terça-feira, 24 de agosto de 2010

o diretor e a cabeça a prêmio

 

"Estou passando por um momento terrível, uma semana muito angustiante. Não sei onde meu filme vai ser exibido, não sei se ele vai conseguir chegar ao público, não sei se vai ser abandonado no primeiro fim de semana. É muito triste.

O desabafo é do ator, e agora diretor, Marco Ricca, durante o lançamento do seu primeiro filme, o ótimo "Cabeça a prêmio", baseado no livro homônimo de Marçal Aquino.

Assisti ao filme acompanhado de minha doce cara metade, num shopping em Brasília. Quando entramos, o funcionário que pegou os ingressos avisou pelo rádio ao projecionista "entraram duas pessoas". E para nós, com "exclusividade", o filme foi exibido. Curiosamente, passaram dois trailers de filmes nacionais, "Tropa de Elite 2" e "Nosso Lar", que com certeza não terão sessões apenas para duas cabeças a prêmio: o violento e realista que dá sequência a uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro,  e o outro que dá continuidade a uma linha de produções de temática espírita, iniciada com "Bezerra de Menezes".

Assistir a um filme com a sala vazia, dá uma certo "conforto" de não ser incomodado pelo cara do lado que não desliga o celular, ou pelo casal que conversa como se estivesse vendo novela. Mas é um conforto que não me agrada, ao contrário, entristece. Principalmente quando é um filme brasileiro. Assim como o diretor do filme, gosto de ver a sala cheia, todos de olho na tela. Marco Ricca, que já filmou aqui com João Batista de Andrade, e tem uma ligação afetiva com a cidade, diz que seu filme "lembra muito a luz de Brasília, é amarelada, tem a imensidão do céu, a terra vermelha, a poeira", e acha que "o filme vai pegar em Brasília". Não sei como está sendo a bilheteria nas outras cinco salas onde "Cabeça" foi lançado na sexta-feira passada. Torço para que os espectadores se multipliquem e o filme pegue como o cineasta deseja e o bom cinema merece.

 fotos Ricca Produções

"Cabeça a prêmio" tem uma narrativa seca, precisa, quase minimalista, o que foi um desafio para um diretor estreante, pois a história de certa forma requer ação, um determinado suspense. É um triller com traição, assassinatos, fugas, ambientado numa paisagem desértica, entre o pantanal e o cerrado, entre cidades pequenas e fronteiriças, entre bons nos lugares errados e maus em lugares piores. A trama se desenvolve em três núcleos, tendo como ponto centralizador uma família de poderosos percuaristas metida com negócios ilicítos. A dissolução dessa estrutura "próspera" começa com o envolvimento da filha  do patriarca com o piloto de avião que lhe presta serviços perigosos. Uma dupla de matadores personifica o conflito e a violência. O grande mérito do roteiro e direção segura de Marco Ricca é a narrativa concentrada em planos cuidadosamente elaborados, em câmeras paradas e enquadramentos que incorporam o mundo interior dos personagens, e consequentemente a reflexão do drama em que estão envolvidos. Não há movimento histérico de câmeras na mão, e sim o desenho preciso do deslocamento que acompanha os personagens dentro de uma ação que eles constroem. A narrativa é seca na composição, mas grandiosa na observação, simétrica na relação ação-personagem.

O livro de Marçal Aquino, lançado em 2003, é muito mais complexo, com muito mais dramas, personagens e entrelaçamentos. A adaptação para o cinema foi corajosa e perfeita em saber condensar em menos de duas horas angústias e tragédias interiores. É inevitável a lembrança de Beto Brant de "Matadores" e "O invasor", este protagonizado por Ricca, e também extraídos da literatura policial de Aquino.  Apenas lembrança: o diretor colocou em "Cabeça a prêmio" sua marca, sua maneira particular de contar uma história. E escolheu o elenco adequado para cada papel: Alice Braga, Fulvio Stefanini, o uruguaio Daniel Hendler, Otávio Muller, Cassiano Gabus Mendes, Via Negromonte, Ana Braga, e até mesmo Eduardo Moscovis, que se esforça para demonstar o assassino silencioso e atormentado.

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