais

foto Divulgação

Há várias gravações da clássica canção "Ne me quitte pas"... Mireille Mathieu, Nina Simone, Charles Aznavour, Ute Lemper, Simone Langlois, Sylvie Vartan, Yuri Buenaventura, Estrella Morente, Serge Lama, Nana Moushouri, Maysa, Cauby Peixoto, todas belas. E ainda pode-se enumerar as versões em inglês cantadas por David Bowie, Frank Sinatra, Cindy Lauper, Julio Iglesias e muitos outros. No Brasil, além de Maysa e Cauby, há gravações em português na voz de Altemar Dutra, Ângela Rô Rô, Roberta Miranda, Alcione, Fagner... Mas nenhuma supera o emotivo canto do seu autor, Jacques Brel, de 1959. Foi escrita em decorrer da separação de Brel e de Suzanne Gabriello.

Emocione-se:

sexta-feira, 18 de maio de 2007

hitchcockianas


"Existe algo mais importante do que a lógica: é a imaginação. Se pensamos primeiramente na lógica, não podemos imaginar mais nada."

sábado, 12 de maio de 2007

a leste do éden

foto MGM/Divulgação

Tentando me livrar do bombardeio midiático por todos lados da passagem pelo Brasil do cardeal Joseph Ratzinger, o Bento XVI, fui reler uns textos sempre atualíssimos de Dom Pedro Casaldáliga e dar uma lida em trechos de alguns dos mais de 60 livros de Leonardo Boff. Como se sabe, Boff foi punido com o silêncio obsequioso pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, após a publicação do livro "Igreja, Carisma e Poder", que analisava a estrutura hierárquica da Igreja Católica a partir da metodologia marxista. O prefeito da Congregação era o atual papa. Em sua página na internet, Leonardo Boff analisa a visita do Sumo Pontífice, discorre a crise institucional em que vive a Igreja, e tantos outros assuntos pertinentes.


E continuando na contramão das pautas jornalísticas da semana, procurei ainda rever um documentário muito bom que Silvio Da-Rin dirigiu em 1985, "Igreja da Libertação", abordando o tema da teologia da libertação, apontando naquele momento as injustiças sociais durante o governo Sarney. Não consegui o filme, e me contentei com o dvd de "As sandálias do pescador" (The shoes of the fisherman), produção de 1968, dirigida por Michael Anderson.


Em 1963, o australiano Morris West escreveu a novela "As sandálias do pescador", na qual antecipava a chegada ao Vaticano de um sacerdote surgido do leste europeu comunista. Quinze anos mais tarde, o polonês Karol Wojtyla era nomeado papa. O cineasta inglês se baseou nesse profético best-seller para dirigir aquele drama religioso do final da década de 60. A primeira vez que vi o filme, eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones, e saí impressionado do cine São Luiz, em Fortaleza. O grande Anthony Quinn (foto) interpreta o arcebispo ucraniano Kiril Lakota, prisioneiro durante 17 anos na Sibéria sob o regime comunista. Quando as relações entre a Rússia e a China se deterioram, o premier russo Kamenev, interpretado por Laurence Olivier, o liberta, e ele se converte em cardeal. Kamenev deseja ter um representante no Vaticano para futuras situações políticas. Depois da morte do papa, na pele de outro grande ator, John Gielgud, Lakota se postula como firme candidato para comandar os destinos da Igreja Católica em uma época complicada. O filme de Anderson, apesar de duas indicações ao Oscar (direção de arte e música) não ganhou nenhum prêmio. Mesmo assim, tornou-se um clássico.


Anthony Quinn, pelo menos, convence mais como papa.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

abrindo o caixa

foto Rede Globo

"Bruno Barreto me procurou, tinha sabido o enorme sucesso da peça e queria fazer um filme dela. Não gosto que adaptem minhas peças para o cinema, acho difícil essa transposição. Mas ele insistiu, insistiu, insistiu muito."


"Fui contratado como roteirista. Ao longo de uns seis ou sete meses de trabalho, tempo integral, a única coisa que o Bruno tinha como projeto no nosso trabalho era mudar a minha peça."


"Num belo dia, ele trouxe outro roteiro, de outro roteirista, sobre a minha peça, o que era absolutamente vedado pelos termos do nosso contrato. Ele estava rasgando o contrato."


"A versão final que me apresentou para filmagem era outra vez outro roteiro, com coisas minhas aqui e ali, personagens descaracterizados e a eliminação pura e simples dos conflitos básicos."


"Agora é que soube que, lamentavelmente, o filme não foi bem, afundou. Eu havia previsto."



Trechos da entrevista com o ator, diretor e dramaturgo Juca de Oliveira no jornal Correio Braziliense de hoje, onde ele fala, entre outros assuntos, sobre os atritos que teve com o cineasta Bruno Barreto sobre o filme "Caixa dois", lançado recentemente.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Pokemon de Jesus

foto Gullane Filmes

“Piaba de silicone”, “manicure de lacraia”, “Iemanjá de açude”, “Exu de galinheiro”, “omelete de cupim”, “tapioca de Exu”, “desinteria de tinta”, “um dilúvio bovino”, “clonado de miolo de pão”, “Pokemon de Jesus”... Estas são algumas das expressões cunhadas pelo ator José Dumont ao personagem Antonio Biá no ótimo “Narradores de Javé”, que revi recentemente em dvd. Dirigido por Eliana Caffé, em 2003, o filme não teve lançamento e distribuição à altura. Dumont, com seu talento e criatividade, improvisou muita coisa durante as filmagens, e esses termos renderam ótimas gargalhadas na equipe e elenco. E também na platéia. É através de Biá que somos conduzidos à história de uma cidade no interior nordestino. Na iminência de ter o vilarejo inundado pelas águas de uma represa, a população incumbe o escrivão – ele mesmo, o Biá – de escrever um grande livro narrando os feitos do passado, a partir da história de cada habitante. Dessa forma, acreditam que não serão condenados ao esquecimento quando a cidade estiver sob as águas.


O grande achado é, sem dúvida, o personagem controvertido e “macunaímico”, do escrivão, que tem desavenças com os moradores, mas por eles é aceito como o único capacitado para a tarefa. Ele ouve de cada um uma história diferente sobre um mesmo fato e sobre as lendas guardadas na memória de todos. O trabalho de José Dumont é magnífico e mereceu o prêmio de melhor ator no Festival de Cinema do Rio.


Com roteiro escrito em parceria com o dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, a partir de pesquisa nas tradições populares e na cultura oral, Eliana Caffé fez um filme audacioso pela inquietação da narrativa e de vários personagens que se entrelaçam e não param de falar. A câmera de Hugo Kovensky acompanha a multidão na tela em registro quase documental, correndo contra o tempo, ameaçados que estão pelas águas que se aproximam. No elenco, destacam-se ainda o saudoso Nelson Dantas, Gero Camilo, Matheus Nachtergaele, Nelson Xavier, Rui Resende, o ótimo Orlando Vieira (que fez o motorista em “Sargento Getúlio”, de Hermano Penna), e a novata Luci Pereira, atriz da Bahia, onde o filme foi rodado, mais exatamente em Gameleira da Lapa.


Dumont foi ator principal do primeiro longa de Eliana, “Kenoma” (1998), que assim como “Narradores” está disponível em dvd. Também à venda a trilha sonora composta pelo pernambucano DJ Dolores e sua Orquestra Santa Massa.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

os mortos mais recentes

foto Cássia Moura


Um cineasta pega a câmera, liga e parte em um road movie diferente pelo sertão do Piauí. O cenário agreste nordestino se apresenta, aos poucos. E logo nas primeiras imagens o sertão virou mar: uma vila de pescadores no litoral do estado, com alguns barcos e uma ventania que assopra sem parar. Mas a câmera insiste no sertão: anda entre os túmulos do cemitério com vista para o Atlântico. O cineasta, sozinho empunhando sua câmera e microfone, procura nas lápides os que foram sepultados em datas recentes, coisa de um ano, menos de ano para cá. Anota o nome do morto mais recente e sai em direção à cidade, à procura dos parentes. Está, assim, desenhado o roteiro do documentário, que percorrerá o extremo de norte a sul, por quase dois mil quilômetros, parando em algumas cidades.


Esse é o contexto do filme “Um corpo subterrâneo”, do piauiense Douglas Machado, apresentado no último domingo, pelas redes públicas de televisão, no programa DocTV III. O trabalho é de uma simplicidade e grandiosidade impressionantes. Douglas não somente com o olhar, como também com o tato da câmera, capta pequenos e profundos depoimentos e momentos de pessoas ainda com o sentimento da perda aflorado, tenuíssimo, indisfarçável. E isso flagrado, ou melhor, compartilhado com a delicadeza e o respeito que dificilmente se consegue em um documentário. A equipe reduzida do filme é um ponto positivo, assim como a maneira como o cineasta não invade, mas adentra a saudade de cada pessoa entrevistada, e flagra nos olhares a dor da ausência, e nas paredes de casas simples a lembrança de quem se foi.


Obviamente que o roteiro do filme previa locações, imaginava cenas e esboçava entrevistas. Mas a cumplicidade com o acaso e, sobretudo, o domínio inteligente com o improviso, são elementos visíveis na construção dramática. O cineasta soube colocar sua câmera no instante certo da realidade, e se afastar desse mesmo tempo quando necessário.


A leitura de certidões de nascimento, casamento e óbito, é repetida nas cidades visitadas. E isso pela voz do próprio morador, com a naturalidade da leitura tropeçada. O que igualmente se dá quando o diretor passa a câmera para o parente do morto, e sem os conhecimentos técnicos cada um filma o que lhe vem à mente e ao alcance do olhar: surgem imagens que se definem como a memória de seu ente querido, o que lhe cerca e o que lhe une.


Com uma edição discreta, o filme inicia, prossegue, e finaliza o seu trajeto pela memória de um povo sem cair no recurso fácil desses malabarismos digitais. E outra maravilha do filme: a sonata “La Follia”, de Vivaldi, que geralmente nos acostumamos a ouvir em arranjo de flauta doce, é aqui usada magnificamente na versão rústica de uma rabeca, inseridíssima no contexto.