sexta-feira, 8 de outubro de 2010

você que me diz a verdade com frases abertas


 foto Roach Studio

A amizade não exclui a sinceridade. Uma define a outra.

Amigo é quando a pessoa passa a existir dentro de você.

Se eu não posso falar dos seus defeitos, amigo, posso desconfiar quando você fala das minhas virtudes.
Se confrontar ideias é sinônimo de belicismo e dizer verdades a um amigo é decretar separação, é necessário repensar as amizades, e não recuar ideias e verdades.

Jean Cocteau dizia que "existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las." Eu achava que tinha conquistado esse direito com um amigo, ou "amigo".

Desde criança, quando comecei a assistir  "O gordo e o magro" não era somente a graça, o humor doce, ingênuo, que me fixava aos dois comediantes. O que igualmente me fascinava era o sentimento de amizade entre eles. Mesmo se eu lesse em alguma revista de cinema que os atores Oliver Hardy e Stan Laurel haviam brigado nos bastidores de filmagem, eu relevava, pois a pureza e a sinceridade na relação de amigos que eles passavam na tela eram maior que a realidade ou fofocas. Mas eu nunca soube de brigas da dupla. Eram amigos inseparáveis. 

Na biografia autorizada "Mr. Laurel and Mr. Hardy: An Affectionate Biography" escrita por John McCabe em 1961, há relatos de extrema sinceridade entre eles, um apontando os defeitos do outro, um dizendo o que achava que o outro precisava mudar. A amizade não se restringia a uma idealização dos personagens.

Quando Oliver (o gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC. Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se recuperou da tristeza. Parou de trabalhar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965.

À parte a consternação nos momentos finais dessa relação, o que é comovente é o carinho, o respeito, a tolerância, o desprendimento de orgulho pessoal que uniam dois amigos. 

Essas reflexões acima, e a lembrança dos simpáticos Hardy e Laurel, vieram-me nestes dias por conta de uma decepção que tive com uma pessoa a quem considerava um grande amigo. Mas agradeço a essa pessoa pelo aprendizado. Continuo com o respeito, admiração pelo seu trabalho e  o caráter virtuoso que ele também tem. Mas amizade não é um sentimento de afeição unilateral. É simétrico.

2 comentários:

Ricardo Augusto disse...

Interessante ver a imagem dessa impagável dupla em seu comentário sobre amizade, Nirton. Lembro que meu pai dizia que a causa da morte de Stan Laurel, algum tempo após a de Oliver Hardy, havia sido de tristeza pela perda do amigo! Eu era menino e ainda não sabia que tristeza matava.

Lila Dourado disse...

Sabe Nirton...só que a dor deles, não vem agregada aos muitos sentimentos,que a nossa comporta!
Só agora vejo teu blog e começarei a caminhar por lá, não somente por crer na simetria, mas porque gostei do terreno, no qual caminhei!
bjs