sábado, 31 de março de 2007

Braguinha e o cinema

foto Acervo Nirton Venancio

Carlos Alberto Ferreira Braga. Ou João de Barros. Ou simplesmente Braguinha, como ficou conhecido o compositor das clássicas marchinhas carnavalescas, “Chiquita Bacana”, “Yes, nós temos bananas", “Linda lourinha”, e até outros clássicos, como “Carinhoso”, em parceria com Pixinguinha. Ao todo, são mais de 400 títulos musicais.

Braguinha faria um século de idade antes de ontem. Foi embora em dezembro passado. Poucos sabem que o compositor teve forte ligação com o cinema, lá pelos anos 30, 40. Logo no início do cinema sonoro, foi argumentista de vários filmes, geralmente lançados no período momesco, como “Alô, alô, carnaval”, de Adhemar Gonzaga (1935), "Alô, alô, Brasil”, de Wallace Downey (1934) e “Banana da terra”, de Ruy Costa (1938).


Em 1939 dirigiu um filme, “Anastácio”, onde desmonstrou talento muito além da música. Assinado como João de Barros, o cineasta parou por aí. Mas continuou nos anos seguintes compondo para filmes. Fez as músicas para "Laranja da China", (1940) e "Abacaxi azul", (1944), ambos dirigidos por Ruy Costa. Em 1952, escreveu com Alberto Ribeiro as canções para "Beleza do diabo", de Romain Lessage, e em 1956, para “Eva no Brasil”, de Pierre Caron. Também foi responsável pela versão brasileira de produções da Disney, dirigindo dublagens e fazendo as versões para as trilhas sonoras de filmes como “Bambi”, “Pinóquio” e “Branca de Neve”. Consta que o próprio Walt Disney ficou impressionado com o trabalho e lhe ofereceu um relógio de ouro com dedicatória especial.


Em Brasília, o Centro Cultural Banco do Brasil está presenteando o músico, e o público, com a mostra “Braguinha, 100 anos – homenagem do cinema brasileiro”. Serão apresentados nove documentários sobre sua carreira, dos quais destaco “Braguinha – a flor do tempo”, de Fernando Faro (1993), “Braguinha descobre o Brasil”, de Mônica Serpa (2001) e “Braguinha, um João de Barro da MPB”, dirigido há dois anos por Dimas de Oliveira Jr. e Luis Felipe Harazin.

quinta-feira, 29 de março de 2007

cidadão Welles

Orson Welles dirigindo "Cidadão Kane" (Citizen Kane), 1941

"Prefiro estar filmando a estar fazendo qualquer outra coisa. Fico estonteado com meu amor ao cinema. Não em relação aos filmes, que nem gosto de ver. Adoro é fazer filmes."

terça-feira, 27 de março de 2007

tarja preta sem frescura

foto Saturna Produções

“Abandonei ‘Orquídea selvagem’ porque não conseguia falar com a Jacqueline Bisset. Tinha uma corte em cima dela: era um cara para cuidar do olho direito, outro do esquerdo... E olha que nem era aquela deusa de ‘A noite americana’”.


Paulo César Pereio, no seu programa “Sem Frescura” de hoje, às 21h30 no Canal Brasil, durante a entrevista com o ator Selton Mello. Aliás, entrevistador e entrevistado se misturam, sem seguir aquela estrutura tradicional, burocrática, de alguns programas do gênero.

Pereio, do alto dos seus bem vividos e debochados 64 anos de idade, foi convidado há uns três anos do programa comandado por Selton Mello, "Tarja Preta", que vai ao ar às sextas-feiras, também às 21h30, no mesmo canal. Agora é a vez do Pereio, ator de 95 filmes (estreou em 1964, em “Os fuzis”, de Ruy Guerra) fazer umas perguntinhas espirituosas, diretas, sem frescura, a Selton, que está em cartaz nos cinemas com o ótimo “O cheiro do ralo”, onde Pereio, ao telefone, faz a voz de um pai irado com o noivo de sua filha abandonada às vésperas do casamento.

Sobre “Orquídea selvagem” (Wild orchid), o único prejuízo foi não conversar com Jacqueline Bisset. Rodada em 1989 a produção americana dirigida por Zalman King é uma equivocada história ambientada na cidade do Rio Janeiro. O filme é fraco, fraquíssimo.

domingo, 25 de março de 2007

cinema brasileiro em Guadalajara

Hermila Guedes em "O céu de Suely", de Karim Aïnouz. Foto VideoFilmes


Filmes, exposições de cartazes e fotografias do cinema brasileiro invadiram as dependências do 22º Festival Internacional de Guadalajara, que ocorre no México até a próxima sexta-feira e ainda celebra Nelson Pereira dos Santos, com a exibição de quatro filmes de fases distintas de sua carreira: "Vidas secas" (1963), "O amuleto de Ogum" (1974), "Tenda dos milagres" (1977) e "Brasília 18%" (2006).

Além da apresentação de 11 dos 40 vídeos realizados no primeiro ano do projeto Revelando os Brasis, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura em parceria com o Instituto Marlin Azul, o festival ainda homenageará o Brasil com a exibição de "O céu de Suely", de Karim Aïnouz, e a retrospectiva Panorama do Cinema Brasileiro, com a apresentação de "O homem do ano" (2003), de José Henrique Fonseca, e "Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll" (2006), do gaúcho Otto Guerra.
A mostra de cartazes inclui peças confeccionadas pelo artista gráfico Fernando Pimenta. 70 fotografias do cineasta e fotógrafo Walter Carvalho compõem a outra exposição programada.

Fonte Correio Braziliense

segunda-feira, 19 de março de 2007

o cinema de Heitor Dhalia

Selton Mello em "O cheiro do ralo". Foto Filmes do Estação/Divulgação


“Meu compromisso é com o cinema, não com folclore. O humano me interessa. Claro que o regional contém o universal, mas não quero fazer apenas um tipo de cinema que faz muito sentido aqui no Brasil, mas lá fora é absolutamente irrelevante. Não quero preencher a cota do terceiro mundo.”


Ponto de vista do cineasta pernambucano-paulista Heitor Dhalia, que lança na próxima sexta-feira, 23, o imperdível "O cheiro do ralo", seu segundo longa-metragem. O primeiro filme, o expressionista "Nina", estreou em 2004, e, segundo o diretor, o diálogo com a radicalidade não foi fácil, "apesar de o filme ter fãs apaixonados no mundo inteiro, até na Coréia, no brasil houve uma reação reticente. Isso é muito doloroso."

quarta-feira, 7 de março de 2007

cinema no quilo

Rodger Rogério em "Capistrano no quilo". Foto Iluminura Filmes


Há quatro anos atrás a estátua do historiador cearense Capistrano de Abreu foi roubada por marginais. O fato ocorreu durante o feriado da Semana Santa, na praça da Lagoinha, no centro de Fortaleza.


O que poderia ser mais um "crime corriqueiro", tornou-se um episódio pitoresco quando o jornal O Povo, um dos maiores da capital cearense, publicou matéria sobre a recuperação da estátua, que por pouco não foi vendida como sucata pelos ladrões por ser revestida em bronze. Como escreveu o jornalista Roberto Maciel na página virtual do Observatório da Imprensa daquele ano, "foram usados termos como ‘seqüestro’, para se referir ao roubo; ‘guardando o cativeiro’, para definir a função de um dos acusados; e ‘habitante ilustre’, em relação à condição da estátua na praça. Tudo errado. Não houve seqüestro, mas furto e vandalismo; ninguém guardava cativeiro, porque no local não estava preso ninguém; estátua não habita local nenhum."


Foi a anti-homenagem do povo que ele, Capistrano, colocou como personagem da História? E se foi vendida, quanto se comeu com a venda do bronze? O fato policial motiva a discussão sobre a identidade brasileira, segundo o cineasta, professor e historiador cearense Firmino Holanda, no seu curta-metragem "Capistrano no quilo", que foi selecionado para competição no festival de documentários É Tudo Verdade, que acontecerá de 22 de março a 1º de abril em São Paulo, e se estenderá nas semanas seguintes nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Campinas e Porto Alegre.


Capistrano de Abreu (1853 - 1927) foi um dos maiores historiadores brasileiros. Seu livro "O descobrimento do Brasil", é um dos melhores sobre o tema, há no trabalho uma rigorosa investigação das fontes e visão crítica dos fatos como poucos fizeram.


Firmino Holanda, outro estudioso que tem uma visão extremamente crítica e lúcida sobre tudo, principalmente cinema, fez um filme à altura da importância do seu personagem e do curioso significado que o episódio do roubo suscita.


Entre outros curtas, Firmino dirigiu com Petrus Cariry o documentário "Cidadão Jacaré", exibido no DocTV III, que narra o encontro de Orson Welles com o Jacaré, líder dos jangadeiros de Fortaleza, que foi de jangada até o Rio de Janeiro, em 1942, reivindicar direitos trabalhistas.
O cineasta cearense é um estudioso apaixonado pela obra de Welles. Em 2001 publicou o livro "
Orson Welles no Ceará", em que reconstitui a passagem do diretor por terras alencarinas quando filmava "It's all true".

domingo, 4 de março de 2007

sementes do rock

Glenn Ford, ao centro, e Sidney Poitier, à direita, numa cena de "Sementes de violência", de Richards Brooks. Foto Acervo Nirton Venancio

"O cinema é um dos pais do rock'n'roll, porque este não é apenas música, é também atitude, topete, calça jeans, jaqueta de couro, rebeldia... E isto quem primeiro promoveu foram os personagens dos filmes O selvagem, produção de 1954, com Marlon Brando, e Juventude transviada, produção de 1955, com James Dean. Antes de Elvis Presley, os maiores ídolos da juventude eram exatamente os atores Marlon Brando e James Dean, ambos formados pelo Actor's Studios. Aliás, Elvis Presley foi lançado seguindo à risca o visual de James Dean, que morreu um ano antes de o outro se tornar astro. Mas, embora Juventude transviada e O selvagem trouxessem a rebeldia , faltava a esses filmes a sonoridade rock, porque sua trilha musical é jazzística, composta a primeira por Leonard Rosenman e a segunda pelo trompetista Shorrty Rogers.

A fusão do cinema com o rock veio num outro filme lançado em 1955: Sementes de violência, com Glenn Ford e Sidney Poitier, que mais uma vez trazia para as telas os conflitos de uma juventude em busca de seu espaço na sociedade. O diferencial desse filme estava na trilha sonora, que mostrava Rock around the clock com Bill Harley e seus Cometas. A música tocava apenas na abertura, durante a apresentação dos créditos, mas o suficiente para acender o rastilho da explosão musical do rock'n'roll.”


Trecho do segundo capítulo do livro “Roberto Carlos em detalhes”, editora Planeta, do jornalista e pesquisador Paulo César de Araújo, que estou lendo e gostando.
O autor faz um trabalho criterioso sobre o período musical que influenciou o cantor Roberto Carlos. A obra abrange muito mais do que isso, em termos de comportamento e de história da nossa música e seus personagens. Não tem nada de sensacionalista, de oportunista, muito menos de invasão de privacidade da vida do Rei, como foi alegado por ele ao ficar atordoado e mover um processo cível e criminal contra o autor, obrigando ainda a retirar o livro do mercado. Pisou na bola, meu caro Roberto, de quem sou fã. Sua estupidez não lhe deixa ver... que o livro é respeitoso, cheio de admiração, e definitivo sobre o maior cantor da história da música brasileira.

Paulo César de Araújo, um baiano conterrâneo de Glauber Rocha, de Vitória da Conquista, tem outro livro muito bom, “Eu não sou cachorro não”, de 2002, lançado pela Record, onde analisa a produção cultural brasileira no período da repressão, enfocando os cantores da chamada música brega.

sexta-feira, 2 de março de 2007

retrato de uma atriz

foto Dominique Valansi


Amanhã sintonizando o Canal Brasil, às 17h30, no Retratos Brasileiros, uma imperdível entrevista com a atriz Dira Paes.

O programa relembra a carreira de uma das maiores revelações do nosso cinema, surgida nos anos 80. Numa descontraída e animada conversa, Dira revela como surgiu sua paixão pelo cinema e conta como foram fundamentais para sua formação o acesso aos clássicos da literatura nacional, como "O Guarani", de José de Alencar e "Memórias póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis.

Tive o prazer de trabalhar com Dira no filme "Corisco e Dadá", de Rosemberg Cariry, o que me fez conhecer de perto o processo de composição de uma atriz extremamente dedicada e mergulhada no íntimo de um personagem.

Uma sugestão além do programa: uma entrevista no site Mulheres do Cinema Brasileiro, feita em 2005.

quinta-feira, 1 de março de 2007

Paisà 7


Uma matéria de capa sobre os dois filmes de Clint Eastwood em cartaz, "A conquista da honra" (Flags of our fathers) e "Cartas de Iwo Jima" (Letters from Iwo Jima); uma entrevista exclusiva com a cineasta paulista Tata Amaral, autora de "Antônia"; um artigo sobre os 50 anos da morte de Humphrey Bogart; ensaios, críticas, reportagens sobre festivais, lançamentos de filmes em dvd, discos e livros.


Esses são alguns dos assuntos na número 7 da ótima Revista Paisà, edição fevereiro/março. É para ler, reler, indicar, colecionar...