sexta-feira, 30 de novembro de 2007

o brilho de uma atriz


Numa cena de "Chega de saudade", longa de Lais Bodanzky exibido no 40º Festival de Brasília, o personagem de Leonardo Villar lembra de sua falecida esposa, ainda presente em sua vida. A cena é rápida, a imagem da mulher aparece em primeiríssimo plano, tonalidade escurecida, e suficientemente forte, marcante. Lembrei-me de algum filme de Ingmar Bergman, pelo clima e dramaticidade da aparição da personagem.

O comovente para mim foi rever a atriz Selma Egrei no papel da falecida. Devo ter assistido a quase todos os seus filmes. E uma imagem sua que sempre me vem à cabeça é a do cartaz acima, de "O desejo", dirigido por Walter Hugo Khouri, que não à toa era chamado de "Bergman dos trópicos", pelos seus temas introspectivos e dissecador dos conflitos humanos. Nesse filme de 1975, o marido quarentão (Fernando Amaral) morre e sua mulher (Lilian Lemertz, outra grande atriz) e uma amiga (Selma) relembram-se do personagem. Tudo se passa na densidade de um apartamento, com todas as angústias a que elas se acham com o direito.

A atriz paulistana trabalhou com os mais variados diretores do cinema brasileiro na década de 70, principalmente no período da chamada pornochanchada. Belíssima, de rosto enigmático, Selma viveu seus personagens com a força determinante de uma grande intérprete.

Nos últimos dez anos ela tem se dedicado muito ao teatro. Antes de começar no cinema, se não me engano em "Cordélia, Cordélia", de Rodolfo Nanni, em 1971, e nesse mesmo ano, "Paraíso perdido", de Carlos Reichenbach, formou-se na Escola de Arte Dramática de São Paulo.


No começo deste ano atuou de forma brilhante na peça "O relato íntimo de Madame Shakespeare" (foto, contracenando com Maria Manoela), um belo texto de Robert Nye, adaptado e dirigido por Emilio De Biasi. Só li elogios à atuação de Selma Egrei, que entrou na produção substituindo Norma Bengell.

Vi agora na ficha de "O signo da cidade", novo filme digirido por Carlos Alberto Riccelli, o nome de Selma Egrei no elenco. Deve ser um trabalho depois de "Chega de saudade", e espero com um papel maior. Mas se for uma rápida aparição também será ótimo vê-la mais uma vez, afinal estrelas têm pontas.

O filme do Riccelli será apresentado no 9º Festival Internacional de Cinema de Brasília, que começa hoje.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

na contradança da premiação

Maria Flor e Stepan Nercessian em "Chega de saudade", de Lais Bordanzky. Foto Beatriz Lefévre

Uma das características dos filmes do cineasta italiano Damiano Damiani, principalmente os da década de 60, são os finais surpreendentes e desconcertantes. Até fiz essa referência ao belo filme de Carlos Reichenbach, "Falsa loura", que concorreu no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Agora aplico essa comparação, de forma adversa, ao resultado do Festival de Brasília. Que premiação mais surpreendente e desconcertante, para não dizer decepcionante, principalmente na categoria de longa-metragem!

Premiar "Cleópatra", de Júlio Bressane, com seis candangos, entre eles, o de melhor filme, é subestimar demais filmes impactantes como "Falsa loura" e "Chega de saudade", de Lais Bodanzky, que pelo menos recebeu melhor direção, roteiro e júri popular. Mas ter que engolir Alessandra Negrini como melhor atriz desse festival, quando todo o elenco feminino (Beth Farias, Maria Flor, Conceição Senna, Cássia Kiss, Tônia Carrero, Marly Marley, Miriam Mehler, Clarisse Abujamra) do filme da Lais merecia o prêmio! Ou até mesmo as atrizes que de maneira coesa e apaixonante fazem as operárias em "Falsa loura". Djin Sganzerla foi justamente gratificada com a estatueta de atriz coadjuvante por sua brilhante atuação no filme do Carlão. Mas foi a única premiação! E outras categorias relevantes que estão lá no filme, como a fotografia de Jacob Solitrenik? De novo Walter Carvalho, premiado agora com "Cleópatra"! Antes fosse por "Chega de saudade", pelo qual também concorria.

Um dos atores mais injustiçados nessa esdrúxula premiação foi Stepan Nercessian, que juntamente com o veterano Leonardo Villar mereciam ser reconhecidos nas categorias de melhor ator. O filme de Lais Bodanzky tem um grande elenco, não há um personagem principal, todos têm atuações marcantes com seus papéis. Seria o caso de premiar coletivamente as categorias ator e atriz. Mas o júri é soberano, como se diz, e achou que Eucir de Souza e Milhen Cortaz se destacaram mais no filme de José Eduardo Belmonte, "Meu mundo em perigo", respectivamente como melhor ator e coadjuvante.

A direção de arte, o som e a trilha sonora dos filmes do Carlão e da Lais Bodanzky são bem melhores do que os de "Cleópatra", que ganhou nas três categorias.

A montagem de Paulo Sacramento em "Chega de saudade" foi outra injustiça. Não se compara ao trabalho técnico de Ricardo Miranda no documentário "Anabasys", de Paloma Rocha e Joel Pizzini. Sacramento editou com perfeição um filme difícil pelo grande número de músicas e personagens que se entrelaçam.

Nos filmes de curtas-metragens pelo menos reconheceram a qualidade de "Trópico das cabras", de Fernando Coimbra, que recebeu os Candangos de melhor filme, melhor atriz (Larissa Salgado) e fotografia (Lula Carvalho). Não seria demais ganhar ainda em roteiro e direção, que foram para os pernambucanos Camilo Cavalcanti, por "O presidente dos Estados Unidos", e o Leonardo Lacca, que dirigiu "Décimo segundo".

Numa das falas de Júlio César, na pele de Miguel Falabella no filme de Bressane, ele diz que "uma coisa é ser amado, outra é ser o amado". Se o júri escolheu "Cleópatra" como o amado por eles nessa 40ª edição do Festival de Brasília, vamos respeitar, o que não significa concordar. Pelo menos o público presente ontem na Sala Villa-Lobos que vaiou longa e duramente o anúncio da premiação final não concorda.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

idéias curtas


Não faço a menor ideía de qual será o resultado hoje do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Parafraseando os comentaristas de futebol, cabeça de júri é uma caixinha de surpresa.

Desde que acompanho o festival brasiliense esta foi a pior safra em filmes curtas-metragens 35mm. Os rodados em 16mm há muito tempo deixei de assisti-los, não somente pelo horário em que são apresentados, deslocados do cine Brasília e com sessões vespertinas, quanto pela qualidade artística dos trabalhos igualmente deslocada. Aliás, por que ainda se filma em 16mm?! Ou se faz logo em digital ou em 35. Uma opção estética?

Voltando aos curtas deste certame. Lamentável a escolha do júri de seleção, quando se sabe de tantos outros filmes que ficaram de fora, e comprovadamente melhores, como bem atesta a Mostra Brasília, programação do festival onde são apresentados os filmes inscritos, curtas e longas, que ficaram de fora da competição, e acontece sempre nas tardes de sábado e domingo. Concorrem apenas ao Prêmio da Câmara Legislativa. Curtas como “Dia de visita”, de André Luiz da Cunha, “Dona Custódia”, de Adriana Vasconcelos, e "Cinema engenho", de Dácia Ibiapina, são de longe bem melhores dos que esses filmes da mostra oficial.

Na quinta-feira vaiaram um filme de Pernambuco, “Décimo segundo”, dirigido por Leonardo Lacca. Tudo bem, o filme aparentemente tem um fiapo de roteiro, e numa leitura apressada vem do nada e segue para lugar nenhum, mas não é nada disso, e há na gênese desse trabalho uma linguagem de cinema, um plano-seqüência muito bem definido, com silêncios muito bem construídos, e a presença do sempre ótimo Irandhir Santos, ator que ganhou o prêmio de co-adjuvante ano passado com “Baixio das bestas”, de Cláudio Assis, fez no início deste ano o Quaderna na minissérie “Pedra do reino”, de Luiz Fernando Carvalho. Irandhir tem presença marcante noutro filme, o quase bom “Amigos de risco”, de Daniel Bandeira, longa que abriu o festival.

Outro curta que foi recebido com frieza foi “Um ridículo em Amsterdã”, produção paulista, de Diego Gozze, um exercício de metalinguagem. A proposta é interessante, há momentos em que o diretor consegue confundir a platéia apresentando um falso documentário dentro do filme, o ator principal convence. E mesmo apontando uma e outra falhas, "Amsterdã" e "Décimo" ainda são melhores do que o irregular documentário “Tarabatara”, da paulista Júlia Zakia, sobre um acampamento de ciganos no sertão de Alagoas, ou o pretencioso “Enciclopédia do inusitado e do irracional”, (DF), de Cibele Amaral. Ou a demonstração inequívoca de não-cinema, "Eu personagem", (DF), de Zepedro Gollo, exibido ontem.

Um curta do festival que merece atenção é “Trópico das cabras”, do cineasta paulista Fernando Coimbra. Ali, sim, há um diálogo profundo com o cinema. Ali o cinema acontece. Ali tem um diretor por trás da câmera. Planos belíssimos, com um silêncio dos filmes de Antonioni. A imagem fala no enquadramento preciso, no desfoque terminante, na ausência de falas. Um roteiro simples e sincero para um tema ousado, com a magnitude do cinema na sua raiz. E uma atriz de estranha beleza, que tem um rosto de personagem grega que se imprime nas retinas até dos menos atentos, a brasiliense Larissa Salgado. A fotografia tátil de Lula Carvalho é outro destaque nessa obra-prima em curta-metragem.

Então, vejamos hoje à noite o que o júri pensa sobre cinema.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

quando a vida não imita a arte

André Luiz da Cunha, nas filmagens de "Dia de visita". Foto Start Filmes

Parecia tudo certo para o grande dia. A dona-de-casa Sônia de Sousa Faustino, 56 anos, tinha comprado o vestido para ir ao Cine Brasília ontem à tarde. Iria conferir a estréia do documentário "Dia de visita", que reconta em 25 minutos os últimos 15 anos de sua vida, dedicados a atender e evangelizar os presos da penitenciária Papuda. Mas Sônia nem chegou a estrear o vestido. Na tarde de sábado, foi atropelada e morta na calçada de sua casa, em Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal.

O mais grave no caso é que não foi um acidente. Welerson Sousa, condenado por homicídios e roubos e em regime de condicional, também morador de Ceilândia, atropelou Sônia, quando na verdade tinha intenção de matar o filho dela, Pedro, que lhe devia uns meses de aluguel da casa onde morava com a mãe.

Dirigido pelo cineasta brasiliense André Luis da Cunha o documentário conta a história de Sônia e sua dedicação aos presos. Ela começou a trabalhar como voluntária na penitenciária Papuda em 1992, quando o filho Pedro foi condenado a 12 anos por participar de um latrocínio. Sônia começou a visitar, além do filho, outros presos. Passou a ser uma mãe para todos.

Ontem o público que acompanha o 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chegou cedo e formou grandes filas no cine, onde as pessoas disputavam espaço no chão. A Mostra Brasília acontece todos os anos, aos sábados e domingos à tarde. Filmes da cidade que não são selecionados para a mostra competitiva integram a programação.

Ao apresentar o seu filme, André, muito triste e com voz embargada, anunciou que o documentário, um pouco longo, não poderia ser menor, por tratar de uma pessoa grandiosa.

fonte Correio Braziliense

sábado, 24 de novembro de 2007

olhos livres

foto Dezenove Som e Imagem

Carlos Reichenbach está redescobrindo o cinema. Viva a internet! Viva o cinema livre, que ele baixa em seu computador! Um trabalho de prospecção, atrás de pepitas esquecidas pelo cinemão comercial, relegadas ao culto de pequenos grupos. “Minha visão de cinema, aos 62 anos, mudou.” O popular Carlão é filho e neto de editores. Sempre teve livros ao alcance da mão. Assim forjou sua cultura. Alimentou-se de ideário anarquista na juventude, pensadores como o revolucionário Sergei Nechaiev. “A noção de propriedade é nefasta”, discursa. “Propriedade autoral, então, não existe. Uma vez que um filme ou obra de arte foi mostrado ao público, é público. Não há por que impedir o acesso de filmes pela internet, filmes que já esgotaram sua vida comercial.”

Enquanto Reichenbach conversa na sala, seu computador fica ligado, baixando "Hienas", filme do senegalês Djibril Diop Mambéty. Está redescobrindo o cinema, em particular o africano e o italiano dos anos 1960, 1970. Encontra-se mergulhado na cinematografia de Damiano Damiani, autor de "Só resta esquecer" e "Confissões de um comissário de polícia ao procurador geral da república" (ambos de 1971). “Ele foi o cineasta dos finais desconcertantes. Qualquer pessoa incomodada com o poder, naquele tempo de regime militar, saía do cinema com a cabeça modificada. Era dinamite pura”, atesta, brilhando os olhos de subversão. “E cadê esse cinema hoje?”, provoca.

Cadê, Carlão? Não está no chamado “cinema de arte”, que chega chancelado pelos principais festivais europeus. Autores como Wong Kar-Wai, Michael Haneke e Lars Von Trier são dispensados num aceno de mão. “Isso é perfumaria, cinema de fetiche.” Está mais interessado nos filmes pequenos, no cinema de gênero e na tevê norte-americana, onde vê espaço para roteiros e idéias livres.


Trecho de uma ótima entrevista que o ótimo jornalista Bernardo Scartezini fez com o grande cineasta Carlos Reichenbach, no Correio Braziliense de hoje. Sou empolgado com esses dois caras. O primeiro escreve de uma maneira como pouco se vê no jornalismo brasileiro, tem um texto criativo, foge da mesmice que predomina nas páginas dos cadernos de culturas. O segundo é um poeta da imagem, um dissecador da alma, o mais sensível dos diretores de cinema no Brasil, além de um conhecedor profundo da cinematografia mundial, em particular um admirador do neo-realismo italiano - o que me faz ficar mais empolgado com o Carlão. Conversar com ele sobre cinema é tão prazeroso quando assistir aos seus filmes. Carlão é uma dessas pessoas que nos faz acreditar que a humanidade tem jeito.

Seu novo filme, "Falsa loura", concorre hoje no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

intuito da curiosidade

foto Divulgação

"Minha curiosidade é ver os filmes em competição. Não me sinto em posição diferente ou melhor em relação a ninguém. São pessoas empenhadas em fazer cinema. Conheço o perfil dessas produções, já que todas carregam a marca de seus realizadores. Vou com o intuito da curiosidade."

Do cineasta Júlio Bressane, que apresenta hoje no 40º Festival de Brasília o seu novo filme, "Cleópatra", uma curiosa versão sobre a rainha grega do Egito. No papel principal, Alessandra Negrini. Em se tratando de Bressane, com seu cinema autoral, não haverá concessão da parte dele, nem unanimidade da platéia.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

o momento de um filme

foto Divulgação

“Cada momento de um filme tem de ser o mais verdadeiro e autêntico do mundo. O momento vai acontecendo, você não o constrói. Falo aqui contigo e não sei o que vai acontecer, vai acontecendo, às vezes titubeio, às vezes não sei o que estou falando, às vezes dá um branco... A vida é um pouco assim. E é esse fluxo que dá humanidade ao filme. Se você está no fluxo, se está dentro da essência, nada vai estar errado. Pode estar chovendo ou não, o ator pode estar com vontade de rir ou não, porque não importa, a essência da cena estará preservada. É isso que vai dar a dinâmica, a naturalidade. É um risco. Às vezes, não dá certo. Mas é maravilhoso quando dá certo.”

José Eduardo Belmonte, cineasta brasiliense que está na mostra competitiva do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Seu terceiro longa-metragem, "Meu mundo em perigo" será exibido hoje.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

alma das cores

"Voe", acrílico sobre tela

O artista plástico cearense Dim está com um novo site. Simples, bonito e prático, a página tem as cores e a alma do seu belo trabalho. Imagens de peças, quadros, depoimentos e reproduções de matérias de jornais, apresentam a vida desse artista que tem como um de suas principais características, a criação de peças inspiradas em brinquedos.

Tive a honra de dirigir um documentário sobre sua trajetória artística, registrando o desenvolvimento do seu processo criativo e abordando sua infância e adolescência na cidade de Camocim, a 400 quilômetros de Fortaleza. O filme, um curta-metragem captado em suporte digital, está em fase de finalização, e será transferido para película 35mm.

Em dezembro Dim fará uma exposição em Brasília com seus trabalhos mais recentes.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

a Terra em 2054

"Cansado dos repetitivos temas abordados em produções cinematográficas cearenses, como seca, pobreza, política e cangaço, o diretor Daniel Abreu estréia, em dezembro, o primeiro longa-metragem de ficção científica do Ceará, intitulado de 'Centopeia'.

O filme conta, através do olhar de um fazendeiro e uma astronauta, a história do evento de extinção mais severo que ocorrerá na Terra em 2054, que resultará na morte de aproximadamente 97% de todas as espécies do planeta. A extinção provocará uma mudança drástica em toda a fauna e marcará o início da segunda fase de evolução do ser humano."

Trecho da matéria no jornal O Povo, de Fortaleza, na edição de hoje. Texto completo aqui.

domingo, 4 de novembro de 2007