sexta-feira, 23 de setembro de 2011

o anjo torto de Itapemirim

Quando ele nasceu, um anjo torto, desses que vivem nas sombras disse, “vai, Sérgio, ser gauche na vida”.  Parafraseando os versos do clássico poema de Drummond, que inspirou o nome do projeto “Anjos Tortos – A MPB gauche na vida”, em apresentações no CCBB Brasília, alegro-me em dizer que o show de ontem foi o melhor dos três apresentados. Redimo-me, reparo-me, pois, como suspeitei em postagem anterior aqui, não via muito sentido na escolha do violeiro Eugenio Avelino, o Xangai, para homenagear Sérgio Sampaio, um dos mais geniais e esquecidos compositores da música brasileira. Recuperei-me do desastre que foi o show constrangedor de Jorge Mautner “cantando” Raul Seixas.  E já não tinha me entusiasmado muito com Max de Castro homenageando o pai, Simonal.

Surpreendente o show de Xangai. Com a afinadíssima viola e sozinho no palco, com sua belíssima e singular voz de canário, ele dominou e conquistou a platéia em uma hora e meia de show, cantando algumas músicas suas, muitas do Sérgio Sampaio, e contando “causos”, quando os dois moraram juntos no Rio de Janeiro. O show foi surpreendente porque realmente eu não via alguma relação musical entre os dois. Mas que nada! Tem sim! Tem porque ele com sensibilidade e a amizade que os uniu, adquiriu a essência e significado da música que Sérgio fazia. O canto agreste do baiano soube muito bem incorporar a fúria modernista do capixaba.

Sérgio Sampaio, de certa forma, foi ofuscado pelo próprio sucesso de “Eu quero é botar o meu bloco na rua”, involuntariamente lançada como uma moderna marcha-rancho de carnaval, em 1973, e por outro lado, sem muito interesse da mídia que o via como um magrelo esquisito, largado na vala comum dos malditos.  Suas letras são geniais, sua música vai do chorinho, passa pelo samba e vai ao rock sem perder o tom, bastante avançado naqueles ainda repressivos anos 70. Compôs uma belíssima música, “Meu pobre blues”, especialmente para seu ídolo e conterrâneo Roberto Carlos, que com aquelas esquisitices azuladas dele não deu a mínima. Mas esse blues enviesado foi um sucesso na voz de uma cantora paulista que surgia, gravada em seu primeiro LP, em 1973: Zizi Possi.

Zeca Baleiro, um dos seus admiradores, produziu em 2006, num digníssimo resgaste, o cd “Cru”, com gravações originais de Sérgio, algumas inéditas e precariamente em cassete. E outros compositores da nova geração estão nessa descoberta do tesouro da nossa música.

Assisti a um dos últimos show dele, aqui em Brasília, em 1993,  no bar Feitiço Mineiro. Autografou meu vinilzão e, não sei por que, na hora me deu vontade de cantar pra ele sua própria música “Tem que acontecer”...

Sérgio Sampaio, anos-luz à frente de muitos, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da música brasileira.

Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

Um comentário:

Cris disse...

Lembro desse último show. Uma pérola rara que não teve o reconhecimento que mereceu.
Um vinil autografado, Uau!