sexta-feira, 28 de setembro de 2007

tantos hermanos

Luciano Supervielle e os músicos do Bajofondo Tango Club. Foto Divulgação

De uns três anos pra cá venho ouvindo uns discos que não me cansam. Pelo contrário, quanto mais ouço mais neles me hospedo. Uma dessas moradas é o cd, aliás, os dois álbuns do grupo franco-argentino Gotan Project, "La revancha del tango" e "Lunatico". Em junho passado eles estiveram aqui em Brasília, e ao ar livre na Concha Acústica, fizeram um show inesquecível para um público imenso e hipnotizado com a mistura do tango com o eletrônico.

Ontem foi a vez do grupo uruguaio Bajofondo Tango Club, encerrando a programação do Mercosul Musical, um bem bolado projeto do cantor e compositor Paulinho Moska, patrocinado pelo Centro Cultural Banco do Brasil. O show, dividido com o excelente músico gaúcho Vitor Ramil, é anunciado com o nome do pianista Luciano Supervielle. Mas é o Bajofondo, pois estão lá no palco o contra-baixista Gabriel Casacuberta, o exímio Martin Ferres no seu bandoneon, e o argentino Javier Luis Casalla vibrando no violino. O Bajofondo, segue a mesma linha do Gotan, assim como o portenho Tanghetto, grupos que estão colocando o tango no século 21 de uma maneira alegre e inovadora.

Supervielle tem 31 anos, e no Bajofondo, além de arranjador, é autor de quase todas as composições. Um DJ que com seus scratches sabe muito bem misturar os estilos dançantes do hip hop e a ancestralidade dramática do tango. Um bom exemplo é faixa "Miles de Pasajeros", do cd "Supervielle.

Sobre o show, é um desses para se ver e rever. O idealizador e mestre de cerimônia Moska, com sua simpatia e voz afinada, abre o show cantando "Elegia", música de Péricles Cavalcanti com letra de Augusto de Campos, que ficou conhecida na interpretação de Caetano Veloso. Mas o grande momento de Moska no palco é a sua versão de "Carlos Gardel", de David Nasser e Herivelto Martins imortalizada na voz de Nelson Gonçalves. E isso com o arranjo de Luciano Supervielle!

foto Ana Ruth

Vitor Ramil é uma das raridades da música brasileira. Sempre lembrado como o irmão da dupla Kleiton & Kledir ("deu pra ti / baixo astral / vou pra Porto Alegre, tchau!"). Mas o cara tá muito mais além dessa relação consaguínea. Não exatamente melhor que os irmãos. É diferente. Seus discos merecem uma melhor divulgação. No começo dos anos 80, Gal Costa em seu lp "Fantasia" gravou a lindíssima "Estrela, estrela". Última faixa do lado B. E estourou nas paradas, como se dizia. E Vitor Ramil começou a aparecer. Contando já são sete bons discos, oito com o lançado neste ano, "Satolep Sambatown", um álbum duo com percussionista (ou pandeirista?) Marcos Suzano, que também está brilhando nesse show mercosul. Ramil é tão bom músico quanto escritor. Vale uma olhada no site dele pra se inteirar das coisas sem haver engano. Livros, textos esparsos, prefácios - a literatura de um músico.

Luciano Supervielle, Vitor Ramil, Paulinho Moska, Marcos Suzano... Jorge Drexler e Arnaldo Antunes, Kevin Johansen e Paula Toller, Pedro Aznar e Celso Fonseca, todos esses que estiveram nas semanas anteriores por aqui, provam a riqueza musical de nossa música latina. Nosotros brasileños nos distanciamos por causa da língua portuguesa, mas a alma é uma só nessa diversidade de ritmos no sul das Américas.

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