terça-feira, 19 de outubro de 2010

um filme para não esquecer


"Qual o contrário do amor? O ódio? Muito óbvio. O contrário do amor é a perplexidade. E essa perplexidade só acaba com a volta de quem lhe deixou."

Essa de é uma das falas de "Como esquecer", primeiro longa de ficção de Malu De Martino, um dos mais inteligentes roteiros brasileiros que vi ultimamente, baseado no romance homônimo de Myriam Campello, autora  de outro ótimo livro, "Jogo de damas", lançado recentemente.

Em "Como esquecer", que estreou semana passada, nada sobra, nada falta. É impressionante a concisão narrativa, o ritmo dramático sem apelo, o desenvolvimento da ação sem artifícios, o desfecho em conjunção com o começo.

Ana Paula Arósio numa excelente - e surpreendente - interpretação, imprime elegância e substância à sua personagem Júlia, uma professora de literatura inglesa, que tenta esquecer o amor que se foi sem ao menos dizer adeus, a enigmática Antonia, que o espectador não vê, imagina pelas imagens de um video que as duas fizeram numa viagem a Londres. Há um pouco da literatura de Virginia Woolf na postura da personagem de Arósio. Há um pouco do espírito martirizado dos romances de Emily Brontë, escritora citada ao longo do filme, através de "O morro dos ventos uivantes".

Malu revela-se uma cineasta de extrema sensibilidade ao adentrar na complexidade das relações humanas, a partir do tratamento afetivo  do universo feminino, como pouco se viu no cinema brasileiro. Não é o amor lésbico a bandeira do filme: é o amor como sentimento predisposto ao ser humano, com suas promessas e armadilhas. Não é somente o abandono de uma mulher pela outra: é a condição em que uma pessoa é passível, com seu encanto e desesperança. Não é somente a relação carnal entre seres do mesmo sexo: é a sensualidade que independe de opostos, com sua volúpia e sentidos. Não à toa, a Júlia à deriva com saudades e lembranças diz "o esquecimento só se completa quando passa pelo corpo."

Alegro-me quando assisto a um filme tão bem feito. É o bom cinema, para não esquecer.

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