terça-feira, 21 de novembro de 2006

sob o céu de Iguatu

foto Kirsteen Johnson

Há uma cena em “O céu de Suely” (Brasil, 2006) em que a personagem Hermila (Hermila Guedes) caminha por alguns longos minutos de um ponto a outro, cruzando labirintos de caminhões estacionados ao lado de um posto de gasolina. É noite e os caminhoneiros improvisam comida, bebem, conversam, e olham Hermilia passar. O espectador espera que eles mexam com ela. Hermilia prossegue na sua caminhada até chegar em casa e nada acontece além dessa caminhada. E era essa a intenção, pensada no argumento, prevista no roteiro, destilada na filmagem.


Em outro filme – e já se viu isso – o diretor cortaria essa cena em alguns minutos, segundos, takes, o que fosse, mas cortaria e resumiria desde que ficasse claro que a personagem atravessa um labirinto de caminhões com a possibilidade de ser abordada pelos homens. É uma opção de narrativa. Própria do videoclipe, onde não existe o tempo para pensar nem abertura estreita para a reflexão.
Mas no filme de Karim Aïnouz a opção é pelo tempo da personagem, e o mergulho dentro de si. Essa escolha pelo tempo interior se manifesta no tempo exterior que se vê na tela. O espectador acompanha Hermila, literalmente. E assim é todo o filme “O céu de Suely”, ambientado na pequena e ensolarada Iguatu, no interior cearense.


Karim fez um filme com um olhar de câmera que há muito não se via por aqui. Não é melhor nem menor do que seu primeiro longa, “Madame Satã”, de 2002: é diferente. Não é superior nem inferior a muitas e boas produções nacionais lançadas recentemente: é distinto em sua opção pela simplicidade, profundidade e desprendimento narrativo. O filme chega a ser extremo nessa condução verdadeira e audaciosa. A escolha por usar os nomes dos atores nos personagens, de colocar o elenco em ação no meio dos habitantes da cidade, e de movimentar esses elementos em locações reais (a casa, o bar, a rodoviária) e não em cenários, tudo isso compactua com a verdade que se vê. Ali, tudo conspira a céu aberto a favor do filme.


A fotografia de Walter Carvalho não poderia ser mais adequada, quase estourada, sem retoques. O elenco é de uma coesão surpreendente. São atores com a cara dos figurantes e figurantes com sua vez em primeiro plano. A montagem de Isabela Monteiro de Castro e Tina Baz Le Gal se estende quando o tempo é maior do que o filme, e corta de uma ação para outra quando se ouve essa ação ser chamada. A sutileza do roteiro assinado Karim, Maurício Zacharias e Felipe Bragança é perfeita em vários e vários momentos, como a homossexualidade da tia de Hermilia, Maria (Maria Menezes), que fica descrita e discreta num jeito de olhar, na profissão de motogirl, no presente (um biquini para usar na praia em Fortaleza) à amiga Georgina (Georgina Castro). Mas é deixada de lado com a mesma perfeição na cena de sexo entre João (João Miguel) e Hermila, quando não há cerimônia, e tudo é fome e solidão.


Karim termina o filme tão bem quanto começa e decorre em seus 88 minutos de duração. O ônibus que segue na estrada levando Hermila de volta, a moto de João que acompanha na tentativa de impedir a viagem da moça... e o final de um outro jeito, que se espera ou não se aguarda. O tempo sob o céu de Iguatu não é mais o mesmo sobre os personagens.

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