terça-feira, 27 de novembro de 2007

idéias curtas


Não faço a menor ideía de qual será o resultado hoje do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Parafraseando os comentaristas de futebol, cabeça de júri é uma caixinha de surpresa.

Desde que acompanho o festival brasiliense esta foi a pior safra em filmes curtas-metragens 35mm. Os rodados em 16mm há muito tempo deixei de assisti-los, não somente pelo horário em que são apresentados, deslocados do cine Brasília e com sessões vespertinas, quanto pela qualidade artística dos trabalhos igualmente deslocada. Aliás, por que ainda se filma em 16mm?! Ou se faz logo em digital ou em 35. Uma opção estética?

Voltando aos curtas deste certame. Lamentável a escolha do júri de seleção, quando se sabe de tantos outros filmes que ficaram de fora, e comprovadamente melhores, como bem atesta a Mostra Brasília, programação do festival onde são apresentados os filmes inscritos, curtas e longas, que ficaram de fora da competição, e acontece sempre nas tardes de sábado e domingo. Concorrem apenas ao Prêmio da Câmara Legislativa. Curtas como “Dia de visita”, de André Luiz da Cunha, “Dona Custódia”, de Adriana Vasconcelos, e "Cinema engenho", de Dácia Ibiapina, são de longe bem melhores dos que esses filmes da mostra oficial.

Na quinta-feira vaiaram um filme de Pernambuco, “Décimo segundo”, dirigido por Leonardo Lacca. Tudo bem, o filme aparentemente tem um fiapo de roteiro, e numa leitura apressada vem do nada e segue para lugar nenhum, mas não é nada disso, e há na gênese desse trabalho uma linguagem de cinema, um plano-seqüência muito bem definido, com silêncios muito bem construídos, e a presença do sempre ótimo Irandhir Santos, ator que ganhou o prêmio de co-adjuvante ano passado com “Baixio das bestas”, de Cláudio Assis, fez no início deste ano o Quaderna na minissérie “Pedra do reino”, de Luiz Fernando Carvalho. Irandhir tem presença marcante noutro filme, o quase bom “Amigos de risco”, de Daniel Bandeira, longa que abriu o festival.

Outro curta que foi recebido com frieza foi “Um ridículo em Amsterdã”, produção paulista, de Diego Gozze, um exercício de metalinguagem. A proposta é interessante, há momentos em que o diretor consegue confundir a platéia apresentando um falso documentário dentro do filme, o ator principal convence. E mesmo apontando uma e outra falhas, "Amsterdã" e "Décimo" ainda são melhores do que o irregular documentário “Tarabatara”, da paulista Júlia Zakia, sobre um acampamento de ciganos no sertão de Alagoas, ou o pretencioso “Enciclopédia do inusitado e do irracional”, (DF), de Cibele Amaral. Ou a demonstração inequívoca de não-cinema, "Eu personagem", (DF), de Zepedro Gollo, exibido ontem.

Um curta do festival que merece atenção é “Trópico das cabras”, do cineasta paulista Fernando Coimbra. Ali, sim, há um diálogo profundo com o cinema. Ali o cinema acontece. Ali tem um diretor por trás da câmera. Planos belíssimos, com um silêncio dos filmes de Antonioni. A imagem fala no enquadramento preciso, no desfoque terminante, na ausência de falas. Um roteiro simples e sincero para um tema ousado, com a magnitude do cinema na sua raiz. E uma atriz de estranha beleza, que tem um rosto de personagem grega que se imprime nas retinas até dos menos atentos, a brasiliense Larissa Salgado. A fotografia tátil de Lula Carvalho é outro destaque nessa obra-prima em curta-metragem.

Então, vejamos hoje à noite o que o júri pensa sobre cinema.

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