sábado, 15 de março de 2008

o delírio do rei

caricatura Fraga

Recentemente o Jornal do Brasil publicou um excelente artigo escrito pelo cientista político Carlos Sávio Teixeira. O texto analisa os livros "Roberto Carlos em detalhes", de Paulo César de Araújo, e "Deus, um delírio", de Richard Dawkins. Como todos sabemos e muitos parecem ignorar o fato absurdo, o "rei da juventude" conseguiu ano passado, através de uma ação judicial movida contra o escritor, retirar a biografia das livrarias e levar os quase 12 mil exemplares para um galpão na cidade de Santo André, São Paulo, ameaçando tocar fogo, mandando tudo pro inferno, porque ele é uma brasa, mora!

Em pleno século 21 digitalizado há coisas medievais analógicas como essa. O ridículo é essa nossa sociedade conivente, recolhida em seus escaninhos dos apartamentos, caladinha diante do gesto do "rei", comprando seus discos-mais-dos-mesmos, aplaudindo o especial-peru-de-fim-de-ano da Globo. Não, não sou um rancoroso, meus caros meia dúzia de leitores: sou um fã decepcionado, longe das cercas embandeiras que separam quintais, que preferiu ficar ao lado do bom senso e da liberdade de expressão. Em dezembro passado, quando completou um ano do lançamento do livro de Paulo César de Araújo, escrevi nesta página o meu lamento sertanejo sobre a proibição da obra.

Coincidência ou não, o texto abaixo foi publicado um dia antes de Roberto Carlos Braga dar entrevista coletiva a bordo do cruzeiro, como faz anualmente no show em alto mar, vestido de marinheiro, como nos tempos de desvelos de Lady Laura, em seu pequeno Cachoeiro do Itapemirim. O "rei" vive "num clip sem nexo /um pierrot retrocesso /meio bossa nova e rock'n roll."

Roberto Carlos, um delírio

Há hoje no Brasil um fato intrigante e inusitado: um livro que anarquiza Deus está liberado e à disposição do público nas livrarias, enquanto um outro livro, que analisa de forma elogiosa a carreira de Roberto Carlos, vai para a fogueira – como no tempo da inquisição. Estou falando de "Deus, um delírio", do biólogo Richard Dawkins, e de "Roberto Carlos em detalhes", do historiador Paulo Cesar de Araújo. Lançados no ano passado, ambos provocaram polêmicas, tornaram-se best-sellers, aparecendo entre os dez títulos de não-ficção mais vendidos em 2007.

A biografia do rei foi abatida em pleno vôo e, além de proibida, onze mil exemplares foram entregues ao cantor para serem destruídos. O intrigante é que se há alguém que poderia ter reclamado que a sua honra, boa fama e respeitabilidade foram atacadas em um livro, este alguém é Deus, não Roberto Carlos.

Como o próprio título indica, "Deus, um delírio" é um livro contra o Senhor. Justificando com passagens da própria Bíblia, Richard Dawkins descreve Deus como um personagem negativo. "Ciumento, e com orgulho; controlador, mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico evingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo". Desde Nietzsche Deus não era atacado com tanta veemência e impiedade.

Com tudo isso, entretanto, nem o Vaticano, nem o Papa, nem os demais líderes religiosos – judaicos ou cristãos - pediram a proibição do livro. Parece que há hoje, na sociedade ocidental, a compreensão de que Deus, existindo ou não, é uma figura pública, sujeita a críticas equestionamentos e cuja história pertence à coletividade.

Este mesmo entendimento levou Paulo Cesar de Araújo a pesquisar a vida, a obra e a época do artista Roberto Carlos. O resultado foi um extraordinário livro sobre o Brasil contemporâneo, observado pela trajetória de um dos seus maiores ídolos. O curioso é que, ao contrário dolivro sobre Deus, neste o autor revela admiração e carinho pelo biografado. Eu próprio decidi comprar vários cds do cantor após a leitura do livro, que me convenceu da sua importância para a história da MPB.

Entretanto, mais realista do que o próprio Deus, o rei não tolerou a existência do livro e, sem ao menos ter lido, pediu a sua proibição. O pior é que os métodos usados não foram os mais recomendáveis. Recentemente a imprensa denunciou que os advogados do cantor adulteraram trechos dolivro no processo enviado à Justiça. Uma prática antiética e anticristã, principalmente para um artista que, em certa fase de sua carreira, ficou conhecido por louvar Deus, Jesus Cristo e Nossa Senhora.

O cantor alega que pediu a proibição porque o livro não foi autorizado e não preservou a sua intimidade. A rigor, se ninguém pudesse contar a história do outro, a Bíblia jamais teria sido possível. Mateus, Marcos, Lucas e João, por exemplo, não teriam escritos os Evangelhos, pois nãoconsta que Cristo tenha lhes dado autorização. A história de Jesus Cristo é talvez a maior biografia não autorizada até hoje já escrita. E os evangelistas não evitaram temas espinhosos, como a acusação de que Jesus era "comilão e beberrão".

Roberto Carlos é um ídolo popular cuja privacidade é mais restrita do que a do cidadão comum. Mas parece que entre as passagens do livro que o incomodaram está o relato de um encontro amoroso que ele teve com a cantora Maysa nos anos 60 – caso já fartamente conhecido e que também é citado na recente biografia da artista, "Só numa multidão de amores", obra autorizada por sua família. Como bem disse Carlos Heitor Cony, a prevalecer o critério da absoluta privacidade reclamada por Roberto Carlos "se houver um descendente de Antônio Conselheiro ainda em atividade, ele poderá pedir que se recolham todos os exemplares de Os Sertões".

Será o nosso rei mais intocável do que Deus? Terá ele mais mistérios a serem preservados? Em outros tempos, o livro "Deus, um delírio" teria também como destino a fogueira. Felizmente, a história avançou e o direito à liberdade de expressão prevalece nos países democráticos. Pena que o cidadão Roberto Carlos pense como alguém da época medieval e tenha manchado a imagem do artista que foi tão brilhantemente retratado na biografia proibida. A Roberto Carlos faltou grandeza para compreender a sua própria grandeza. Que o bom Deus o perdoe e o ilumine.

Carlos Sávio Teixeira, Jornal do Brasil, 23/2/2008

2 comentários:

André Renato disse...

É uma situação muito triste mesmo!...

Anônimo disse...

Excelente artículo, no necesita mayores comentarios.