sábado, 24 de novembro de 2007

olhos livres

foto Dezenove Som e Imagem

Carlos Reichenbach está redescobrindo o cinema. Viva a internet! Viva o cinema livre, que ele baixa em seu computador! Um trabalho de prospecção, atrás de pepitas esquecidas pelo cinemão comercial, relegadas ao culto de pequenos grupos. “Minha visão de cinema, aos 62 anos, mudou.” O popular Carlão é filho e neto de editores. Sempre teve livros ao alcance da mão. Assim forjou sua cultura. Alimentou-se de ideário anarquista na juventude, pensadores como o revolucionário Sergei Nechaiev. “A noção de propriedade é nefasta”, discursa. “Propriedade autoral, então, não existe. Uma vez que um filme ou obra de arte foi mostrado ao público, é público. Não há por que impedir o acesso de filmes pela internet, filmes que já esgotaram sua vida comercial.”

Enquanto Reichenbach conversa na sala, seu computador fica ligado, baixando "Hienas", filme do senegalês Djibril Diop Mambéty. Está redescobrindo o cinema, em particular o africano e o italiano dos anos 1960, 1970. Encontra-se mergulhado na cinematografia de Damiano Damiani, autor de "Só resta esquecer" e "Confissões de um comissário de polícia ao procurador geral da república" (ambos de 1971). “Ele foi o cineasta dos finais desconcertantes. Qualquer pessoa incomodada com o poder, naquele tempo de regime militar, saía do cinema com a cabeça modificada. Era dinamite pura”, atesta, brilhando os olhos de subversão. “E cadê esse cinema hoje?”, provoca.

Cadê, Carlão? Não está no chamado “cinema de arte”, que chega chancelado pelos principais festivais europeus. Autores como Wong Kar-Wai, Michael Haneke e Lars Von Trier são dispensados num aceno de mão. “Isso é perfumaria, cinema de fetiche.” Está mais interessado nos filmes pequenos, no cinema de gênero e na tevê norte-americana, onde vê espaço para roteiros e idéias livres.


Trecho de uma ótima entrevista que o ótimo jornalista Bernardo Scartezini fez com o grande cineasta Carlos Reichenbach, no Correio Braziliense de hoje. Sou empolgado com esses dois caras. O primeiro escreve de uma maneira como pouco se vê no jornalismo brasileiro, tem um texto criativo, foge da mesmice que predomina nas páginas dos cadernos de culturas. O segundo é um poeta da imagem, um dissecador da alma, o mais sensível dos diretores de cinema no Brasil, além de um conhecedor profundo da cinematografia mundial, em particular um admirador do neo-realismo italiano - o que me faz ficar mais empolgado com o Carlão. Conversar com ele sobre cinema é tão prazeroso quando assistir aos seus filmes. Carlão é uma dessas pessoas que nos faz acreditar que a humanidade tem jeito.

Seu novo filme, "Falsa loura", concorre hoje no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

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