sexta-feira, 13 de agosto de 2010

a solidão mora ao lado

 foto Lenise Pinheiro
 
Semana passada uns amigos de São Paulo me escreveram indicando a peça "Êxtase" que iniciou temporada no CCBB de Brasília dia 4 e segue até 26 deste mês. Eu iria de qualquer jeito: não somente pelo texto do dramaturgo e cineasta inglês Mike Leigh, escrito em 1979, e inédito no Brasil, como também pela proposta da montagem do diretor Mauro Baptista Vedia e pelo elenco que reune sinônimos de talento dos palcos paulistanos.

A peça é uma tragicomédia sobre o cotidiano de trabalhadores imigrantes britânicos ambientado nos final dos anos 70. Quatro amigos encontram-se e conversam sobre intimativa do passado, a afirmativa do presente e nenhuma estimativa de futuro, fumando sem parar, entupindo-se de cerveja, gim e Elvis Presley nas veias, com um pouco de tablete platinado de Dolly Parton pra edulcorar.

A grande sacada da direção é a narrativa hiperrealista, incorporando no palco a linguagem cinematográfica, com cortes e pausas que delineiam com exatidão o intimismo e simultaneidade cênica.  A platéia sente os poros dos personagens, a pulsação dos silêncios que pontuam diversos momentos. Não há como não deixar de ser voyeur naquela situação, naquele espaço e solidário naquela angústia. A intimidade é latente, nunca incômoda, até mesmo quando nos joga na cara o cretino que existe dentro de nós. O que é engraçado vem com a reflexão. O riso não é gratuito. Os personagens  são indisfarçavelmente impregnados de solidão, esse bicho extremo a que estamos sempre vulneráveis. São quatro amigos de longa data, distintos em seus sofrimentos, contaminados por uma indisposição afetiva, e ameaçados por um nada heideggeriano. Mas se tornam próximos quando buscam uma saída, quando tentam uma solução para o que lhes devasta. Impossível não nos identificávamos com um pedaço de cada um deles, por admiração ou rejeição. Não gostamos de ver no outro aquilo que não aceitamos em nós.

Mauro Baptista Vedia com a intuição que sempre caracteriza e conduz a habilidade dos latentosos, soube escolher o elenco para literalmente encarnar seus personagens. Cada um tem sua composição e brilho muito particular: Amanda Lyra com a estritente, coreográfica  e espirituosa Di; Mário Bortolotto num papel acertadíssimo com seu jeito de beatinik falastrão para o espaçoso Mick;  Eduardo Estrela a própria imagem do britânico contido em Leo, num  visual pré-nerd com seus cabelos escorridos na testa e óculos de grau; as participações rápidas e precisas de Francisco Eldo Mendes e Fernanda Catani, vivendo, respectivamente, Leo, o amante circunstancial,  e Val, a esposa barraqueira quebra-cama...  e ouso cometer aqui a indelicadeza ao restante do elenco para destacar a interpretação de  Erika Puga, que abre, se dilacera em câmera lenta e fecha a peça com sua personagem Jane. A cada gesto, a cada pausa, e até mesmo quando ela canta, vê-se seus sonhos em pedaços no chão. O cenário dessa comédia de incidentes e desenlaces, às vezes minimalista, às vezes compulsiva, é o quitinete onde Jane mora, ou encontra-se consigo, como um oratório às avessas a espalhar e expiar sua solidão. Não à toa, no final, ela explode em choro nos braços do amigo, expondo os fragmentos de sua vida.
Assim como conhecer a personagem Jane na pele da atuação magistral de Erika Puga, fica dificil imaginar outra montagem com outros atores. 

Não se sai incólume de "Êxtase". Ainda bem.

Um comentário:

Adeilton Lima disse...

Excelente análise, Nirton! Abraço!