sábado, 1 de dezembro de 2007

detalhes de uma biografia

foto Divulgação

Um amigo de Curitiba me lembra por e-mail que hoje, 1º de dezembro, completa exatamente um ano do lançamento do livro "Roberto Carlos em detalhes" , de Paulo Cesar de Araújo (foto). E, por coincidência, exatamente hoje o cantor grava seu especial de televisão – numa inconsciente comemoração.

Ao longo desses doze meses muito se falou sobre esse livro que se transformou em um dos mais polêmicos da história do Brasil. Alguns artistas e colunistas comentaram a obra, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Coelho, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, Elio Gaspari e Nelson Motta, todos defendendo o livro, indignados com a proibição imposta pelo biografado, o que dá a dimensão do absurdo do caso. Até mesmo o jurista Saulo Ramos, que foi advogado do Rei, definiu o trabalho de Paulo César, em recente entrevista, como uma "biografia perfeita".

Sempre fui admirador de Roberto Carlos, e creio que não existe na música popular brasileira um nome mais significativo, que tenha atravessado quarenta anos fiel a si e a seu público.

O livro de Paulo César de Araújo é uma obra-prima. Sou um leitor compulsivo de biografias. E de todas que li essa foi a mais completa, comovente e de incontestável qualidade literária. Apesar de ser uma biografia não autorizada, não há uma linha sequer que vulgarize fatos, calunie ou atinja a honra do personagem. Foram 15 anos de pesquisa, trabalho e paixão. Divididos em essenciais capítulos, o livro faz entender toda a complexidade do homem simples que se tornou o maior ídolo do país. E exatamente pelo valor da abordagem, "Roberto Carlos em detalhes" é um livro que passa pela história da música brasileira: o rádio, a bossa-nova, o rock, a televisão, e todos os nomes importantes que se entrelaçam nesses gêneros e ciclos.

Mas o Rei emburrou, literalmente. Embruteceu, empacou, amuou-se. Decaiu, retrocedeu, recrudesceu. Equivocado e mal assessorado, moveu ação judicial contra o escritor. Ganhou a causa, e em abril passado a justiça mandou tirar o livro de circulação. Foi estampada nos jornais uma foto de um caminhão recolhendo as caixas com os exemplares que estavam no estoque na Editora Planeta. A cena é repulsiva. O caminhão seguiu para um depósito na cidade de Santo André, São Paulo. Dizem que o Rei mandou queimar os 11 mil exemplares. Ou numa solução mais "leve", reciclados em toneladas de papel. Uma coisa ou outra, procuro agora um adjetivo maior que "repulsivo", que escrevi acima. É uma contradição para quem ao longo da carreira cantou o amor, a paz e a tolerância. Apesar de toda a repercussão negativa do episódio, o livro é um best-seller, e virou raridade. Graças à internet, está disponível em download em alguns blogues indignados. Isso o Rei não conseguiu impedir com sua atitude inquisitória.

Paulo César Araújo disse que apesar do ocorrido não nutre ressentimentos pelo cantor, e crê que a questão passa pela legislação brasileira. Tudo bem, é muito nobre de sua parte, caro Paulo César, mas desde a sentença que não consigo escutar Roberto Carlos. Fico com o livro.

7 comentários:

Carlos Reichenbach disse...

Caro Nirton,
concordo com cada palavra de seu post. O livro é uma pequena obra-prima, o inventário precioso de uma geração e um autêntico tributo amoroso que, sinceramente, o rei não fez por merecer....

Vebis Jr disse...

Sabe o que piro no Robertão?

Foi o verdadeiro MOD que o brasil tinha....musiquinhas incriveis de riffs grudentos (no bom sentido) e vestia terninhos apertados...

Só faltava ter uma motovespa com o adesivo do The Who!

Nirton Venancio disse...

Carlão, o que acho grave nesse episódio é o silêncio conivente de uma sociedade súdita, submetida à vontade e às vestes do Rei, poupando-o quando deveria criticá-lo. É essa nossa maldita herança colonial. Basta ver mais um especial da Globo, com todos aqueles convivados babando, como se nada tivesse acontecido. Absurdo!

Vebis, apesar da minha indignação, o cara teve o seu valor. Mas hoje ele vive "num clip sem nexo /
um pierrot retrocesso /
meio bossa nova e rock'n roll."

Maísa disse...

Não li o livro, Nirton, infelizmente. Independente disso, concordo com a sua crítica aos calados.
No mais, tÔ aguardando o filme, feliz pela sua presença.
Abraços :)

Nirton Venancio disse...

Feliz também pela sua presença por aqui, Maísa!
Se quiser o livro, lhe empresto.

Paulo Cesar de Araújo disse...

Caro Nirton, muito obrigado pela lembrança. Seu texto está perfeito e vai para o meu arquivo de solidariedade.
Um grande abraço,
Paulo Cesar

Nirton Venancio disse...

Seu livro será sempre lembrado, caro Paulo César.