sábado, 21 de abril de 2007

olhar neo-realista

foto Cineteca Nazionale di Roma


Um dos momentos mais emocionantes do cinema mundial, a seqüência final do filme "Ladrões de bicicleta" (Ladri di biciclette), de Vittorio De Sica, 1948: na Roma pós-guerra, cansado de procurar por sua bicicleta roubada, o desempregado Ricci (Lamberto Maggiorani) decide furtar outra em frente a um estádio. São 8 minutos de angústia. A câmera ali centralizada na aflição do pai, sob o olhar confuso, triste e complacente do filho Bruno (Enzo Staiola).

Veja.

a memória de Girardot

foto M. Japaridze / AP


Leio agora no blog do Luiz Carlos Merten uma comovente crônica sobre o estado de saúde da atriz francesa Annie Girardot, de 76 anos. Desde 2001 ela vem lutando contra o Mal de Alzheimer, e mais recentemente a doença tem se agravado, fazendo-a perder a memória.


Sua filha Paola Salvatori desvenda o segredo no livro "La mémoire de ma mère" (A memória de minha mãe), desfazendo completamente a versão sensacionalista que a imprensa noticiava como sendo problemas decorrentes do alcoolismo.


Lembro-me de Annie Girardot em vários filmes, entre eles "Rocco e seus irmãos" (Rocco i suoi fratelli), clássico de Luchino Visconti de 1960, onde faz uma atuação inesquecível vivendo a prostituta Nadia. Na trama, tem um caso tempestuoso com o personagem interpretado pelo italiano Renato Salvatori, com quem depois se casou, e tiveram a filha Paola.


Em 2001 Annie foi a mãe de Isabelle Huppert no pertubador "A professora de piano" (La Pianiste), produção franco-austríaca dirigida por Michael Haneke, com quem filmou, há dois anos, o drama "Caché".

terça-feira, 17 de abril de 2007

encontro no Porto das Caixas

Reginaldo Faria e Irma Alvarez. Foto Acervo


"Quem hoje assista a "Porto das Caixas" (1962), estréia em longa-metragem de Paulo César Saraceni, talvez tenha dificuldade em enxergar os méritos do filme, mesmo porque quase cinco décadas se passaram, e os detalhes e bastidores da produção venham progressivamente sumindo na memória."


Andréa Ormond em seu blog Estranho Encontro está sempre proporcionando grandes encontros com o cinema brasileiro. O próprio título de sua página é uma referência ao segundo longa de Walter Hugo Khouri, de 1957. E ao contrário do que possa sugerir, os encontros são agradáveis. É uma página totalmente dedicada ao nosso cinema, com entrevistas e análises de filmes, muitos deles lamentavelmente esquecidos do grande público.

"Porto das Caixas" é um desses clássicos. Belíssimo filme, inspiradíssimo no neo-realismo italiano, assim como "O grande momento", que Roberto Santos rodou em 1957.

Encontre o texto completo sobre o filme de Saraceni aqui.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Luigi Comencini

foto Acervo

"Um filme deve provocar sentimentos e não representar idéias, porque as idéias acompanham os sentimentos e não o contrário."

Sábias palavras do cineasta Luigi Comencini, que faleceu semana passada, aos 91 anos.

Comencini foi um dos mestres da chamada comédia italiana. Em seus filmes se consagraram atores como Alberto Sordi, Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman.

Mas o cinema de Comencini sempre me lembra atrizes belíssimas como Gina Lollobrigida, Silvana Pampanini, Catherine Spaak, Senta Berger, Claudia Cardinale, Laura Antonelli, Stefania Sandrelli, Silvana Mangano, Monica Vitti, Virna Lisi e várias outras.

O cineasta Carlos Reichenbach, um apaixonado pelo cinema italiano como eu, prestou uma bela homenagem em seu blog.

terça-feira, 10 de abril de 2007

outros 300

"Filme: O Rei Leônidas, de Esparta, quer guerrear contra a Pérsia, embora o político espartano Theron prefira uma saída diplomática para o impasse ao qual chegaram as duas nações. Tentando legitimar sua atitude bélica, Leônidas recorre então a uma espécie de Conselho de magos e anciãos, como que pedindo permissão e 'benção' para o ataque. O Conselho rejeita. Leônidas desobedece a todos e parte para a guerra assim mesmo.

Realidade: Bush quer invadir o Iraque. Setores moderados do governo propõem outras saídas. A ONU não permite. Bush invade assim mesmo, desrespeitando abertamente o Conselho de Segurança das Nações Unidas."

"Filme: Em determinado momento da guerra, o povo Árcade, mostrado desde o início do filme como uma nação cheia de boa vontade, mas fraca como guerreiros, abandona Leônidas e o exército Persa à sua própria sorte, quando as coisas começam a ficar mais complicadas.

Realidade: Bush nunca escondeu o seu repúdio contra os países que se uniram ao EUA nos primeiros ataques ao Iraque, e que depois foram reduzindo ou até mesmo zerando seus homens no campo de batalha. O próprio ministro britânico Tony Blair, pressionado pela opinião pública, reduziu seus homens no Iraque, no mesmo momento em que Bush solicitava o envio de mais tropas."

"Filme: Leônidas vai a guerra e deixa com sua esposa, a rainha Gorgo, a missão de fazer com que os políticos espartanos obtenham permissão para o envio de mais soldados, enquanto os famosos “300” seguram as pontas no campo de batalha.

Realidade: Como Bush, em pessoa, não vai ao campo de batalha, ele não precisa delegar essa missão a ninguém, mas o presidente dos EUA solicita repetidamente verbas e mais verbas para dar continuidade à sua guerra. Recentemente, em janeiro, ele pediu mais US$ 100 bilhões para dar prosseguimento à ocupação do Iraque."

Trechos da mais pertinente das críticas que li sobre "300" (300), produção americana dirigida por Zack Snyder, esse filme imbecil, equivocado, que banaliza a violência com argumento de um relato histórico, a batalha de Termópilas, ocorrida na Grécia antiga, mais exatamente em 480 a.C. O roteiro foi diretamente baseado nos quadrinhos, ou graphic novel, de Frank Miller, publicada em 1998.

No Brasil, o filme se destaca pela presença de Rodrigo Santoro no elenco, na pele do rei Xerxes.

Melhor é a produção de 1962, "Os 300 de Esparta" (The 300 spartans), dirigida pelo polonês de nascimento Rudolph Maté, com Richard Egan fazendo o rei Leônidas e David Farrar no papel que coube ao ator brasileiro. Ali os espartanos não estão reproduzidos digitalmente. É mais cinema. É possível encontrar em vhs ou dvd em alguma locadora que se preze.

As "mensagens cifradas" acima são observações do jornalista e crítico Celso Sabadin, no site Planeta Tela. Texto completo aqui.

domingo, 8 de abril de 2007

Calabar: um homem sem rosto

foto Staff Vídeo Produções / Divulgação

No Século XVII, quando o Brasil era Colônia de Portugal - este, por sua vez, sob domínio da Coroa Espanhola -, no nosso território, que também era cobiçado por holandeses e franceses, ocorria o processo de dizimação dos povos indígenas.

É nesse contexto que se passa a polêmica história que envolve Domingos Fernandes Calabar, personagem do documentário de Hermano Figueiredo, que estréia hoje, dia 8, às 23h, pelas emissoras da Rede Pública de Televisão, nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

"Calabar", produção representante de Alagoas na terceira edição do Programa DocTV, é um dos 35 trabalhos selecionados dentre quase nove centenas de projetos inscritos.

Numa narrativa dinâmica, o documentário contrapõe visões sobre Calabar, profundo conhecedor de grande parte dos sertões e da costa do Nordeste brasileiro, que apoiou as forças de ocupação e contribuiu para as conquistas holandesas no Brasil.

A proposta do diretor é não se prender a dicotomia herói-traidor, mas fazer um apanhado do imaginário criado em torno da figura de Calabar. Aborda os diversos discursos, contrapondo opiniões divergentes, analisando a importância destes acontecimentos na história do Brasil, do nordeste e de Alagoas.


Mais informações sobre este e outros trabalhos e projetos comandados pelo dinâmico e incansável Hermano estão na página http://www.ideario.org.br/

quarta-feira, 4 de abril de 2007

a um passo do paraíso

foto Marcos Camargo / Divulgação

"A primeira imagem é a de uma imensa bunda, que toma a tela rebolando e se chacoalhando enquanto sua dona caminha pela rua. Estamos no universo de Lourenço Mutarelli, escritor e quadrinhista adaptado aqui pelo diretor Heitor Dhalia. Estamos no mundo de 'O cheiro do ralo'. E quem não se dispuser a entrar nesse mundo, não terá uma boa experiência. Mas quem topar, sai perturbado. "

Trecho da crítica de Marcelo Miranda na página Digestivo Cultural. Texto completo aqui, com direito a trailer. Quem viu o filme e gostou vai igualmente gostar da análise afiada do Marcelo. Quem não viu o filme, uma dica: entre e sai perturbado. Vale a pena. "O cheiro do ralo" é um filme ímpar.

Em tempo: a estampa do paraíso na foto acima é da atriz Paula Braun.

domingo, 1 de abril de 2007

o céu de Hermila

foto Ed Viggiani/AE

"Sou inibida com teatro. Tenho dificuldades de lidar com a linguagem, feita assim diretamente com o público. Sou uma intérprete de cinema. Isolada no set, me sinto mais à vontade"

Hermila Guedes, atriz com atuação inesquecível no ótimo "O céu de Suely", de Karim Aïnouz. Apesar das dificuldades confessas, a pernambucana nascida em Cabrobó, está em mais de uma peça no Festival de Teatro de Curitiba: "Três viúvas de Arthur" (foto), atração de Recife que integra a mostra oficial, "Angu de Sangue" e "Ópera", na programação paralela.

Dirigida por Kleber Lourenço, a montagem "Viúvas" reune três textos do considerado primeiro comediógrafo brasileiro, Arthur Azevedo (1855 - 1908), "A consulta", "O oráculo" e "Amor por Anexins", onde Hermila atua. As outras duas peças têm direção, respectivamente, de Marcondes Lima e Newton Moreno.

Depois de interpretar Elis Regina no especial da Globo, "Por toda a sua vida", ano passado, Hermila foi convidada para o elenco da próxima novela das oito, seguindo a "trajetória" de atores como Lázaro Ramos, Wagner Moura, e outros que se destacaram em filmes excelentes de pequena produção. Eu sou cismado com televisão, e desejo que Hermila se dê bem e se preserve na chamada pequena telinha.

O bom mesmo é aguardá-la no cinema, em dois filmes que serão lançados em breve, "Baixio das bestas", de Cláudio Assis, e "Deserto feliz", de Paula Caldas, onde se declara isoladamente mais à vontade.