quarta-feira, 28 de novembro de 2007

na contradança da premiação

Maria Flor e Stepan Nercessian em "Chega de saudade", de Lais Bordanzky. Foto Beatriz Lefévre

Uma das características dos filmes do cineasta italiano Damiano Damiani, principalmente os da década de 60, são os finais surpreendentes e desconcertantes. Até fiz essa referência ao belo filme de Carlos Reichenbach, "Falsa loura", que concorreu no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Agora aplico essa comparação, de forma adversa, ao resultado do Festival de Brasília. Que premiação mais surpreendente e desconcertante, para não dizer decepcionante, principalmente na categoria de longa-metragem!

Premiar "Cleópatra", de Júlio Bressane, com seis candangos, entre eles, o de melhor filme, é subestimar demais filmes impactantes como "Falsa loura" e "Chega de saudade", de Lais Bodanzky, que pelo menos recebeu melhor direção, roteiro e júri popular. Mas ter que engolir Alessandra Negrini como melhor atriz desse festival, quando todo o elenco feminino (Beth Farias, Maria Flor, Conceição Senna, Cássia Kiss, Tônia Carrero, Marly Marley, Miriam Mehler, Clarisse Abujamra) do filme da Lais merecia o prêmio! Ou até mesmo as atrizes que de maneira coesa e apaixonante fazem as operárias em "Falsa loura". Djin Sganzerla foi justamente gratificada com a estatueta de atriz coadjuvante por sua brilhante atuação no filme do Carlão. Mas foi a única premiação! E outras categorias relevantes que estão lá no filme, como a fotografia de Jacob Solitrenik? De novo Walter Carvalho, premiado agora com "Cleópatra"! Antes fosse por "Chega de saudade", pelo qual também concorria.

Um dos atores mais injustiçados nessa esdrúxula premiação foi Stepan Nercessian, que juntamente com o veterano Leonardo Villar mereciam ser reconhecidos nas categorias de melhor ator. O filme de Lais Bodanzky tem um grande elenco, não há um personagem principal, todos têm atuações marcantes com seus papéis. Seria o caso de premiar coletivamente as categorias ator e atriz. Mas o júri é soberano, como se diz, e achou que Eucir de Souza e Milhen Cortaz se destacaram mais no filme de José Eduardo Belmonte, "Meu mundo em perigo", respectivamente como melhor ator e coadjuvante.

A direção de arte, o som e a trilha sonora dos filmes do Carlão e da Lais Bodanzky são bem melhores do que os de "Cleópatra", que ganhou nas três categorias.

A montagem de Paulo Sacramento em "Chega de saudade" foi outra injustiça. Não se compara ao trabalho técnico de Ricardo Miranda no documentário "Anabasys", de Paloma Rocha e Joel Pizzini. Sacramento editou com perfeição um filme difícil pelo grande número de músicas e personagens que se entrelaçam.

Nos filmes de curtas-metragens pelo menos reconheceram a qualidade de "Trópico das cabras", de Fernando Coimbra, que recebeu os Candangos de melhor filme, melhor atriz (Larissa Salgado) e fotografia (Lula Carvalho). Não seria demais ganhar ainda em roteiro e direção, que foram para os pernambucanos Camilo Cavalcanti, por "O presidente dos Estados Unidos", e o Leonardo Lacca, que dirigiu "Décimo segundo".

Numa das falas de Júlio César, na pele de Miguel Falabella no filme de Bressane, ele diz que "uma coisa é ser amado, outra é ser o amado". Se o júri escolheu "Cleópatra" como o amado por eles nessa 40ª edição do Festival de Brasília, vamos respeitar, o que não significa concordar. Pelo menos o público presente ontem na Sala Villa-Lobos que vaiou longa e duramente o anúncio da premiação final não concorda.

13 comentários:

Sidarta disse...

Mas você respeita cinema de milhão de incentivo fiscal que não tem público?

Não consigo respeitar quem vive de contatos, amigo dos poderosos de plantão, e não consegue pagar suas contas com bilheterias.

Se aqui fosse um País bem desenvolvido, mas falta muita escola e hospital.

Cinema de milhão financiado pelo estado é pior que corrupção. Os corruptos, pelo menos, negam.

Nirton Venancio disse...

caro Sidarta, o respeito que mencionei foi o de uma decis�o do j�ri do festival.

Sidarta disse...

Mas um juri que respeita quem, só pra mim, não merece o respeito também não merece lá muita consideração.

Agora, você Nirton, que não é cineasta e nem jurado, tem, claro, todo o meu respeito. Pode gostar ou não do filme, da forma como foi financiado, terá sempre o meu apreço. Pois, todo mundo que tem um blogue já tem a minha consideração pela coragem e capacidade.

Abraços,

Nirton Venancio disse...

caro Sidarta, eu sou cineasta. E já fui jurado em festivais. Com todo respeito.

Sidarta disse...

Então sabe muito bem sobre os círculos de apaniguados vivem dos seus contatos pouco republicanos e os incentivos fiscais que surgem destas relações, no mínimo, cinzentas.

Quanto ao conteúdo dos filmes "não-comerciais", nada contra ou a favor.

Acho muito engraçado quando um cidadão brasileiro me conta que não gosta de corrupção e, nem estou falando do Sr., ao mesmo tempo sequer respeita às leis de trânsito por exemplo.

Como se só tivesse sacanagem lá em Brasília ou na administração pública...rs..

Nirton Venancio disse...

caro Sidarta, "círculos apaniguados" existem em todas as profissões. Não generalizo conceitos. Cabe a cada um ser digno de suas atividades.

Carlos Reichenbach disse...

Nirton,
festival de cinema brasileiro que envolve dinheiro na premiação, está virando turfe, com direito até a claque contratada e organizada. Cometi a mesma besteira de GAROTAS DO ABC, e aceitei (convencido por sócios e amigos ) entrar na competição de Brasília. Tinha evitado o expediente em DOIS CÓRREGOS e BENS CONFISCADOS, que só foram exibidos fora de concurso ou em competições mais modestas (sem prêmio em dinheiro). Juro que isso só me rendeu alegrias. A não premiação da atriz Rosanne Mulholland, em Brasília 2007, foi o ápice da estupidez (e um ato quase ofensivo para com ela). Festival com prêmio em dinheiro, nunca mais!
EM TEMPO - Gosto muito de CLEÓPATRA e O MEU MUNDO EM PERIGO.

Nirton Venancio disse...

Meu caro Reichenbach, concordo com você sobre os festivais com premiação em dinheiro. Fiquei muito chateado com o que aconteceu com "Falsa loura", não somente pela não premiação da Rosanne, e sim pelo filme todo, que tem qualidades por todos os lados.

Vebis jr disse...

Nirto

Que pena que tu não conseguiu ver o filme "A volta do Regresso" do Marcelo Valletta. Um excelente curta em 16 em que o Valletta que montou meus filmes fez um trabalho exuberante....

Quanto as injustiças de Brasilia, parece sempre iminente isso rolar!

Abç

Vebis jr

Nirton Venancio disse...

Caro Vebis, com certeza terei oportunidade de ver o filme do Marcelo. Tinham me falado que "A volta" foi um dos melhores exibidos na mostra 16.
Abra�o!

vebis jr disse...

Nirto

Teu blog tá linkado ao meu ha séculos! Rs

Só ler a lista de links e verá em que lugar ele está!

abraço

Vebis Jr

Nirton Venancio disse...

eu tinha visto a link, Verbis. Eu que n�o tinha o seu. Valeu, meu caro!

Marcelo V. disse...

Valeu, Vebis!

Sou suspeitíssimo para falar, mas "A Volta do Regresso" era, disparado, o melhor filme da mostra em 16mm (aliás, dos 18 exibidos, era um dos três ou quatro que não foram captados em vídeo). Outros dois filmes, um do Rio e outro de São Paulo, também me chamaram a atenção, pela ousadia, contundência e rigor no conceito. Nenhum desses três ganhou um prêmio sequer. Os filmes premiados pelo júri encabeçado pela Marina Person não chegam a ser ruins, mas são menos originais e mais convencionais, muito parecidos com o que a gente costuma ver em festivais (ou seja, filmes "esperados", "no alarms and no surprises, please"). A mensagem que o festival me passou foi a de que a diversidade, a irreverência e a coragem não é bem-vinda; que os velhos (curiosamente, os atores dos dois principais curtas vencedores eram idosos) preconceitos devem prevalecer. Pelo menos não fui surpreendido, pois fui para lá sem a menor esperança de reconhecimento que não fosse o do público (e este veio, em ambas as sessões), para quem fiz o filme. Minha musa não é cavalo de corrida!

Tive de filmar em 16mm pela razão mais básica de todas: falta de dinheiro para fazer em 35mm (não tinha a escolha de fazer em digital porque é filme de conclusão de curso de cinema _e não "audiovisual"_, então a captação e a finalização em película é obrigatória). De agora em diante, pretendo trabalhar apenas com o digital. Abraços!