quarta-feira, 29 de novembro de 2006

os ganhadores do Candango

Cláudio Assis, diretor de "Baixio das Bestas", que ganhou seis prêmios em Brasília

A brutalidade das cenas de violência e o radicalismo da denúncia social dividiram o público e a crítica presentes na cerimônia de premiação do 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ontem à noite, no Teatro Nacional.
O pernambucano "Baixio das bestas", de Cláudio Assis conquistou o júri oficial de uma mostra pontuada pelo impacto político embutido em imagens chocantes. É o grande vencedor do festival, mas o público presente à Sala Villa-Lobos não ficou satisfeito. Foram ouvidas muitas vaias no anúncio do Candango de melhor filme. “Obrigado pela educação. Briga quem tem coragem”, ironizou o diretor, antes de receber mais vaias. “Júri sem critério!”, gritou um espectador.


Os ganhadores:

Prêmios Oficiais – Troféu Candango

Longa-metragem em 35mm:

Filme, "Baixio das bestas", de Cláudio Assis
Direção, Helvécio Ratton, por "Batismo de sangue"
Ator, Maxwell Nascimento, por "Querô", de Carlos Cortez
Atriz, Mariah Teixeira, por "Baixio das bestas"
Ator coadjuvante, Irandhir Santos, por Baixio das bestas
Atriz coadjuvante, Dira Paes, por "Baixio das bestas"
Roteiro, Carlos Cortez, por "Querô"
Fotografia, Lauro Escorel, por "Batismo de sangue"
Direção de arte, Fred Pinto, por "Querô"
Trilha sonora, Pupillo, do grupo mundo livre, "Baixio das bestas"
Som, Louis Robin, "Querô"
Montagem, Renato Martins e Vladimir Carvalho, por "O engenho de Zé Lins", de Vladimir Carvalho
Prêmio especial do Júri, "O engenho de Zé Lins"


Curta ou média-metragem em 35mm:

Filme, "Trecho", de Clarissa Campolina e Helvécio Martins Jr.
Direção, Anna Azevedo, por "O homem-livro"
Ator, Leonardo Medeiros, por "A vida ao lado", de Gustavo Galvão
Atriz, Bohdana Smyrnova, por "Noite de sexta, manhã de sábado", de Kleber Mendonça Filho
Roteiro, André Carvalheira, por "Dia de folga", de André Carvalheira
Fotografia, Pablo Lobato, por "Trecho", de Clarissa Campolina e Helvécio Martins Jr.
Montagem, por Karen Harley, por "Trecho"

Curta ou média ou longa-metragem em 16mm

Filme, "Terra prometida", de Guilherme Castro
Direção, Filipe Gontijo e Erik Aben-Athar, por "A volta do candango"
Ator, Gê Martu, por "Borralho"
Atriz, Sarah Vasconcelos, "Uma vida e outro"
Roteiro, Santiago Dellape, por "Nada consta"
Fotografia, André Benigno", por "Borralho", de Arturo Sabóia e Paulo Eduardo Barbosa
Montagem, Marcius Barbieri, por "Vestígios", de Pablo Gonçalo


Prêmio Júri Popular
Longa-metragem em 35mm, "Encontro com Milton Santos ou a globalização vista do lado de cá", de Silvio Tendler
Curta-metragem em 35mm, "O homem-Livro", de Anna Azevedo


Outros premiações

Prêmio da Crítica:
longa, "Baixio das bestas"
curta, "Noite de sexta manhã de sábado", de Kleber Mendonça Filho

Prêmio Câmara Legislativa do Distrito Federal:
longa, "O engenho de Zé Lins"
curta em 35mm, "Oficina Perdiz", de Marcelo Diaz
curta em 16mm, "Borralho"


Aquisição Canal Brasil Incentivo ao Curta-metragem:
"Noite de sexta manhã de sábado" e "O homem-livro"

Prêmio Marco Antônio Guimarães (conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira):
"Pixinguinha e a velha guarda do samba"

Prêmio Saruê (equipe do jornal Correio Braziliense):
Thomaz Farkas, pelo filme "Pixinguinha e a velha guarda do samba "

Prêmio Conterrâneos:
"Pixinguinha e a velha guarda do samba"

fonte Correio Braziliense

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Philippe Noiret, ator

Philippe Noiret em "Cinema Paradiso", 1988. Foto Les Films Ariane

Depois da morte do cineasta Robert Altman, no último dia 20, aos 81 anos, mais uma perda no cinema: o ator francês Philippe Noiret, o Alfredo, projecionista de "Cinema Paradiso" (Nuovo Cinema Paradiso), de Giuseppe Tornatore, que nunca saiu da cabeça do menino Totó (Salvatore Cascio), assim como o personagem jamais será esquecido pelo público, pelo sua memorável atuação.
Noiret faleceu ontem, aos 76 anos, de câncer. Deixou legado de impressionantes 125 filmes, entre eles, "O carteiro e o poeta" (Il Postino), de Michael Radford, 1994, no qual deu vida a Pablo Neruda.


Ator predileto do cineasta Bertrand Tavernier, fez com ele pelo menos dois filmes marcantes, pouco vistos no Brasil, "L’horloge de Saint Paul", de 1972, e "Que la fête commence", rodado três anos depois, onde contracena com o também ótimo Jean Rochefort, e no começo dos anos 90, "A vida e nada mais" (La vie et rien d'autre), que lhe valeu o prêmio Cesar (o Oscar francês). Em filmes dos quais não me lembro os títulos, fez par com Catherine Deneuve, Romy Schneider e Simone Signoret. "O velho fuzil" (Le vieux fusil), de Robert Enrico, de 1975, foi outro trabalho que lhe deu o Cesar. Lembrei-me: foi nesse filme que ele contracenou com a bela Romy.


Outro papel inesquecível foi no polêmico "A comilança" (Le grand bouffe), que tratou do suicídio por glutonaria e causou escândalo em Cannes em 1973. Dirigido por Marco Ferreri, o filme é uma fábula de humor negro.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

sob o céu de Iguatu

foto Kirsteen Johnson

Há uma cena em “O céu de Suely” (Brasil, 2006) em que a personagem Hermila (Hermila Guedes) caminha por alguns longos minutos de um ponto a outro, cruzando labirintos de caminhões estacionados ao lado de um posto de gasolina. É noite e os caminhoneiros improvisam comida, bebem, conversam, e olham Hermilia passar. O espectador espera que eles mexam com ela. Hermilia prossegue na sua caminhada até chegar em casa e nada acontece além dessa caminhada. E era essa a intenção, pensada no argumento, prevista no roteiro, destilada na filmagem.


Em outro filme – e já se viu isso – o diretor cortaria essa cena em alguns minutos, segundos, takes, o que fosse, mas cortaria e resumiria desde que ficasse claro que a personagem atravessa um labirinto de caminhões com a possibilidade de ser abordada pelos homens. É uma opção de narrativa. Própria do videoclipe, onde não existe o tempo para pensar nem abertura estreita para a reflexão.
Mas no filme de Karim Aïnouz a opção é pelo tempo da personagem, e o mergulho dentro de si. Essa escolha pelo tempo interior se manifesta no tempo exterior que se vê na tela. O espectador acompanha Hermila, literalmente. E assim é todo o filme “O céu de Suely”, ambientado na pequena e ensolarada Iguatu, no interior cearense.


Karim fez um filme com um olhar de câmera que há muito não se via por aqui. Não é melhor nem menor do que seu primeiro longa, “Madame Satã”, de 2002: é diferente. Não é superior nem inferior a muitas e boas produções nacionais lançadas recentemente: é distinto em sua opção pela simplicidade, profundidade e desprendimento narrativo. O filme chega a ser extremo nessa condução verdadeira e audaciosa. A escolha por usar os nomes dos atores nos personagens, de colocar o elenco em ação no meio dos habitantes da cidade, e de movimentar esses elementos em locações reais (a casa, o bar, a rodoviária) e não em cenários, tudo isso compactua com a verdade que se vê. Ali, tudo conspira a céu aberto a favor do filme.


A fotografia de Walter Carvalho não poderia ser mais adequada, quase estourada, sem retoques. O elenco é de uma coesão surpreendente. São atores com a cara dos figurantes e figurantes com sua vez em primeiro plano. A montagem de Isabela Monteiro de Castro e Tina Baz Le Gal se estende quando o tempo é maior do que o filme, e corta de uma ação para outra quando se ouve essa ação ser chamada. A sutileza do roteiro assinado Karim, Maurício Zacharias e Felipe Bragança é perfeita em vários e vários momentos, como a homossexualidade da tia de Hermilia, Maria (Maria Menezes), que fica descrita e discreta num jeito de olhar, na profissão de motogirl, no presente (um biquini para usar na praia em Fortaleza) à amiga Georgina (Georgina Castro). Mas é deixada de lado com a mesma perfeição na cena de sexo entre João (João Miguel) e Hermila, quando não há cerimônia, e tudo é fome e solidão.


Karim termina o filme tão bem quanto começa e decorre em seus 88 minutos de duração. O ônibus que segue na estrada levando Hermila de volta, a moto de João que acompanha na tentativa de impedir a viagem da moça... e o final de um outro jeito, que se espera ou não se aguarda. O tempo sob o céu de Iguatu não é mais o mesmo sobre os personagens.

domingo, 19 de novembro de 2006

o céu de Karim

Foto Divulgação


"Eu estava muito incomodado com filmes em que o tempo é refém da narrativa, e não das emoções dos personagens."

"Parece até que, no cinema brasileiro, a subjetividade é direito apenas de uma classe privilegiada. Tenho interesse por cinema de subjetividade, feito no Brasil, mas que não seja sobre uma elite."

"É complicado fazer cinema no Brasil, mas não tenho discurso amargo. Tudo na vida é difícil. Faço questão de dizer que cinema me dá imensa alegria, grande prazer."


Do cineasta KARIM AÏNOUZ, em entrevistas pelos jornais do país, durante o lançamento do seu segundo longa-metragem, "O céu de Suely".
Na foto acima dirige a atriz Hermila Guedes.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

o cinema e sua história

Enzo Staiola e Lamberto Maggiorani em "Ladrões de bicicleta" (Ladro di biciclette), de Vittorio De Sica, 1948. Foto acervo Nirton Venancio

Foi lançado recentemente o livro História do Cinema Mundial, organizado por Fernando Mascarello, da Papirus Editora, pela Coleção Campo Imagético. O livro é ótimo. Tem 432 merecidas páginas.
O objetivo é disponibilizar ao leitor uma fonte bibliográfica inovadora, em língua portuguesa, para o estudo da história do cinema mundial. São apresentados 17 momentos-chave da trajetória internacional da sétima arte, com significativo grau de detalhamento, em capítulos específicos – cada qual elaborado por um pesquisador brasileiro especializado no assunto.

Embora preparados por diferentes autores – do que resulta uma intencional pluralidade de olhares –, os textos mantêm uma deliberada uniformidade metodológica. Têm todos, primeiro, um caráter eminentemente didático – ao qual se articula, na maioria dos casos, o viés ensaístico particular de cada autor. Em segundo lugar, por razões de espaço, a análise recai fundamentalmente sobre a história estética, a qual se procurou devidamente contextualizar em termos econômicos, tecnológicos, políticos e socioculturais, para não incorrer em uma ingênua “história dos filmes”.

Por fim, cada capítulo contempla – respeitando as peculiaridades de seu objeto – uma série de elementos fundamentais da cinematografia sob estudo: o já referido contexto histórico-cinematográfico de produção e recepção, as características estilísticas, narrativas e temáticas “definidoras”, os principais filmes e cineastas e o significado do movimento, gênero ou vertente para a história posterior do cinema.

Mais informações na página www.papirus.com.br

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

cinema com nome e sobrenome

Marcelo Gomes. Foto Paloma Varón

Em um debate no Centro Universitário Senac, em São Paulo, o cineasta Marcelo Gomes, autor do ótimo “Cinema, aspirinas e urubus”, arrancou aplausos calorosos.

Depois de exibir trechos de seu filme - que disputa vaga de finalista ao Oscar - ele mostrou-se uma pessoa com um raro senso de humor.

Ao definir o método de trabalho dos atores, saiu-se com o criativo neologismo "sertanislavski" . Algo como "sertão" + "Stanislavski"

Contou, depois, que uma repórter de rádio, em João Pessoa, Paraíba, ainda na fase de filmagem, perguntou a ele:
- Qual é o nome do seu filme?
- "Cinema, aspirinas e urubus"
- Sério?

- Sim!
- Há no elenco algum ator de renome?
- Bem, todos têm nome e sobrenome, já renome...